O SAL NOSSO DE CADA DIA – II – A CRISE DOS ANOS 60

Tomislav R. Femenick
Gazeta do Oeste. Mossoró, 30 set. 2007.
Tribuna do Norte. Natal, 30 set. 2007.

Confirmando a história: a nossa palavra “salário” deriva do latim “salarium, ii”, e esta de “sal, salis”, que, por sua vez vem do grego “hals, halos”, que tanto significa sal como mar. O sal é usado na Europa há mais de cinco mil anos. Em 1300 antes de Cristo, as minas de sal de Hallstatt, na região alpina da Áustria, já eram exploradas e, por volta de 800 a.C., o comércio desse produto era efetuado em toda a Europa Central. Uma das principais estradas do império romano era a “Via Salaria”, que ligava a capital do império ao Mar Adriático, numa extensão de aproximadamente 240 quilômetros. Essa estrada era a rota utilizada pelos Sabinos (um povo da região central da península itálica), para levar sal até à bacia do rio Tigre. Ainda hoje é um dos principais acessos a Roma, e ainda existem vestígios dela nas regiões de montanha, tal como da Porta Salina, na Muralha Aureliana.

O comércio de sal sempre atraiu a atenção e a cobiça dos governantes. Em 1340, Filipe VI, rei da França, criou um monopólio estatal para o sal e instituiu o “gabelle”, imposto que vigorou da forma original até a revolução republicana de 1789, ocasião em que foi temporariamente extinto. Ressurgiu quando Napoleão tornou-se imperador e perdurou até ser definitivamente extinto, em 1946. A produção e o comércio dessa mercadoria foram objetos de legislações especiais tanto na Ásia como na África. Na China, há cerca de quatro mil anos, o sal era considerado como de “extraordinário interesse para a coletividade”. Um dos mais antigos tributos criados no mundo foi a taxação sobre sal, instituído em 2200 a.C., pelo imperador chinês Hsia Yu.

No Brasil colônia (e em Portugal), a Junta da Repartição do Sal foi implantada em 1641, somente sendo extinta em 1852. Durante o Estado Novo, o governo federal criou o Instituto Nacional do Sal-INS, que tinha como função principal assegurar o equilíbrio entre a produção e o consumo do produto. No governo de Juscelino Kubitschek, em 1957, o INS foi reorganizado, passando a se denominar Instituto Brasileiro do Sal-IBS. Dez anos depois, em 1967, o instituto foi extinto, sendo substituído pela Comissão Executiva do Sal, órgão integrante do Ministério da Indústria e do Comércio, já extinta.

No Rio Grande do Norte a exploração legal das salinas data de 1802, porém os primeiros passos em direção à exploração racional do produto foram dados somente na década de cinqüenta do século passado, quando o sal ocupava o segundo lugar no volume da arrecadação tributaria do Estado, contribuindo com aproximadamente 25% da receita total. Até então o setor adotava métodos empíricos e tradicionais. Em todas as operações se usava quase que exclusivamente a mão humana. Poucas eram as fases em que se usava algum tipo de máquina, isso mesmo todas simples. Um relatório da época dizia que, “da passagem das águas para os chocadores, cristalizadores, na colheita, empilhamento e transporte para os navios e barcos são empregadas diretamente cerca de 10.000 pessoas”. Os pioneiros da mecanização foram Miguel Faustino Souto do Monte, Antonio Florêncio de Queiroz, Francisco Ferreira Souto Filho, Paulo Fernandes, Paulo Ferraz e outros. A pressão pela racionalização do sistema produtivo salineiro no Estado deu-se em função de dois fatores principais. Primeiro, pelo alto custo da mão-de-obra, vez que o trabalho dos “salinistas” era regido por legislação própria, que lhes garantia direitos adicionais, até pelas peculiaridades, insalubridade e periculosidade do trabalho nas salinas. Depois, pela baixa produtividade obtida pela manufaturação convencional.

Outro momento crítico da indústria salineira do Rio Grande do Norte foi a grande cheia do Rio Mossoró, havida em 1961, quando cerca de 600 mil toneladas de sal foram destruídas pelas águas. No dia 29 de abril daquele ano foi realizada uma reunião em Natal, da qual participaram o governador Aluízio Alves, o superintendente do Sudene, Celso Furtado, e representantes dos industriais, trabalhadores, comerciantes e transportadores do sal (eu estava representando o Banco do Nordeste), quando foi proposta uma ideia mirabolante: a construção de uma salina única, na qual a Sudene teria participação majoritária, em substituição às salinas existentes. A justificativa para isso seria a redução dos custos de produção e a manutenção da competitividade da indústria salineira potiguar.

Obviamente que a ideia não prosperou, pois não havia como conciliar os interesses conflitantes dos próprios empresários do setor. Entretanto, foi a partir daí que se deu o passo definitivo para a consolidação de uma indústria salineira com uma visão moderna e sintonizada com a modernidade. Mas havia um problema: o transporte do sal entre as principais fontes produtoras, localizadas no Nordeste brasileiro, e os maiores consumidores, estes localizados na região centro-sul do país. Esse era o maior ponto de estrangulamento de toda a cadeia produtiva do sal. Difícil de ser superado, no entanto tinha que ser solucionado. Ai veio o porto-ilha.

O HOMEM DO CIRCO

Na manhã de um sábado, chegou em Mossoró um desses circos-teatros mambembes, que costumavam perambular pelas cidades do interior do Nordeste. Armavam a tenda em um terreno baldio, quando receberam a visita do fiscal, querendo saber se eles tinham licença da Prefeitura para se apresentar na cidade. O dono disse que não sabia disso, pois nas outras localidades nunca lhe tinham pedido coisa nenhuma, mas se prontificou a ir à Prefeitura regularizar a situação. No entanto, já era sábado à tarde e o expediente se encerrava ao meio dia. Criou-se o impasse: de um lado, o fiscal querendo cumprir as determinações do prefeito; do outro, o dono do circo sem querer perder o faturamento do final de semana. Sabendo que Padre Mota gostava de circos, por mais mediano que os espetáculos fossem, o fiscal sugeriu que o proprietário fosse até a Matriz falar com o prefeito, pois, naquele horário, ele estava ouvindo as confissões dos fiéis que iriam comungar nas missas do dia seguinte.

Ao chegar à igreja, o cidadão perguntou onde estava o Padre Mota e lhe apontaram um confessionário. Entrou na fila e, quando chegou a sua vez, ajoelhou-se e contou seu problema ao prefeito. Querendo entabular conversa, ainda no confessionário, o Padre lhe perguntou se ele também se apresentava no circo ou se era somente o dono.

– Eu sou dono, trapezista e acrobata – respondeu o artista.
– Então, eu quero ver as suas habilidades como acrobata, replicou o reverendo.
– Onde, no circo?
– Não, aqui mesmo na igreja.

Para não perder a receita do fim de semana, o rapaz saiu fazendo acrobacia no centro da Matriz de Santa Luzia. Mais tarde, saíram juntos. O prefeito deu a autorização e, na incumbência, de padre, benzeu o circo. Depois quis saber se ali havia algum casal vivendo junto sem ser casado. Fez dois casamentos: o do proprietário, cuja mulher estava esperando o segundo filho, e o do artista que fazia o papel de galã na peças do teatro, com a moça que se equilibrava no arame.