O SAL NOSSO DE CADA DIA – IX – A CRISE SOCIAL

Tomislav R. Femenick
Gazeta do Oeste. Mossoró, 18 nov. 2007.
Tribuna do Norte. Natal, 02 dez. 2007.

Um estudo realizado pelo Setor Industrial do Ministério do Planejamento, na segunda parte dos anos sessenta do século passado, constatou que o preço ao consumidor do sal produzido no Brasil, especialmente no Rio Grande do Norte, estava entre os mais elevados do mundo. Quando procuraram as causas de tal fato, localizaram no sistema de produção – quase que artesanal, não mecanizado e com uso intensivo de mão-de-obra – uma das deformações que poderia inviabilizar o crescimento da indústria química inorgânica, que naquela época se instalava no país. Esse setor industrial é altamente dependente de cloreto de sódio. Em suas plantas de produção o sal é tão importante como o petróleo, carvão, enxofre e calcário. O problema é que enquanto o nosso sal custava mais de 30 dólares a tonelada, o produto o importado da Europa chegava aqui por 12 dólares CIF (cost, insurance and freight), isto é, importação que incluía custo, seguro e frete.

Esse problema também teria que ser levado em conta para os outros setores industriais que utilizavam o sal como matéria-prima básica ou complementar, direta ou indiretamente. Era o fato das indústrias de alimento, vidro, remédio, cosmético, siderúrgica, petróleo, fotografia, detergente, papel, celulose, cerâmica, têxtil e sabão, bem como no tratamento de couros e de águas, na metalurgia e na fabricação de tintas. Todas elas eram afetadas pelo alto custo do sal.

A questão era crucial e, como em qualquer outra atividade empresarial, a única forma de reduzir o preço de venda era reduzir o custo de produção, evitando desperdícios e incorporando novas tecnologias. Não haveria outro modo de se racionalização custos e aumentar a produção a não ser com a utilização de meios modernos. Para isso o governo federal criou os “programas de atualização tecnológicas” da Sudene e disponibilizou linhas de créditos para os salineiros. Sem dispor dos “recursos próprios” necessários para fazer a contrapartida dos financiamentos governamentais, os industriais salineiros do Rio Grande do Norte se associaram com grupos internacionais do setor, trazendo para cá capital, tecnologia e o espírito empreendedor desses empresários.

No caso específico das relações de trabalho, chamou atenção a extensão das mudanças quantitativas e qualitativas e a rapidez com que elas aconteceram. Até então, a mão-de-obra usada nas salinas era contratada, preponderantemente, através dos sindicatos dos trabalhadores, pelo sistema de contrato coletivo de trabalho. Em 1969, cerca de 10.000 pessoas eram filiadas ao Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Extração do Sal no Rio Grande do Norte, sendo 6.000 nas salinas de Mossoró, Grossos e Areia Branca, e 4.000 nas salinas de Macau e Porto de Mangue. Desses totais, apenas 5% prestava serviços permanentes nas salinas. A maioria deles compartilhava essa atividade com outras; trabalhava nessa atividade nos períodos de colheita do sal e era pequeno produtor ou trabalhadores rurais, nas outras épocas do ano.

No pós-guerra, durante muitos anos Mossoró, Areia Branca, Macau e Grossos viveram a febre do desenvolvimento da produção salineira, com as salinas disputando trabalhadores. Consequentemente, os ganhos desses profissionais eram bem maiores que a média dos outros operários. Quando veio a mecanização, essa trouxe consigo dois problemas. Primeiro, o novo trabalhador de salina deveria trabalhar com instrumentos até então desconhecidos no setor – tratores, pás carregadeiras, esteiras rolantes, motobombas etc. -, portanto ele deveria possuir uma outra base de conhecimento. Depois, haveria a redução do numero de trabalhadores.

O auge da crise aconteceu em abril de 1970, quando o desemprego era geral nas regiões salineiras. Mossoró, Macau, Areia Branca e Grossos passaram a contar com milhares de desempregados. No dia 27 de abril daquele ano, em Mossoró centenas de trabalhadores de salinas e seus familiares, que estavam passando por sérias privações em decorrência da falta de trabalho, se concentraram em frente da sede do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria do Sal, solicitando comida e solução para a crise social que se abatia sobre eles. Enquanto isso, outros se concentravam em frente da Prefeitura, com o mesmo propósito. O prefeito Antônio Rodrigues de Carvalho se reuniu com dirigentes do sindicato e adotou algumas medidas de urgência: autorizou a distribuição de gêneros alimentícios para os operários que estavam em situação de fome e a abertura de frentes de trabalho, para construção e conservação de estradas. Essas frentes deveriam empregar os salineiros sem ocupação e aqueles que trabalhavam na Colônia Bom Destino, de propriedade do sindicato, localidade nas proximidades do Distrito de Alagoinha, no mesmo Município.

Muito embora o ajuntamento de grande número de desempregado, em frente da Prefeitura e na região central da cidade, tenha espalhado na população mossoroense o receio de saque ao comércio, a manifestação dos salinistas foi feita num clima de calma e sem acirramento de ânimos.

EU, REPÓRTER

Como correspondente, publiquei em jornais do Nordeste as seguintes noticias sobre Mossoró, em um dia 18 de novembro do século passado:

CASAS POPULARES – Continua em ritmo acelerado a construção das 500 casas populares do núcleo habitacional da FUNDHAP, resultante de convênio firmado entre essa instituição e o BNH. O terreno onde estão sendo edificadas as moradias está localizado no bairro de São Manuel e foi doado por ação do prefeito Raimundo Soares de Souza. Serão edificados quatro conjuntos residenciais. O primeiro com 144 casas, dois com 108 e o último com 140. Para maior integração dos moradores da comunidade, também serão construídos ambulatórios, mercado público, clube social e escola. O Ministério de Minas e Energia perfurará um poço, para abastecimento de água, e a COMEMSA construirá uma rede de distribuição de energia elétrica. Espera-se que a construção dessas casas esteja concluída em fins de dezembro ou início de janeiro (Diário de Pernambuco – 18.11.1967)

PONTE VELHA E PONTE NOVA – A ponte que ligará a avenida Presidente Dutra a rua Santos Dumont, poderá ser concluída e inaugurada ainda este ano. Turmas de operários trabalham durante dia e noite, num regime de 24 horas ininterruptas, para garantir a sua conclusão até o final de dezembro próximo. A ponte atual (a única sobre o Rio Mossoró) foi construída na administração do Padre Mota, há aproximadamente 25 anos, teve sua estrutura prevista para trafego de veículos de até dez toneladas e tem uma faixa de rolamento de somente 4,02 metros. Hoje ela suporta trânsito intenso e simultâneo nos dois sentidos, numa média diária de 1.800 veículos, inclusive carretas de até 60 toneladas, provenientes tanto da cidade como de três rodovias federais e duas estaduais. É nas vias que lhe dão que se registra a maioria dos acidentes de trânsito da cidade (Diário de Natal – 15.11.1970; O Povo – 18.11.1970).