O MAGRIÇO

Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje. Natal, 06 ago. 2007.
O Mossoroense. Mossoró, 09 ago. 2006.
Metropolitano. Parnamirim, 10 ago. 2007.

Florípedes Romualdo Fernandes de Albuquerque Prado e Magalhães, tinha um corpo avantajado, era solteirão aos quarenta anos e era amanuense, funcionário de condição modesta, do único cartório de sua cidade, no interior do Estado. Além do mais era provisionado, pois recebera autorização para substituir o dono nas suas ausências. Lá fazia toda espécie de serviço: registros, anotações de casamentos, divórcios e falecimentos e, também, redigia as escrituras e cuidava do arquivo. Só não varria, espanava e fazia café porque estas eram as tarefas de dona Josefa, uma viúva pobre que era tia do Dr. Arnaldo, o escrivão titular do tabelionato.

Florípedes começou a trabalhar no cartório quando seu dono era o avô do Dr. Arnaldo e este era um menino levado, que vivia correndo de bicicleta pelas ruas da cidade, jogando bola ou fazendo outra estripulia qualquer. Foi contratado porque tinha letra bonita e era considerado um rapaz sério. A partir de estão adotou seu traje oficial: terno preto, gravata preta (às vezes com alguns adornos brancos) e camisa impecavelmente branca. Mais tarde acrescentou três adereços: deixou a barba crescer, adotou um par de óculos de armação grossa e preta e na lapela esquerda do paletó uma singela comenda de tecido roxo, identificação dos associados da Ordem Primeira de São Francisco, da Igreja matriz da Paróquia.

Além do mais, ele era considerado um sujeito de cultura e idéias avançadas. Era professor de português na escola noturna de segundo grau e cultor de palavras cruzadas; resolvia quase todas que lhe caiam nas mãos. Tinha em sua casa um arquivo de tudo o que era publicado sobre a cidade na imprensa da capital e umas poucas plaquetes, que ele orgulhosamente chama de sua “hemeroteca telúrica”. Mas essa sua reputação se firmou quando o resumo de uma carta sua saiu na coluna de leitores de uma revista semanal de circulação nacional, e um pequeno artigo de sua autoria foi publicado em um jornal de bairro da capital, ambos tratando sob a preservação de uma dança exótica do folclore dos imigrantes ucranianos, radicados em Santa Catarina, lá no sul do país. Para homenageá-lo, pelo reconhecimento estadual e nacional de seu cabedal intelectual, o dono do cartório mandou fazer dois quadros com os recortes da carta e do artigo e, numa solenidade que contou com a presença de convidados ilustres, pendurou-os na parede, junto às fotografias do seu avó e de seu pai, respectivamente, o primeiro e o segundo titular do registro.

Esse clima de reconhecimento geral das qualidades intelectuais do escrevente e provisionado cartorário teve prosseguimento dias depois, quando da visita à cidade do Dr. Lúcio, juiz de direito da Comarca. Num almoço em sua homenagem, realizado na churrascaria local, o magistrado, depois de consumir muitos copos de cerveja, fez um discurso de agradecimento ao corpo jurídico da comunidade e chamou seu Florípedes de “esteio da intelectualidade e magriço de causas inusitadas”. De início ninguém entendeu direito. Consultados os dicionários, se estabeleceu a confusão. Um deles dizia que magriço é aquele que é magricelo; outro que era um “defensor piegas e ridículo de coisas fúteis”. Se magro Florípedes não era, pois pesava quase cem quilos, então somente poderia ser ridículo.

O inevitável aconteceu. Nas missas de domingo, quando o funcionário do cartório entrava na igreja, começavam as conversas em vozes baixas, entrecortadas por risadinhas. Nas reuniões da Ordem Primeira de São Francisco, tão logo ele se aproximava de algum grupo, a conversa parava. Ninguém mais consultava a sua coleção de recortes de jornais e livros. Misteriosamente, os quadros com os recortes da revista e do jornal desapareceram da parede do cartório. O pior foi quando um dia, o muro da escola amanheceu pichado com a frase “magriço ridículo”.

Florípedes tocou fogo na hemeroteca, abandonou o terno preto, vendeu sua casa e outros haveres que possuía, quebrando todos os vínculos com a localidade onde nasceu e vivera toda a sua vida, até então. Mudou-se para uma cidade de praia, onde comprou alguns imóveis, para garantir a tranqüilidade do seu futuro, e um bar na orla turística, onde era conhecido por seu Flor. Raspou a barba, fez operação para corrigir a miopia e abandonou os óculos, só anda de short e camiseta e cultiva o saudável habito de paquerar moiçolas, todas bem mais jovens que ele. Se antes era um cidadão sério e sisudo, hoje é uma pessoa alegre e sem se preocupar em fazer o gênero intelectual. Do seu ser de antigamente, só guardou a mania pelas palavras cruzadas e a leitura dos jornais.

Um dia o Dr. Lúcio, o juiz de direito, entrou no bar e não reconheceu no seu Flor o antigo cartorário Florípedes. Nem reparou que o nome do estabelecimento era “O Magriço”.