O OUTRO “OURO BRANCO” DO OESTE

Tomislav R. Femenick
Tribuna do Norte. Natal, 23 maio 2010

Armazens de M. F. Monte & Cia., em1915

A liderança empresarial do oeste potiguar foi, durante muito tempo, baseada em dois produtos que, juntos, eram as principais fontes da formação de renda do Rio Grande do Norte. O curioso é que cada um deles era conhecido como sendo “o” ouro branco. Na verdade tínhamos dois ouros brancos: o sal e o algodão. O sal sempre se destacou como atividade do Oeste e seu parque salineiro se concentrava no litoral e nas desembocaduras dos Rios Mossoró e Assu. Presente em outras regiões, principalmente no Seridó, no Oeste a cultura do algodão se espalhava por todos os municípios.

As atividades ligadas à cotonicultura remontam à época do povoamento e formação social, política e econômica das localidades ali situadas. No caso específico de Mossoró, temos registros de grandes ações empresariais ligadas ao comércio, beneficiamento e exportação de algodão, que datam da segunda metade do século XIX. Relatos de 1841 citam que, na região “as atividades agrícolas só desfrutam de alguma expressividade através da cultura de algodão”. Em 1868, foram fundadas a Casa Mossoró & Cia. e a empresa de Johan Ulrich Graff, dedicadas (entre outras atividades) à compra e exportação de algodão; em 1870, a Francisco Tertuliano & Cia; em 1872, a William Dreffren & Cia.; em 1883, a empresa de Romualdo Alves Galvão; em 1890, a Borges & Irmãos – todas elas tendo como um dos seus setores a compra ou beneficiamentos e exportação da rama e do caroço do algodão. Nesse período, “as ruas e praças [eram] apinhadas de fardos de algodão por falta de armazém”. Depois, “iam embarcando diretamente para a Europa, não faltando vapor no porto” de Areia Branca.

Nos anos 10 e 20 do século passado projetava-se no ramo a M. F. Monte & Cia. Nos anos 40, duas empresas mossoroenses se destacavam no setor algodoeiro. A Tertuliano Fernandes & Cia dispunha de descaroçadores, prensa fábrica de óleo em Mossoró, e usinas de beneficiamento em Pau dos Ferros, Alexandria, São Miguel, Almino Afonso, Umarizal e Iracema (CE). Por sua vez, a Alfredo Fernandes & Cia. possuía doze usinas, localizadas em Mossoró, Caraúbas, Patú, Pau dos Ferros, Alexandria, José da Penha, São Miguel, Upanema e Paraú e uma fábrica de óleo em Mossoró. Vinte anos depois essas organizações tinham se expandido e formavam os grupos empresariais S/A Mercantil Tertuliano Fernandes e Alfredo Fernandes, aos quais se juntaram outras grandes organizações, a Indústria e Comércio de Óleos Ltda (antiga Joaquim Duarte & Cia.), a CICOSA e a Antonio Neo & Cia., bem como a Indústria de Óleo São Luís – esta era uma empresa construída quase que artesanalmente.

Desde o inicio contando com a participação de capitais estrangeiros, a cotonicultura do Oeste Potiguar nos anos 60 registrava a presença das chamadas “três irmãs” inglesas: SANBRA-Sociedade Algodoeira do Nordeste Brasileiro, Anderson Clayton e Machine Cotton. Elas trabalhavam diretamente em todas as etapas do ciclo algodoeiro. Financiavam o agricultor, compravam e beneficiavam a pluma do algodão, extraiam o óleo do caroço do algodão e vendiam esses produtos nos mercados interno e externo. Na safra de 1969/70, a SANBRA produziu sozinha 35% dos fardos de algodão do Rio Grande do Norte, o que a colocava na liderança do setor.

No entanto, a cotonicultura há muito vinha sofrendo de problemas estruturais. Havia falta de crédito, de assistência técnica e de incentivos, problemas que reduziram o campo operacional desse “ouro branco”, tanto no Oeste como no Rio Grande do Norte. A crise já se descortinava, pelos altos custos de produção e consequente perda da capacidade de concorrência do algodão nordestino. Agravando o quadro que já era grave, o óleo de caroço de algodão passou a sofrer a competição do óleo de soja nacional e de óleos vegetais provenientes de países da Europa Oriental, União Soviética e a Romênia, cuja importação foi autorizada pelo governo federal, ainda em 1968. De nada valeram os argumentos do então presidente do Centro das Indústrias do Estado do Rio Grande do Norte (entidade sediada em Mossoró), Heriberto Escolástico Bezerra, e do presidente da Associação Comercial de Mossoró, Francisco de Fernandes Senna, junto às autoridades federais, mostrando o perigo de tal medida para a combalida indústria de óleo de algodão.

Por sua vez, a pluma de algodão também era alvo de uma concorrência quase que invencível: o surgimento no mercado das fibras sintéticas, tais como o nylon, a viscose e o poliéster, tornou a fibra de algodão – natural, com maior resistência, durabilidade e qualidade -, um produto caro, o que reduziu a sua demanda em todos os mercados.

Paulatinamente, as empresas algodoeiras do Oeste potiguar foram sendo desativadas. Todas as grandes e médias desapareceram. Suas instalações, quando não deram lugar a outras empresas de outras atividades são, como diz o historiador Geraldo Maia, só “fogos mortos” ou lembranças do tempo áureo da cotonicultura.