O PADRE, A ESTÉTICA E A ECOLOGIA

Tomislav R. Femenick
Gazeta do Oeste. Mossoró, 11 mar. 2007.
O Jornal de Hoje. Natal, 12 mar. 2007.

Na década de trinta do século passado não era comum no sertão nordestino o sentimento ecológico. Nem o termo “ecologia” era conhecido. A palavra ecologia, que quer dizer o estudo do lugar onde se vive (do grego oikos, que significa “casa” ou “lugar”, e logia, “estudo” ou “reflexão”), foi usada pela primeira vez pelo Dr. Ernst Haeckel, um cientista alemão, em 1869, para designar a parte da biologia que estuda as relações entre os seres vivos e a natureza. Hoje identifica, também, uma das ciências humanas, a que estuda a estrutura e o desenvolvimento das comunidades humanas em suas relações com o meio ambiente, as consequências dessa convivência, os efeitos de novas tecnologias sobre a organização social e os elementos naturais.

Nos anos trinta nem a palavra ecologia nem a percepção desse conceito eram de conhecimento comum, mas Luiz Ferreira Cunha da Mota, o Padre Mota, também não era um nordestino comum. Suas preocupações para com as coisas da natureza e do ser humano é que o levaram a pensar em se formar em agronomia, antes de pensar em ser sacerdote. Suas inquietações para com as pessoas é que o fizeram padre. Suas atitudes e visões para com a sociedade é que o fizeram aceitar o cargo de Prefeito. Além do mais, ele tinha uma refinada sensação de estética, tanto com respeito à beleza sensível como dos fenômenos artísticos.

Falando sobre o conceito artístico e filosófico da estética e a situação em que encontrou as ruas de Mossoró quando ele assumiu a prefeitura, o Padre Mota deu a seguinte opinião: “A estética é algo intrinsecamente ligado à beleza e à natureza da arte, porém, a partir de Kant, começou a tomar a configuração de conceito filosófico. Ele concebeu que o valor estético de algo resultaria de uma projeção do intelecto e da imaginação, que nada mais seria que o aperfeiçoamento do ser humano em formar conceitos, tendo por base a intuição e a sensibilidade. Hegel foi mais além, pois intuiu que a raiz da estética é o próprio belo artístico criado pelo homem, num processo em que este transforma o mundo enquanto transforma seu próprio espírito. A estica seria mais bela quando mais ela seja uma expressão humana sobre suas ideias a respeito de Deus. Quando eu estudei na Itália, as obras de Benedetto Croce eram muito lidas, principalmente aquelas que se relacionavam com as artes. Segundo ele, todo trabalho artístico é uma forma de expressão individual do artista, da qual brotaria o lirismo. Para mim isso tudo é verborragia pura e nada mais. Estética é nada mais nada menos que uma sensação de beleza harmônica, que se sente quando se ver uma determinada coisa, ouve um dado som, sente um determinado tato e até um certo paladar. Aquelas ruas eram feias, cinzenta, pardacentas, ensolaradas ao excesso, sem vida”.

Segundo Vingt-un Rosado, foi a junção dessas duas características – o apego à estética e a percepção para enxergar feiuras físicas e intelectuais – que levaram o Padre-Prefeito a encher as ruas, praças e avenidas de Mossoró com “Fícus Benjamim”. Não era só o ato de plantar, era também cuidar, aguar, tratar contra pragas, proteger contra os animais e contra despedrações. As mudas eram plantadas em terra adubada, eram protegidas por engradados e, se vingassem, o dono do imóvel em frente do qual ela foi plantada tinha um desconto no imposto predial.

O Fícus Benjamim é uma planta exótica, isso é, não natural do Brasil. É originária da Ásia, principalmente da Índia, Tailândia, em Cingapura, Brunei, Indonésia e áreas circunvizinhas. Pode cresceu até 15 metros, sua madeira é de grande resistência e da cor branca. É uma das mais difundidas para ornamento, inclusive porque se presta à arte de criar esculturas vegetais. Suas folhas, perenes e brilhantes, fazem do Ficus uma árvore com copa densa e lustrosa.

Entre 1936 e 1940 Padre Mota mandou plantar 1.000 árvores; de 1941 a 1945, mais 500. Todas as mudas que não cresciam por qualquer motivo, eram substituídas por novas. Sempre havia 1.500 pés de “Fícus Benjamim” em Mossoró. Sua grande copa de folha verde escuro amenizava o calor irradiado do sol, que a cidade recebe constantemente. As ruas, já pavimentadas, com uma ou várias camadas de argila e pedra, já não permitiam que o vento nordeste levantasse a poeira do chão e desse uma cor de cinza às fachadas das residências e casas comerciais. A cidade ficou mais acolhedora e humana. Mesmo nos períodos de secas, o verde da fronde dos fícus permanecia e se destacava do imenso pardavasco em que a região se transformava. Segundo Cascudo, o “Padre Mestre venceu a poeira empedrando as vias [públicas]. Só não venceu o calor, mas plantou pés de fícus para cobrir de sombra doce a face candente das ruas”.

Os fícus perduraram por muitos anos, depois que o Padre Mota deixou a Prefeitura. Até que em 1961 chegaram ao Brasil os “lacerdinhas” (o nome “lacerdinha” foi colocado no inseto como uma “homenagem” dos inimigos de Carlos Lacerda, então governador do Estado da Guanabara). Vieram da Ásia Oriental e aqui se transformaram em praga. É um inseto pequeno, que mede entre 2 a 2,5mm de comprimento. Põe seus ovos nas folhas do Fícus Benjamim, cobrindo-os com uma espécie de teia semelhantes as das aranhas, fazendo com que as folhas se enrolem e se fechem.

O resultado é que Mossoró ficou infestada de lacerdinhas que se entranhavam no cabelo das pessoas, entravam nas roupas e nos olhos. Nesse último caso, quando caiam nos olhos, era uma dor infernal e deixava a pessoas segas por alguns segundos. Houve até acidentes de trânsito, principalmente com motocicletas e bicicletas. Todos reclamavam, pedindo a erradicação dos insetos. O prefeito da época, final dos anos sessenta, era Raimundo Soares que apelou para o setor de erradicação de pragas do departamento de zoonose do Ministério da Agricultura. Ao chegar a Mossoró, os técnicos foram taxativos: só havia uma solução, sacrificar as arvores. Os inseticidas eram ineficientes para o combate da praga, cujos ovos são protegidos por teias que retorcem as folhas, fazendo com que essas se transformem em proteção contra a burrificarão. Além do mais, a ordem do governo militar era erradicar todos em pés de Fícus Benjamim.

Mossoró perdeu a sua proteção verde, sonhada e realizada pela estética do seu prefeito, o Padre Mota.
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Immanuel Kant, filósofo alemão cujo realismo crítico é um marco da filosofia ocidental. Georg W. Friedrich Hegel, também filósofo alemão, último dos grandes criadores de sistemas filosóficos dos tempos modernos, lançou as bases das principais tendências posteriores. Benedetto Croce, filósofo e historiador italiano que se destacou por sua oposição ao fascismo e por seus estudos sobre estética.