O PSEUDO-INTELECTUAL

Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje. Natal, 21 jul. 2008.
O Mossoroense. Mossoró, 26 jul. 2008.

Como professor universitário, tenho um vício profissional. Quando estou corrigindo trabalhos de meus alunos e vejo que alguns deles estão tentando enrolar, criando situações e argumentos inverossímeis, escrevo na margem do texto: “a falsa cultura e é pior que a falta de cultura”. Essa minha afirmação, no entanto, não é restrita ao âmbito das relações ensino-aprendizado. Na vida real ela também se aplica. Por toda parte há intelectuais que nada mais são que atores de uma comedia, pois de intelectuais essas figuras grotescas nada têm.

Recebi na semana passado um e-mail de um amigo com um título que me chamou a atenção; “Como tornar-se um intelectual em poucas lições”. O texto possui algumas dicas para quem não quiser fazer feio em uma reunião de pseudo-intelectuais e recomenda:

1. Comece todas as frases com uma citação de um filósofo, de preferência com um nome alemão, o mais obscuro possível.
2. Se não souber o nome de nenhum filósofo alemão obscuro, procure saber o nome de qualquer jogador de futebol da 3ª divisão austríaca, e lhe atribua uma frase da sua própria autoria. O seu interlocutor não se dará ao trabalho de confirmar.
3. Ouça alguns fragmentos de música clássica, o suficiente para criticar qualquer uma delas, com qualquer pessoa que encontre à sua frente.
4. Leia a orelha e a contracapa dos livros que encontrar na livraria mais próxima, e critique-os junto dos amigos, com cara de quem leu os livros na íntegra.
5. Vá ao dicionário (ou à enciclopédia) e procure as dez palavras com maior número de sílabas que conseguir encontrar. Empregue-as avidamente.
6. Se não quiser ter o trabalho de memorizar as dez palavras, utilize o máximo possível de estrangeirismos. Para este efeito dê preferência a alocuções latinas, francesas e inglesas, pela ordem.
7. Utilize o máximo possível de palavras terminadas em “ismo”, tais como “interpretatismo”, “conceitualismo”, temperismo” e outras, mesmo que não signifiquem coisa nenhuma.
8. Veja filmes antigos e os utilize para comentá-los com expressões tais como: “é o metapsiquismo do transexistencialismo crônico, na observância das condições “sine qua non” para a hermenêutica da propedêutica”.
9. Fale pouco em muitas palavras. Não diga, por exemplo, “Vou beber água”. Fica muito melhor a um pseudo-intelectual dizer “Vou repor o balanço hídrico”. Ainda melhor, poderá dizer: “Vou fazer como a Frieda, o personagem do livro “As Virgens do Lago”, de Von Klinkerhoffen, na cena em que ela fala com se dirige ao seu tutor filosófico” – ninguém sabe quem é o Von Klinkerhoffen. Imagine o quanto você brilhar ao dizer que esta verborréia toda significa que vai beber água.
10. Comente as notícias dos telejornais dos canais estrangeiros, da TV a cabo. Qualquer que seja a besteira que você diga ninguém vai notar, pois seus amigos (como você) nunca assistem a esses noticiários.
11. Fale de tudo sem dizer coisa nenhuma, com o ar de quem é o maior perito do mundo no assunto sobre o qual falou.
12. Regra de ouro: Critique, critique, critique… Lembre-se de um ditado muito utilizado entre os músicos: Quem aprende música e sabe tocar, vai ser músico. Quem não sabe, vai ser crítico.
13. Bajule – bajule muito – os ouros pseudo-intelectuais.
14. Fuja – fuja correndo – de perto dos intelectuais verdadeiros. Eles, somente eles, podem descobrir que você é apenas um bocó metido a besta.