O PRESIDENTE TRAVESSO

Tomislav R. Femenick

 vinheta172

Estávamos em um dia do início do mês de abril do ano de 1961, quando recebi um telegrama. Era sucinto e estava escrito quase que em linguagem cifrada. Dizia, mais os menos: “Entrevista marcada próximo dia dezenove pt Esteja no local ptpt alvorecer das 16h. Cabral”. Era parte de uma verdadeira operação de guerra, montada pelos Diários Associados a meu pedido. Foi operacionalizada pelo quartel-general aqui do Nordeste, da então maior cadeia jornalística da América Latina. Os chefões eram Paulo Cabral, Otacílio Colares, Manuelito Eduardo, Antonio Camelo, Hilton Mota, Fernando Trigueiro e Arnoldo Jambo. Depois eu soube que foi importante a participação do jornalista Carlos Castelo Branco, o Castelinho, secretário de impressa da presidência. Objetivo: entrevistar o presidente Jânio Quadros. Então, a “tradução” do telegrama seria: “O presidente Jânio concordou com a entrevista, marcando-a para o dia 19 de abril, no Palácio da Alvorada, às quatro horas da tarde. Assinado Paulo Cabral”. Guardei o dia porque era meu aniversário.

Já contei em artigo anterior a minha entrada no jornalismo, aos treze anos de idade, e a minha nomeação para o cargo de subsecretário (corresponderia hoje, mais ou menos, ao de chefe de redação) do Jornal de Alagoas, dois anos depois. Ocupei esse cargo até 1956, quando voltei para o Rio Grande do Norte. Mesmo aqui, eu mantinha contatos regulares com o Diário de Pernambuco, Jornal de Alagoas, Unitário, Correio do Ceará e, como não poderia deixar de ser, com o Diário de Natal. Em março de 1961, eu estava de férias no Recife quando, em visita ao velho Diário, me encontrei com o jornalista Paulo Cabral e sugerir a ideia da entrevista com o presidente. A operação foi montada e o telegrama era o “abre-te sésamo” das portas do Palácio Presidencial. Depois houve um adiamento e a entrevista foi remarcada para o dia 25 de abril, uma terça-feira, no mesmo horário.

Chegou o grande dia. Nervoso, lá estava eu meia hora antes. Já tinha entrevistado Juscelino, mas na ocasião ele era só candidato. Presidente da república, não. Nenhum. Jânio ia ser o primeiro. Fui recebido por Carlos Castelo Branco, uma figura emblemática do jornalismo brasileiro. As horas foram se passando. De vez em quando alguém vinha me avisar que o presidente estava pondo em dia a sua agenda que estava muito atrasada, mas que ele iria me receber. Por volta das dez da noite, Castelinho se despediu de mim, pois tinha compromissos fora, e mandou que me servissem uns sanduíches e guaraná. Li todos os jornais e revistas que estavam disponíveis nas mesas da Secretaria de Imprensa, até que as três e 25 minutos da manhã do dia seguinte (olhei no relógio) um funcionário me levou para uma sala pequena e estreita do Alvorada. Lá estava o presidente.

O local estava com o ar condicionado ligado em frio máximo; por isso o presidente usava colete e casaco. Sua excelência estava com cabelos assanhados, com os olhos arregalados e em um estado que preconizava êxtase. Pensei que ele estivesse cansado de tanto trabalhar. Até que pressenti um halo, uma auréola etílica. Mais adiante ouvi um arroubo, que recendeu a whisky. Veio o fotógrafo, o presidente penteou os cabelos, arrumou a roupa. Do ponto de vista jornalístico, a entrevista foi um verdadeiro fracasso. Jânio somente reafirmava posições já conhecidas por todos: defendeu o comércio e as relações diplomáticas com a União Soviética e com as chamadas Democracias Populares da leste europeu; a desvalorização da moeda; a retirada do subsídio governamental ao petróleo, fertilizantes agrícolas, farinha de trigo e do papel de imprensa; a interdição das brigas de galo, dos desfiles com biquínis, das corridas de cavalos durante a semana, e o uso do uniforme tipo safári para os funcionários públicos.

Todas as perguntas que eu fazia eram desviadas para esses assuntos. Quando eu sugeri ao presidente que ele fosse mais preciso em suas respostas, ele saiu da sala, mas antes pegou uma garrafa de whisky Cutty Sark que estava embaixo de uma mesa. Entendi que a entrevista tinha sido dada por encerrada. Na tarde desse mesmo dia, voltei a me encontrar com Castelinho e juntos fizemos o maior malabarismo para conferir algum interesse jornalístico para a matéria, inclusive fazendo comentários sobre as dificuldades de Jânio em dialogar com o Congresso Nacional.

Anos depois, entrevistei Jânio Quadros outra vez. Ele agora disputava novamente o governo do Estado de São Paulo. Estava bem diferente. Quase humilde, respondeu a todas as minhas perguntas, mesmo tangenciado aquelas relacionadas com a sua renúncia. A matéria foi publicada no Diário de São Paulo e distribuída por todos os outros órgãos da cadeia Associada. Só para informar aos leitores mais jovens, nessa eleição ele foi derrotado por Ademar de Barros.