O mundo perdeu o juízo

Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje. Natal, 14 jan. 2008.
O Mossoroense. Mossoró, 17 jan. 2008.
Metropolitano. Parnamirim, 25 jan. 2008.

A História é a memória da humanidade, formada por um conjunto de símbolos e atributos registrados em escritos ou guardados no imaginário dos povos. Ela nos conta as origens, evolução, auge e decadência das nações, o comportamento das pessoas, estruturas e superestruturas sociais que determinam os acontecimentos e situações; a trajetória do homem ao longo dos tempos. Assim é a história, como ciência. Isso tudo está implícito na própria origem e no significado da nossa palavra “história”. Como compartimento do saber, ela surgiu por volta do século VI a.C., quando Heródoto resolve investigar e registrar alguns fatos e criou algo parecido com aquilo que hoje chamamos de historiografia. Ele tinha por objetivo narrar acontecimentos e, algumas vezes, explicar as suas causas, porém partindo de uma perspectiva heroica, sem qualquer comprovação da veracidade dos fatos ditos.

Durante alguns séculos, a história foi apenas um gênero literário entre tantos outros, compondo um gênero maior, a prosa, porém uma prosa heroica, grandiloqüente, que contava fabulas dos deuses, semideuses e heróis. Na Antiguidade houve alguns avanços, mas não se chegou a uma historiografia comprometida com a verdade. Só com Tucídides é que houve alteração nesse campo. Ele foi um dos pioneiros, quando procurou empregar um processo rigorosamente lógico. No seu principal trabalho, a “História da guerra do Peloponeso”, a guerra entre Esparta e Atenas, acontecida no século V a.C., relatou os fatos procurando explicar suas causas. Por sua vez, os escritos de Polibio, grego como Tucídides (que desenvolveu seus trabalhos em Roma, para onde foi levado como prisioneiro de guerra), sempre eram precedidos por investigação; se possível com observações in loco dos cenários dos eventos, analise de fontes documentais existentes, entrevista com veteranos das guerras que descreveu, ou informações presenciais dos eventos descritos. Seus trabalhos influenciaram diversos pensadores, entre os quais Cícero, Tito Lívio e até de Montesquieu.

A marcha da historiografia, no caminho de se transformar em ciência, teve um passo certo no historiador árabe Abdrrahman Ibn Khaldun (1332-1406) que, não obstante a grande carga teológica dos seus escritos, já dizia que: “para escrever obras históricas é preciso dispor de numerosas fontes e variados conhecimentos. É também preciso um espírito reflexivo e profundo para permitir ao investigador atingir a verdade e defender-se do erro”. Sua principal obra é “Al-Muqaddimah” (prolegômenos, prefácio longo), uma introdução para uma história das dinastias mulçumanas do Magreb, a região do Norte da África, conhecida pelos antigos como África Menor, que se estende do Marrocos ao Oeste da Líbia, abrangendo a planície litoral do Mediterrâneo e os montes Atlas. Esse “prefácio” terminou se transformando em algo mais importante que a obra em si. Nelo o autor desenvolveu conceitos tão diversos como a divisão do trabalho, teorias sobre impostos, economia livre e liberdade de escolha. Por essa amplitude de abordagem, há quem diga que ele seria um precursor de Adam Smith, David Ricardo, Marx e Keynes. Exageros a parte, a forma como Khaldun tratou desses temas e, ainda, sua postura metodológica, suas teorias políticas e sociológicas e sua interpretação “quase” materialista, foi algo novo na historiografia.

A história deu um salto evolutivo quando deixou de ser meramente uma expressão literária para ser uma ciência. Primeiro colocaram a historia como um segmento da filosofia. Depois, questionaram se ela contribuía para a formação do saber da humanidade ou mesmo se produzia algum conhecimento que pudesse ser válido. Hoje, a visão que se tem dessa ciência é mais clara. Ao mesmo tempo em que é considerada uma forma de produção literária, a escrita sobre a trajetória do ser humano ao longo dos tempos tem como escopo relatar e analisar elementos verdadeiros, demonstráveis, que possam ser provados por elementos concretos ou, quando esses não forem disponíveis, por meio de raciocínio concludente. Nesse percurso, a “forma narrativa” perdeu o seu lugar de destaque e de importância para outros elementos: a “exatidão da narrativa” e para as fontes que lhe dão sustentação.

Às vezes eu fico pensando no trabalho que os historiadores do futuro terão para entender, narrar e explicar os dias de hoje, onde o “non senso” predomina: terroristas soltam reféns e são agradecidos por isso; no governo dos trabalhadores, os maiores beneficiados são os banqueiros; partidos de oposição brigam entre si para aparecerem como “o mais” contra o governo, mas fazem acordo com os representantes do governo. Ou eu estou ficando ranzinza, rabugento e impertinente ou o mundo perdeu o juízo.