O que a gente quer

Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje. Natal, 18 fev. 2008.
O Mossoroense. Mossoró, 21 fev. 2008.
Metropolitano. Parnamirim, 22 fev. 2008.

“A gente quer valer o nosso amor” para com esta grande nação, integrada por todas as raças, todos os credos, todos os pensamentos. Gente que aqui nasceu, que para cá veio pensando em construir um novo mundo ou mesmo aqueles que vieram à força, trazidos da África, mais que aqui sempre sonharam com a liberdade.

“A gente quer valer nosso suor”, construindo uma nação em que nossos filhos e netos tenham um futuro tranqüilo e glorioso, edificado com o suor do nosso trabalho, mas recebendo salários dignos e não famigeradas balsas que visam comprar votos para o governo. Queremos um país que dê oportunidade de trabalho aos nossos jovens, que hoje são explorados pela demagogia eleitoreira do programa primeiro emprego ou dos estágios que nada ensinam – quando são premiados com essas circunstâncias.

“A gente quer valer o nosso humor”, queremos voltar a ser um povo espontaneamente risonho e franco e não aquele que ri de suas próprias mazelas. Hoje somente temos o humor negro daqueles que riem dos desenganos, dos desacertos e desconcertos dos que estão aboletados no poder ou, quando não, um humor escachado, grosseiro e primário, que caracteriza os desesperançados e desesperados.

“A gente quer do bom e do melhor” para nossa família, nossos vizinhos, amigos e até para os desconhecidos. Queremos mais comida na mesa, mais e melhores transporte e tudo o mais, sem ter que comprar produtos falsificados. Queremos leite sem água oxigenada e sem solda cáustica, pão sem brometo de potássio, carne certificada igual a que vai para a Europa, verduras sem agrotóxicos, calçados que não se desmanchem em nossos pés, escolas que verdadeiramente ensinem, telefones que funcionem, TV a cabo sem toneladas de propaganda.

“A gente quer a atenção”, dos políticos que elegemos. Mas, acima de tudo queremos respeito. Estamos saturados de todos esses escândalos. Chega dos mensalão e mensalinhos, gafanhotos, sanguessugas, cartões corporativos, servidores públicos cuja capacitação é somente o pistolão que o indicou. Aliás, estamos cheios dos senadores, deputados, vereadores e outros funcionários públicos que trabalham pouco e ganham muito e que só pensam em se dar bem em suas vidas privadas, inclusive com amantes pagas com o nosso dinheiro.

“A gente quer ter saúde”, para não precisar entrar na fila do SUS ou dos planos fajutos. Chega de falcatruas na compra de remédios, equipamentos médicos e na construção de hospitais. Chega de ONG’s de fachadas, que são somente postos eleitorais financiados pelo governo.

“A gente quer viver a liberdade”, sem ser patrulhado pelos sectários ou bajuladores de nenhum partido. “A gente quer viver felicidade”, a felicidade que não estamos tendo.

Queremos tudo isso porque “a gente não tem cara de panaca, não tem jeito de babaca, não está com a bunda exposta na janela, para ninguém passar a mão nela. A gente quer viver pleno direito, viver todo respeito, viver uma nação, ser um cidadão”.

NOTA: Esta crônica foi inspirada pela magnífica letra da música “É”, de autoria de Gonzaguinha, o filho do grande Luís Gonzaga que morreu em 1991, vitima de acidente de transito. Durante a ditadura militar ele sempre teve uma postura de crítica em relação ao regime, o que causou a censura de 72 de suas composições. Grande Gonzaguinha.