O LÍDER QUE DEU CHABU

Tomislav R. Femenick
O Glogo Online. Rio de Janeiro, 04 dez. 2007.
O Jornal de Hoje. Natal, 19 nov. 2007.
O Mossoroense. Mossoró, 22 nov. 2007.

Quando eu era criança as brincadeiras de São João eram sem sofisticação, espontâneas e mais autênticas. Brincávamos eu, meus primos e primas (e éramos muitos) e meus amigos no Rio Morto, a fazenda do meu avô, e na hoje Av. Dix-sept Rosado, que passava atrás do casarão dos meus avós, lá em Mossoró. Naquela época as fogueiras e as brincadeiras eram muitas e os fogos eram poucos, porque caros. Mas o pior de tudo era que, de vez em quando, um dos foguetões dava chabu; isso é, por defeito de fabricação falhava e não explodia. O fato é que, eu adicionei essa palavra na minha vida de adulto. Sempre que uma coisa falha, digo que deu chabu.

E por que hoje estou relembrando essa palavra “meio fora de moda” ou de uso restrito a certos círculos regionais? Por causa do Luiz e do Hugo. O Luiz do caso é o Inácio, o Lula. Ele tem um currículo formidável. De retirante nordestino semi-analfabeto a operário qualificado pelo Senai, de operário a presidente de sindicado, de presidente de sindicado a presidente de partido, e de presidente de partido a presidente da República Federativa do Brasil. É ou não é uma história de vida respeitável? Entretanto, parecia que sua sina era outra, muito maior ainda. Logo no início do seu primeiro mandato o homem despontou para o mundo e no cenário internacional aparecia com todas as possibilidades de ser o novo líder latino-americano, pois pregava um novo mundo.

Todas as conjunções se uniram e favoreceram ao Luiz. O mundo desfruta de um quadro econômico tão favorável como foram os anos cinquenta e sessenta. Seu governo abandonou e esqueceu as revoluções que seu partido pregava – mesmo falando contra, abraçou o antes tão famigerado neoliberalismo e ampliou e deu nome novo aos programas sociais do governo anterior. Para completar, teria que ter tranquilidade no Congresso. Conquistou (uns dizem que comprou) uma ampla base, cooptando velhos inimigos. Sarney, Maluf, Mangabeira, Ciro tudo virou farinha do mesmo saco. Mesmo as trapalhadas dos seus amigos aloprados, mensaleiros, sanguessugas não o atingem. O povo brasileiro continua acreditando nele; até o reelegeram presidente. Para completar, o Brasil tem uma reserva de mais de 167 bilhões (é bilhões mesmo) de dólares em moedas fortes.

Entretanto, há uma pulga na cabeleira de Lula e essa pulga tem nome: Hugo Chávez, o fanfarrão e parlapatão presidente da Venezuela e candidato a ditador. É ele o atual benemérito de Cuba, Bolívia, Nicarágua e Equador. Foi ele quem cedeu armas, fardamento e logística para Evo Morales, o presidente boliviano, invadir as instalações da Petrobrás naquele país. É ele que está fazendo uma corrida armamentista na América do Sul, até dizendo que vai iniciar um programa nuclear no nosso costado. Foi ele quem mandou soldados e helicópteros venezuelanos explodirem garimpos na Guiana (antiga Guiana Inglesa), de quem reclama a metade de seu território – região rica em petróleo, minérios e outros recursos naturais -, muito embora um laudo arbitral internacional (de 1899) tenha reconhecido essas terras como pertencentes à Guiana. A disputa não terminou ai e, desde 1989, a ONU é a mediadora da contenda.

Desde que assumiu o poder, há 8 anos, o fanfarrão Hugo, vem reforçando e modernizando as Forças Armadas do seu país, com o objetivo de tornar a Venezuela a maior potência militar da América Latina. Nesse quadro a invasão da Guiana é uma possibilidade que tem que ser levado em consideração como uma probabilidade real e não somente como uma especulação de analistas da geopolítica. A “ameaça venezuelana” está, inclusive, contagiando alguns brasileiros. O general José Benedito de Barros Moreira, secretário de Política, Estratégias e Relações Internacionais do nosso Ministério da Defesa, vem defendendo abertamente a tese de que o Brasil deve desenvolver a tecnologia de produção de bombas atômicas, coisa que até pouco tempo era defendida por poucos e irresponsáveis líderes, como o falecido Enéas Carneiro.

Não bastasse isso, o Hugo – que vive dos dólares que arrecada com a venda de petróleo aos Estados Unidos – agora, além de se arvorar de chefe do anti-americanismo e de solapar a liderança do Brasil, despropositadamente abriu uma guerra de palavras contra a Espanha, uma nação da União Européia. E que fez o nosso Luiz? Disse que o seu colega venezuelano é um democrata. Democrata por quê? Porque foi eleito pelo voto. Hitler o foi. Mussolini também. Nem por isso eram democratas. Lula poderia e teria feito melhor se tivesse se mantido calado sobre o assunto.

Hitler e Mussolini usaram a democracia para se transformarem em ditadores. Fidel Castro se diz e os generais do regime militar brasileiro também se diziam eleitos para seus cargos. Hugo Chávez está fazendo a mesma coisa. Não há como negar, o nosso Luiz deu chabu como líder regional e como estadista. Lamentavelmente Luiz Inácio Lula da Silva só tem alcance e fôlego para ser presidente brasileiro; o que, convenhamos, já é muita coisa para qualquer um.