O Suor da Escrita

Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje. Natal, 03 set. 2007.
O Mossoroense. Mossoró, 06 set. 2007.

Escrever é um trabalho árduo, muito mais cansativo que aqueles outros que são realizados com o simples esforço físico. Ambos são trabalhos, ambos significativamente importantes para o sustento da humanidade; um para o espírito, outros para o corpo. Desde o inicio do chamado “processo civilizatório” que o ser humano escreve. Primeiro com a utilização de símbolos pictográficos, utilizando desenhos bastante simples para fazer analogia com a realidade concreta. Os desenhos rupestres do Lajedo da Soledade, no Município de Apodi, são exemplos dessa forma primitiva de comunicação. A evolução da escrita se deu quando os símbolos usados permitiram que se saíssem do campo eminentemente real, possibilitando a humanidade se expressar no terreno dos conceitos, das ideias. Isso somente foi possível com a criação de alfabetos, que representassem os fonemas das inúmeras línguas, faladas pelos diversos agrupamentos de pessoas.

Essas despretensiosas considerações as faço em atenção a alguns daqueles que fazem a meia meia dúzia dos meus leitores. Explicando melhor: diariamente recebo uma verdadeira enxurrada de e-mails. Alguns são simplesmente malas diretas, outros são mais ou menos pertinentes e outros tratam de assuntos relevantes. Mesmo a esses últimos não posso dar a atenção que gostaria de obsequiar. Vez ou outra, “pesco” alguns deles, quando algo me chama a atenção. Ultimamente têm sido repetitivos os e-mails que comentam (ou pedem para que eu comente) o fato de meus escritos abordarem fatos tão distintos como história, contabilidade, economia, administração, sociologia, política, biografia e outro que tais. Estranham, mais ainda, o fato de que eu faça “peças de ficção”, quando há tantos fatos importantes acontecendo na vida nacional e mesmo aqui, nesta Capitania do Rio Grande do Norte. É a esses leitores que me dirijo hoje, porém é possível que aos outros também interesse a minha resposta.

A diversidade de assuntos abordados em meus artigos é própria desse ser eclético que era o jornalista de antigamente, obrigado a fazer de tudo na redação: reportagens sobre política, esporte, polícia, economia, coluna social e até horóscopo. Eu sou dessa geração. Tínhamos que ser ambivalentes, pois tínhamos que conhecer de tudo um pouco. Por outro lado, nós os reportes, preparávamos e exercitávamos esses conhecimentos com muita leitura. Há, ainda, que se levar em consideração a minha formação acadêmica. Contabilidade, administração, sociologia, historia e economia são matérias que fazem parte do meu currículo escolar e do meu “métier” profissional.

E por que ultimamente estou me dedicando a escrever peças de ficção, que tanto pode ser rotuladas como pequenos contos ou como cônicas ficcionais? Por que recorrer à simulação e ao fingimento? Por que criar ou inventar coisas imaginárias, fantasia? Realmente não soube responder de chofre. Tive que me entregar a um processo de elucubração mental, de meditar e cogitar sobre esse “por que”. Depois de alguns minutos (ou foram segundos), eureca. Achei. Encontrei a resposta: eu estou que saco cheio de tanta irresponsabilidade, bandalheira, impunidade e fingimento. Estou revoltado com tanta gente morrendo em filas de hospitais, a espera que o poder público cumpra o seu dever constitucional de dar saúde ao povo. Estou revoltado com o analfabetismo pleno e funcional; com pessoas que não sabem ler ou que leem e não sabem o que estão lendo. Com professores que fingem que ensinam e alunos e que fingem que estudam. Não me conformo com os buracos nas estradas e com o descaso na segurança do tráfico aéreo. Com a segurança publica que não garantes nem mais os poderosos. Com a imprevidência da previdência social, com as aposentadorias mixurucas pagas aos trabalhadores da iniciativa privada e com as aposentadorias milionárias pagas a alguns privilegiados do setor público.

Meu Deus do céu, como pode alguns se ufanar de ser brasileiro com tantos descalabros, tantas poses e tantos “não fazer nada”. Ai está outro mistério: eu ainda me orgulho e me envaideço de ser brasileiro. Todavia só por essa maravilhosa terra e por esse maravilhoso povo.

Entenderam, agora, por que tenho me dedicado à escrita ficcional? É bem mais gratificante gastar o meu esforço mental e o suor da minha escrita no terreno do irreal, do faz de conta e nas manipulações de enredos; viajando na imaginação. Entretanto, mesmo assim, o absurdo da realidade nacional tem superado as minhas pobres qualidades de inventor do imaginário. Como é possível nós ficarmos contentes – e ficamos – somente pelo fato do Supremo Tribunal Federal (STF) ter aberto ação penal contra um bando de corruptos? Eles, os doutores juízes, apenas estavam cumprindo sua obrigação – aliás, para o que são muito bem pagos. Vejam bem: o Tribunal só aceitou a abertura do processo, ninguém foi condenado. Registre-se que, desde 1998, o STF não condena ninguém, apesar das 130 ações que lá ingressaram. Será que esse Tribunal também é uma ficção?