O SAL NOSSO DE CADA DIA VIII – AS CRISES ATÉ OS ANOS 60

Tomislav R. Femenick
Gazeta do Oeste. Mossoró, 11 nov. 2007.
Tribuna do Norte. Natal, 18 nov. 2007.

As crises da indústria de extração de sal marinho no Rio Grande do Norte são recorrentes; acontecem periodicamente e ressurgem após haver desaparecido. Essas crises têm tido causas determinantes de várias espécies, que tanto podem ser de ordem estrutural, econômica ou mesmo o comportamento da natureza.

No passado recente, talvez a maior delas tenha ocorrido durante a Segunda Guerra. No dia 28 de julho de 1942, submarinos alemães torpedearam e afundam os navios brasileiros “Barbacena” e “Piave”, no Mar do Caribe. Entre os dias 15 e 17 de agosto, os nazistas afundaram os navios “Baependy”, e “Araraquara”, “Itagiba”, “Arará” e “Aníbal Benévolo”, estes em águas da costa brasileira. No dia 22 desse mesmo mês, Getulio declarou guerra à Alemanha e à Itália e requisitou toda a frota da Marinha Mercante nacional. Estava criado um problema: não havia navios mercantes para transportar o sal do Rio Grande do Norte para o sul do país. Momentaneamente, essa situação paralisou a salinicultura potiguar e incentivou o aumento da produção no Estado do Rio de Janeiro, até pela elevação do preço de venda do produto. Entretanto havia um ponto inelástico: a área fluminense propícia à produção de sal representava somente 12,36%, do total nacional. A solução foi enviar o sal potiguar pelos meios disponíveis. Parte usando uma frota de barcaças, que saiam de Areia Branca e Macau e ia para Recife, Maceió, Salvador e, em alguns casos, até os portos do Rio e São Paulo. Outra parte usava o transporte ferroviário, de Angicos até Recife.

Outras crises foram criadas pelas enchentes do Rio Mossoró. Em 1961, o rio invadiu as salinas de Mossoró, Grossos e Areia Branca, provocando um serio prejuízo aos industriais salineiros, pela destruição de aproximadamente 600 toneladas de sal e das benfeitorias existentes nas salinas. Entretanto o maior prejuízo foi causado às iniciativas de mecanização das salinas, principalmente aquelas desenvolvidas pelos grupos S/A Mercantil Tertuliano Fernandes, F. Souto e por Paulo Fernandes e Miguel Faustino Souto do Monte. Infiltrando-se pelos muros de contenção, a “água doce” corroeu a laje de sal que estava sendo construída, provocou a danificação das máquinas e o atraso do processo de modernização do parque salineiro potiguar. Observe-se que, no ano anterior, a indústria do sal ocupava o segundo lugar no volume da arrecadação do Estado, contribuindo com mais de 25% para a formação da receita total.

Ao contrário do que ocorreu quando o Rio Jaguaribe destruiu as salinas de Aracati-Ce, o governo federal se negou a indenizar os produtores potiguares. A solução encontrada por Brasília foi a abertura de linhas de crédito nos bancos oficiais (Banco do Brasil e Banco do Nordeste, inclusos), com juros normais de mercado. Esses créditos compreendiam o refinanciamento das dívidas anteriores, recursos para a reconstrução das salinas, para a aquisição de novas maquinarias e formação de capital de giro. De qualquer forma, não havia como atender ao mercado consumidor, a curto prazo. A solução obvia: importar sal. Como somente o Instituto Brasileiro do Sal poderia autorizar tal importação, os produtores de sal solicitaram que a eles fosse dada tal autorização, tomando-se as quotas das salinas como base para distribuição do volume das importações (entenda-se: cada produtor tinha uma quota de produção estabelecida pelo IBS). Não foi o que aconteceu. A importação foi declarada livre para quem o quisesse fazer.

Estava criado o cenário para o prolongamento da crise, que perdurou até o final da década de sessenta. A situação tornou-se mais grave logo no início de 1967. Em janeiro daquele ano, descapitalizados, os industriais estavam devendo cerca de cento e vinte milhões de cruzeiros (cerca de R$ 1 milhão, a valor de hoje) ao Sindicato dos Trabalhadores da Indústria do Sal de Mossoró, correspondente à taxa sindical descontada nos vencimentos dos trabalhadores e que deveria ser paga em igual valor, pelos proprietários de salinas. Quatro mil trabalhadores entraram em greve, causando sérios prejuízos ao setor, que já vinha sofrendo profunda crise financeira. Quatro navios ficaram parados em Areia Branca, em virtude da greve, enquanto outros que se dirigiam aquele porto alteraram suas rotas. Agora havia sal, não havia como comercializá-lo.

Outro problema surgiu em decorrência das mudanças havidas pela implantação de novas tecnologias de produção. Uma delas, a lavagem do sal, originou uma disputa entre o sindicato dos trabalhadores e os produtores de sal. Enquanto o sindicato exigia que o pagamento aos empregados (contratados junto ao sindicato, pelo regime de contrato coletivo de trabalho) permanecesse pelo sistema anterior, as empresa salineiras pleiteavam que esse se desse após o sal ser devidamente lavado. No mesmo mês foi deflagrada uma nova greve. Não bastassem os problemas estruturais, financeiros, trabalhistas e os criados pelas políticas do governo federal, a natureza resolveu novamente contribuir para o quase caos reinante: as chuvas daquele mês atingiram o sal colhido, lavado e que se encontrava pronto para embarque. Somente uma salina da Sosal perdeu mais de 1.500 toneladas.

EU, REPÓRTER

No dia 10 de novembro de 1967, publiquei as seguintes notícias nos jornais Diário de Pernambuco, do Recife, e O Povo, de Fortaleza:

MATADOURO FRIGORÍFICO – O abate de gado, para fornecimento de carne à população mossoroense, é um dos mais sérios problemas com que se vêm defrontando os administradores públicos locais. Isso, tanto pelas deficientes e já inadequadas instalações do atual Matadouro, como pelas condições irracionais do sistema de abate dos animais. Por outro lado, o fator higiene também é preocupante, pois no prédio atual não existem locais adequados para depósitos de detritos e sangues do gado abatido e nem um fornecimento de água a altura do que exige um serviço dessa natureza. Agora, o presidente do INDA-Instituto Nacional de Desenvolvimento Agrário, senador Jerônimo Dix-huit Rosado Maia, entregou ao Prefeito Raimundo Soares de Souza, o projeto para a construção de um Matadouro Frigorífico Modelo para esta cidade, que será construído no bairro Belo Horizonte (Saco). Os trabalhos de construção serão iniciados ainda este ano.

PRÉDIO DO SESC – A Confederação Nacional do Comércio, através da Federação do Comércio do Rio Grande do Norte, concluiu a construir do SESC-Serviço Social do Comércio em Mossoró, localizada na Rua Almeida Castro, nas imediações da Praça da Redenção, onde atualmente já são ministradas aulas dos seus cursos regulares de treinamento. As solenidades de inauguração do novo prédio contaram coma presença do deputado Jessé Pinto Freire, presidente da Confederação Nacional do Comércio, que aqui veio especialmente para presidir esse ato.