O SAL NOSSO DE CADA DIA – VI – O PAI DO PORTO

Tomislav R. Femenick
Gazeta do Oeste. Mossoró, 28 out. 2007.
Tribuna do Norte. Natal, 28 out. 2007.

Foto aérea do Porto-Ilha de Areia Branca

O porto de Areia Branca foi inaugurado em março de 1974, entretanto a luta para que ele se tornasse realidade durou mais de meio século. Muitos foram os homens que dela participaram. Na primeira fase, Miguel Faustino, Jerônimo Rosado, Vicente Ferreira da Mota, Luiz Fausto e muito, muitos outros. Na segunda fase, Paulo Fernandes, Dix-sept Rosado, Vicente da Mota Neto, Vingt Rosado, Antonio Mota, Vingt-un Rosado, Aluízio Alves, Dix-huit Rosado, Francisco Ferreira Souto Filho, Dinarte Mariz, Tarcisio Maia e mais uma legião de pessoas, ligadas ou não à indústria do sal.

Entretanto o “pai do porto” foi Antonio Florêncio de Queiroz. Sua participação mais efetiva deu-se a partir de 1965. Naquele ano, apesar de o governo federal ter consciência da necessidade de se encontrar uma solução para o problema do embarque do sal potiguar, havia uma disputa entre os ministros Roberto Campos, do Planejamento, e Juarez Távora, da Viação e Obras Públicas. O primeiro defendia a tese de que o terminal salineiro fosse realizado pela iniciativa privada, com apoio e financiamento do BNDE (atual BNDES). O segundo se posicionava por uma obra totalmente governamental. Antonio Florêncio, representando os industriais salineiros de Mossoró e Areia Branca, entrou na luta ao lado de Juarez Távora. Paul Ferraz, em nome dos salineiros de Macau, apoiava a idéia de Roberto Campos.

A situação tinha chegado a um ponto critico de impasse, quando o então o presidente Castelo Branco convocou uma reunião com os ministros e os industriais do sal. Nesse encontro, enquanto Florêncio defendia a idéia de um só terminal do governo para servir, indistintamente, às salinas dos estuários dos rios Mossoró e Assu, Paulo Ferraz se posicionou pela solução privada, entretanto só para as salinas de Macau. O resultado foi uma solução intermediária: a criação de uma sociedade única, sob regime de concessão, que contaria com recursos federais.

Com o termino do governo Castelo Branco, tudo voltou à estaca zero. Procurando se antecipar aos acontecimentos, Antonio Florêncio foi aos Estados Unidos e de lá trouxe estudos e projetos, desenvolvidos pela Soros Associates International, Inc., que apontavam a viabilidade técnica de um porto-ilha em Areia Banca, e os entregou ao novo Ministro, o cel. Mario Andreazza. Na mesma época, acossado pela crise que atingiu os salineiros, na safra de 1965/66, Paulo Ferraz desistiu do porto de Macau. Quando tudo pareceu favorável ao projeto do porto-ilha, o Instituto Brasileiro do Sal, na época presidido por Vingt-un Rosado, publicou um estudo defendendo a construção de um porto continental em Mossoró.

Essa nova proposta poderia inviabilizar a construção do porto de Areia Branca, pois se teria que realizar novos estudos técnicos, o que demoraria alguns anos, para se chegar ao que já se sabia: os problemas do assoreamento do canal do mar de Areia Branca e da foz do Rio Mossoró, com obstrução, por areia e outro sedimentos, em consequência da natureza das correntes marítimas da costa e do fluxo e refluxo das marés, no estuário do rio.

Florêncio voltou à carga. Fez conferencia na Escola Superior de Guerra, na FIESP-Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, na FIERN-Federaçao das Indústrias do Estado do Rio Grande do Norte, na Câmara Municipal de Mossoró e inúmeros outros lugares, sempre defendendo o porto-ilha; não como a melhor, mas como a única solução racional e possível.

Embora que, em 1969, o governo federal já tivesse decidido que Rio Grande do Norte teria somente um porto salineiro, o de Areia Branca, ainda havia contratempos. Quando Florêncio tentou o apoio dos políticos, segundo suas palavras, “nenhum quis, naquela fase da luta, participar do nosso esforço, pois todos temiam desagradar uma área ou outra”. Daí nasceu a sua iniciativa de ingressar na política. Embora não sendo “homem de comícios e estardalhaços nem da tradicional conversa ao pé do ouvido”, se elegeu deputado federal por quatro legislaturas consecutivas, de 1971 a 1987. O seu primeiro mandato coincidiu com o inicio das obras de construção do porto, que se prolongaram até 1974.

Hoje o porto-ilha de Areia Branca conta com um cais de atracação de barcaças que tem extensão de 166 metros, de onde o sal é descarregado por três descarregadores; dois com capacidade de 350 toneladas por hora e um com capacidade de 450 toneladas por hora. O sal é estocado em um pátio com área de 15.000m2 e capacidade de 100.000 toneladas. Os navios são atracados em três colunas. Uma ponte metálica, com 398 metros de comprimento e com capacidade de 1.500 toneladas por hora, faz o carregamento das embarcações. O porto possui também duas pás carregadeiras e dois tratores, que operam no pátio de estocagem. A média diária de transferência de sal das salinas para o porto ilha é de 7.000 toneladas.

EU, REPÓRTER

No dia 29 de outubro de 1968, publiquei a noticia abaixo, no Diário de Pernambuco:

O TOURO E O CAPIM – Quase todos os setores da vida da cidade estão praticamente paralisados. O comércio diminuiu suas atividades, nas escolas as aulas são poucas, por falta de alunos ou de mestres. Os clubes sociais paralisaram suas atividades e os cinemas estão vazios. Pode-se dizer que Mossoró teve o seu aspecto totalmente modificado, no espaço de um mês.

A causa disso tudo é a luta que se trava pela sucessão municipal. A política tomou conta de tudo, e tudo gira em torno dela. Diariamente, as duas correntes fazem reuniões públicas e comícios, cada uma querendo superar as realizações dos adversários e de si mesma. Os comícios são verdadeiros desfiles carnavalescos com batucadas, escolas de samba e o povo dançando nas ruas e praças da cidade. Os oradores têm suas vozes abafadas pelo ritmo das frigideiras, pelo batuque dos tambores e pelo som estridente dos instrumentos de sopro. As passeatas são o ponto de toque e de comparação das duas correntes. Algumas delas chegam a percorrer mais de seis quilômetros altas horas da noite e, geralmente, terminam após as três horas da madrugada.

Disputam a Prefeitura de Mossoró o professor Vingt-un Rosado e o deputado estadual Antônio Rodrigues de Carvalho – o primeiro pela sublegenda liderada pelo seu irmão, deputado Vingt Rosado; o segundo sob a liderança do deputado e ex-governador, Aluísio Alves. O professor Vingt-un Rosado já foi presidente do extinto Instituto Brasileiro do Sal. Por sua vez, Antônio Rodrigues já foi prefeito de Mossoró e, por ironia, eleito com o apoio dos Rosados. Uma pessoa estranha a Mossoró nada entenderia. Até os símbolos utilizados pelas facções são pitorescos. Vingt-un (21, em francês) se utiliza do touro (21, no jogo do bicho) e Antônio Rodrigues o capim, que foi o símbolo na campanha que o levou à Prefeitura pela primeira vez, em 1957.