O Racional e o Lúdico

Tomislav R. Femenick

Tribuna do Norte. Natal, 05 nov. 2011.

 

Quando desenvolveu o ferramental teórico para construir sua filosofia econômica, social e política, Karl Marx a sustentou, entre outros, no conceito de que “não é a consciência dos homens que determina o seu ser; é o seu ser social que, inversamente, determina a sua consciência”. Isso é, independente da vontade do ser humano, sua forma de pensar seria resultado da estrutura econômica da sociedade em que vive.

Nos anos sessenta do século passado, o filosofo canadense Marchall McLuhan propagou suas ideias tendo como suporte duas premissas básicas: os meios de comunicação são extensões do ser humano e a expansão dos meios de comunicação teria transformado o mundo em uma aldeia global. Esses conceitos tiveram pouca repercussão no mundo econômico até o advento da Internet e sua abertura para uso comercial, em 1988, dando o impulso que faltava para a globalização dos negócios, da política, da cultura e de tudo o mais.

Aqui temos duas proposições filosóficas que se chocam ou se complementam? É a economia que determina nossa forma de raciocínio ou é a expressão do pensamento que determina a economia? A resposta para essas indagações comporta um tipo de estudo que foge ao propósito em um artigo de jornal. Porém enseja que se faça algumas especulações sobre o assunto, comparando fatos históricos e deles tirando algumas conclusões. Vejamos algumas delas.

Até o século XV todo o saber da humanidade era armazenado em cópias manuscritas, reproduzidas uma a uma, e restritas a um público muito limitado. Na Idade Média foram os mosteiros católicos que trouxeram a si a responsabilidade de copistas e de guardiães do conhecimento, num mundo em que predominavam reis e cortesãos guerreiros, rudes e analfabetos. Poucos, inclusive alguns mercadores, fugiam à regra. Isso tudo começou a mudar com o advento da imprensa, dos tipos móveis e da prensa gráfica, a invenção do alemão Johannes Gutenberg, em 1439. Primeiro foi a Bíblia, depois livros de todos os tipos foram editados e espalhados pela Europa e de lá seguiram os caminhos “nunca dantes navegados” pelos homens e pelos livros.

Os livros sedimentaram padrões linguísticos (o dialeto londrino tornou-se a língua da Inglaterra e o dialeto da Toscana tornou-se a língua oficial da Itália), foram responsáveis pela solidificação do conceito nacional dos povos e, principalmente, uma das causas da reforma protestante e da contrarreforma católica. No campo da economia, haviam os Almanaques que divulgavam informações sobre agricultura, “aritmética comercial”, preços de mercadorias, leis mercantis e de navegação, rotas marítimas, tabelas uniformes de cálculos, padrões de medidas, construção de navios etc. Um dos livros que teve maior repercussão foi o “Summa de arithmetica, geometria proportioni et propornalità” (Súmula de aritmética, geometria, proporção e proporcionalidade), do frei Luca Pacioli, o criador da contabilidade moderna. Livros didáticos sobre medicina, arquitetura, astronomia, navegação, geologia, química, metalurgia, tecelagem já eram comuns no século XVI. Paralelamente o número de escolas e de universidades cresceu exponencialmente.

O resultado da ampliação de conhecimento foi a alteração do modo de pensar dos homens, pois a leitura força a concentração do pensamento, induz ao raciocínio e o raciocínio leva à análise, à critica e à busca de provas. Foi daí que nasceram as ideias de Copérnico, Kepler, Galileu Galilei e de vários outros pensadores. Foi o livro o fato gerador do Iluminismo, este um movimento europeu do século XVIII que firmou a predominância da razão sobre o poder do Estado e das religiões. A leitura e a escrita são, pois, atos racionais, capazes de revolucionar a economia, a política, a sociedade e até mesmo a fé.

Em nosso tempo vivenciamos uma revolução similar. A Internet, além de ter se transformado em um meio de negócios é, também, essencial para qualquer transação econômica. Praticamente não há aplicação financeira, investimento, compra ou venda de mercadorias e serviços sem o uso da informática e da rede internacional que interliga os computadores. Além do mais, vários sites fazem a junção de outros meios de comunicação: a escrita, o rádio, o cinema e a televisão, democratizando as notícias, as análises dos fatos e o saber acumulado pela humanidade. O problema é que a captação sensorial das informações computadorizadas, especialmente da Internet, se dá pelos sentidos da visão e da audição, em um ambiente em que a tela do computador é a atração dominante, fato que nos leva mais a um ambiente de sensação lúdica que racional. Somos muito menos críticos com o computador que com os livros.

Marx e McLuhan tinham razão, cada um com a sua concepção do homem e do mundo.