O Reino, a Riqueza e o Valor

Tomislav R. Femenick
Tribuna do Norte
. Natal, 22 maio 2011.
Gazeta do Oeste
. Mossoró, 19 maio 2011.

Entre os anos ano 300 e 850 D.C., chegaram à região onde hoje se localizam as atuais repúblicas de Zimbábue, Zâmbia e Malaui, povos vindos de terras próximas ao lago Tanganica. Eram da etnia chona (shona ou xona). As primeiras informações escritas que se tem a respeito desse povo data do ano 945, quando um historiador árabe escreveu sobre um reino uaclimo, grande produtor de ouro, marfim e ferro. Segundo ele, o rei desse povo era poderoso e dominava vários outros reinos, que lhe prestavam vassalagem e lhe pagavam tributos. A religião era teísta (que aceita a existência de deuses humanos), admitindo a existência de vários deuses, inclusive o rei. Entretanto esse mesmo rei-deus era passível de ser morto pelos seus súditos, quando não seguia os costumes e a lei, esta baseada na tradição.

Oitocentos anos depois da chegada dos chonas, foram realizadas as primeiras edificações de pedra que integram um dos mais intrigantes monumentos da história da raça negra e uma das maiores e mais notáveis construções da Idade do Ferro, conhecida como o Grande Zimbábue. Os primeiros prédios teriam sido erigidos por volta de 1100 e as grandes muralhas entre os anos 1350 e 1400. Acredita-se que tenha sido a corte real e um centro de rituais religiosos.

Ao serem redescobertas, em 1905, o caráter monumental dessas obras levou alguns estudiosos ocidentais, que possuíam larga carga de preconceito, a propor a teoria de que eram realizações de um povo perdido, não natural da África ou até mesmo que teriam sido os árabes que haviam projetado as grandes construções de pedra. Hoje o Grande Zimbábue é reconhecidamente um dos mais importantes sítios arqueológicos da África Negra. E não há mais dúvidas; esta é uma realização dos chonas, um povo negro.

No princípio do século XV o reino já tinha atingido um grau sofisticado de organização política, transformando-se em um império. Foi nesse período que Vasco da Gama aportou na ilha de Moçambique, então um simples enclave árabe. Os relatos de seus diários de bordo fazem referência à riqueza e cultura desse povo da costa oriental africana. Antes de partir, o navegador luso mandou bombardear a cidade. Na sua chegada a Lisboa, recebe “honrarias e mercês”, entre outros motivos por ter localizado as famosas minas de ouro. O nome Monomopata lhe foi dado pelos primeiros portugueses que dele tomaram conhecimento.

Em 1501, Pedro Álvares Cabral, de regresso das Índias, para onde foi após ter descoberto o Brasil, enviou um emissário à “terra do ouro”, objetivando trocar tecidos de algodão e miçangas pelo metal precioso. No ano seguinte Vasco da Gama voltou à região, onde estabeleceu a primeira feitoria portuguesa na ilha de Moçambique e iniciou os estudos para a construção de uma fortaleza e outra feitoria, em Sofala, que serviria para canalizar a corrente de ouro que brotava das minas monomopatas.

O mito, a verdade, o simbolismo e o fascínio do ouro contagiaram até Luís de Camões. Em seu grandiloquentíssimo poema laudatório dos feitos e conquistas portuguesas, Sofala é citada em pelo menos três ocasiões. “… as ondas navegamos, de Quíloa, de Mumbaça e Sofala […], donde a rica Sofala o ouro manda […]. Olha a casa dos negros […], qual bando espesso e negro de estorninhos, combaterá em Sofala a fortaleza Nhaia com destreza” (1º Canto, verso 54; 5º Canto, verso 73, e 10º Canto, verso 94, respectivamente).

A existência do Grande Zimbábue somente foi possível pela riqueza acumulada pela venda do ouro a outros povos. O ouro foi o meio de troca usado pelo monomopata para adquirir outras mercadorias que sua sociedade necessitava para viver: alimentos, produtos manufaturados etc., pois o ouro tem pouco valor de uso, além da fabricação de objetos de adorno pessoal e de ambiente. Exauridas as minas, o reino perdeu sua fonte de riqueza e ficou sem valor de troca. O fim do reino foi o melancólico. O poder se fragmentou, a população migrou para outras regiões e as construções monumentais se transformaram em ruínas invadidas pela vegetação da savana africana.

Esses acontecimentos são ricos em lições para os dias presentes de nossa República. Não nos basta ter grandes reservas de moedas fortes, que nesta segunda década do século ultrapassam a casa do US$ 300 bilhões. É preciso saber utiliza-las bem e não gastá-las importando grandes quantidades de produtos de consumo, muitas vezes supérfluos e que poderiam ser fabricados aqui. Temos que importar mais máquinas, equipamentos de produção e tecnologia – e obter realmente a autossuficiência na produção de petróleo, por exemplo.