O Jardim da minha avó

vinheta172Escritor

Eu nasci em uma terra que fica entre a caatinga e o mar, no semiárido nordestino. De lá saí muito pequeno. Nos braços de minha mãe vim para a capital. Como era a época da guerra e meu pai era estrangeiro, fomos recolhidos para a zona rural. Comecei a entender a vida vendo muitas plantas, muito verde. Com cinco anos, eu e meus pais fomos mandados para a capital federal. Lá fui internado em um colégio, localizado no que hoje é um bairro da zona norte da então capital federal. Mas, nos anos quarentas, o bairro era quase que a fronteira que marcava a separação da cidade com a zona rural. Lá também havia muitas plantas, muitos vegetais e, inclusive, um pé de sapoti; talvez o responsável pela minha predileção por essa fruta.

Dois anos depois, eu já tinha sete anos de idade, meu pai já tinha falecido, a guerra já tinha acabado e eu já não era mais obrigado a ficar internado em um colégio. Então, eu e minha mãe voltamos para a cidade onde eu nasci, para morar na casa dos meus avós Foi o meu primeiro voo de avião, em um DC3 dos “Serviços Aéreos Cruzeiro do Sul, uma companhia que há muito tempo não mais existe (foi anexada à Varig). Sem avisar a ninguém, chagamos no início da noite. Passados os primeiros dias em que tudo era novidade, eu comecei a sentir que aquela terra era diferente do Rio de Janeiro e mesmo da capital do Estado. Só havia plantas em algumas ruas e praças da cidade e na casa dos meus avós. Fora disso não havia verde; ali o mundo era marrom.

Depois eu entendi o porquê. Lá chove muito pouco, quase nada. Há anos em que as nuvens passam faceiras no céu e outros que elas nem mandam notícias. Ai o rio secava e só se encontrava “água para o gasto” nos poços cavados no seu leito seco ou nas cacimbas que existiam em algumas casas. A “água de beber” era a água de chuva armazenada nas cisternas. Sistema público de abastecimento de água, nem pensar. Anos antes tinha havido uma sociedade privada que tentou levar a água do rio, mesmo sem tratamento algum, até as casas dos sócios. Mas não deu certo.

A casa dos meus avós era um sobrado que ia de rua a rua. Ficava no centro do terreno, e era somente ladeada pela calçada da rua da frente. Tinha duas entradas livres pela frente e uma atrás. Tirando a garagem, o depósito, a cisterna para captação de água da chuva e dois tanques para água do rio, tudo o resto era quintal, ou melhor, era o jardim de minha avó. Nas três entradas e mais nas duas laterais que ficavam no fim da construção, havia cinco caramanchões, cobertos com trepadeiras que, quando floriam, pintavam a nossa residência; umas com cores pastéis, outras com cores vivas. Distribuídos aqui e ali, havia roseiras várias: dedal de noiva, cajado de São José, margarida, girassol, crisântemo, cravina e um pé de gardênia grandiflora. Havia, também, um pé de romã e alguns de laranjeiras. A romãzeira dava flores e frutos, de cuja casca se fazia chá para desarranjos intestinais. As laranjeiras nunca frutificavam. Duas pessoas cuidavam disso tudo. Sebastião trazia água do rio para aguar as plantas e Zefinha – Zefinha dos meus avós e a Tata de todos nós outros, uma quase tia –, sob as ordens de minha avó, cuidava do resto. Vez ou outra flagrei meus avós, de mãos dadas, passeando pelo jardim lá de casa, sem falarem nada um para o outros. Só troca de olhares. Na época não notei, mas agora eu sei que era o silêncio do amor – o casal teve nada menos que vinte e um filhos.

A terra onde nasci é Mossoró. Meus avós eram José Rodrigues de Lima e Maria da Mota Lima, D. Mariquinha. O casarão fica (ainda) na Rua 30 de Setembro. O prefeito que plantou as árvores na cidade foi Padre Mota, irmão de minha avó. Sebastião era o faz tudo lá de casa. A minha quase tia, era Josefa. Hoje estão todos no Céu, plantando e colhendo rosas, flores e frutos no Jardim do Senhor, onde decerto haverá de ter muito amor.

 

Tribuna do Norte. 27 ago. 2017