O SAL NOSSO DE CADA DIA – V – A ILHA DE AÇO

Tomislav R. Femenick
Gazeta do Oeste. Mossoró, 21 out. 2007.
Tribuna do Norte. Natal, 21 out. 2007.

Entre os anos de 1893 e 1895, cento e cinquenta e seis embarcações atracaram em Areia Branca, enchendo seus porões principalmente com sal. Em 1911, foram cento e treze navios nacionais e outros cento e cinquenta e três estrangeiros. Desses últimos, 50 eram alemães, 33 noruegueses, 30 ingleses, 17 dinamarqueses, 10 suecos, seis holandeses, quatro portugueses, um americano, um francês e um russo. O porto de Areia Branca movimentava anualmente entre 200 e 250 mil toneladas de cargas, enquanto o porto de Natal movimentava cerca de 40 mil e os de Fortaleza e Cabedelo, 90 mil cada um deles. Era o sétimo maior porto do Brasil, em movimentação de cargas, e contribuía com 58% das receitas portuárias do Estado, enquanto o de Natal contribuía com 40% e o de Macau com apenas 2%. A parte mais significativa das mercadorias exportações era sempre o sal.

Entretanto Areia Branca não tinha porto, era tão somente uma parada de navios em alto mar. Os estudos para a construção de um porto naquele local recuam ao ano de 1920. O primeiro projeto visava desassorear a foz do Rio Mossoró e construir um porto de acostamento, porém nada foi realizado. Quinze anos depois, os trabalhos foram retomados, ainda objetivando a melhoria da barra do rio, porém teve o mesmo resultado: nada foi feito. O tema só voltou à tona em 1951, com a pretensão de duas estações teleféricas; uma em Areia Branca e, posteriormente, outra em Macau. Em 1961 esse projeto foi posto de lado, quando o então Departamento Nacional de Portos, Rios e Canais reabriu a questão, contando com a assistência técnica do Laboratório de Hidráulica da Sogreah, de Grenoble, na Suíça, que montou um modelo reduzido, tanto para Macau como para Areia Branca. Daí novamente surgiu a idéia da construção de um porto continental em Areia Branca.

Dois anos mais tarde, o governo federal constituiu um grupo de trabalho, sob supervisão do Departamento Nacional de Portos e Vias Navegáveis, destinado a coordenar e propor providências relacionadas com a agilização da construção dos portos salineiros de Areia Branca e Macau. Em 1964, a Rede Ferroviária Federal S/A quis construir um ramal ferroviário, ligando Areia Branca e Macau à Natal, a fim de que o sal produzido no estuário dos rios Mossoró e Assu fosse embarcado no porto de Natal. Se vingada, essa idéia teria soterrado de vez a idéia de um terminal salineiro.

Em agosto de 1966, o governo solicitou que os produtores de sal aparentassem a solução para o problema, com base em estudos de viabilidade técnico-econômica, e no ano seguinte o Ministério Transportes firmou com eles um “Protocolo Básico de Convenção e Compromisso Mútuo”, pelo que se definiu a filosofia dos dois terminais salineiros do país. Em 1969 o governo federal adotou uma nova postura diante do problema: abandonou os projetos anteriores e, em vez de dois, ter-se-ia somente um porto salineiro no Rio Grande do Norte, o de Areia Branca. O novo plano previa que o projeto técnico para o porto de Areia Branca não sofreria modificações, o que abreviaria o prazo de início e término das obras de perfuração do subsolo marinho, de construção dos pilares de sustentação das plataformas e de colocação das maquinarias de embarque automático.

As marchas e contramarchas para a solução do problema portuário salineiro do Estado duraram mais de 50 anos, porém agora se tinha o perfil do porto; um porto-ilha artificial em alto mar, nas cercanias marítimas de Areia Branca.

O projeto do porto-ilha de Areia Branca foi elaborado por um consórcio internacional de empresas, composto pela norte-americana Soros Associates International, Inc. e pela brasileira ENCAL-Engenheiros Consultores Associados Ltda., ambas especializadas em sistemas de transportes. O projeto do terminal salineiro de Areia Branca ganhou o reconhecimento internacional pelas entidades de engenharia marítima e foi considerado um dos dez melhores projetos em todos os ramos da engenharia. Mede 92 metros de largura e 166 metros de comprimento. Foi aterrado com material de coral tirado da região e coberto com um piso de sal para garantir a pureza do produto armazenado.

O porto de Areia Branca foi inaugurado no dia 1º. de março de 1974. Na sua construção foram investidos 35 milhões de dólares, é uma construção de aço, mede cerca de 15 mil metros quadrados e é o principal ponto de escoamento do sal potiguar. A primeira operação ocorreu no dia 4 de setembro de 1974. Hoje é administrado pela Cia. Docas do Rio Grande do Norte-CODERN, empresa de economia mista, vinculado ao Ministério dos Transportes.

EU, REPÓRTER

No dia de outubro de 1970, publiquei no Diário de Natal a curiosa notícia a seguir. Curiosa porque naqueles tempos os acontecimentos policiais eram raros.

“Estelionatário dá “estouro” de seis mil cruzeiros em Mossoró – Dizendo-se funcionário do Instituto Nacional de Previdência Social e pertencente à Congregação Batista, um indivíduo de boa aparência, que aqui se demorou cerca de quatro dias, deu um verdadeiro golpe na praça de Mossoró. Bancos e comerciantes locais foram ludibriados pelo espertalhão em vários milhares de cruzeiros. Somente em cheques sem fundos, o estelionatário deu “bolo” em Cr$ 6.835,00. Depois que desapareceu misteriosamente da cidade, foi que as vítimas perceberam que José Newton Moreira da Silva Filho (seu suposto nome), natural de Petrolina-Pe, tinha agido de má fé. O caso já se encontra na delegacia de polícia local, onde estão sendo tomadas as devidas providências.

Depositando no Banco de Mossoró S/A um cheque no valor de Cr$3.600,00, contra o Banco Itaú-América, agência de Natal, o falsário conseguiu ter acesso a um talão de cheques do banco local. Os cheques emitidos por José Newton já se encontram em poder do tenente Clodoaldo de Castro Meira, delegado local. Usando de habilidade, o estelionatário efetuou no comércio compras de grande valor. Entre os objetos comprados, estão máquinas de cinema (projetor e filmadora), um gravador, um motor elétrico e confecções. A polícia de Mossoró já expediu comunicados às cidades e Estados vizinhos, para localização e prisão de José Newton. A propósito de José Newton, o pastor Otoniel Marques (da Congregação Batista de Mossoró, templo do qual se dizia membro) divulgou comunicado esclarecendo que nas ocasiões em que o larápio usou o nome da congregação, foi para ludibriar a boa fé da população local”.