O Imbróglio do Conhecimento

Tribuna do Norte. Natal, 10 jul. 2011.
Gazeta do Oeste. Mossoró, 09 jul. 2011.


Um dos grandes problemas de todas as ciências é a formação e a qualificação do conhecimento. O imbróglio começa na própria definição do que seja conhecimento. De uma forma geral, aceita-se que ele seja uma percepção adquirida através de experiência ou estudo, que proporcionam a compreensão teórica ou prática de um determinado tema, o que se sabe em um determinado campo de atividade intelectual, a experiência prática adquirida pela familiaridade com um fato ou situação. Todavia é algo mais e deve ser visto sob dois ângulos: o conhecimento positivo e o conhecimento normativo.

O primeiro, o conhecimento positivo (base dos ideais de Auguste Comte) se afirma em comprovação e busca a sustentação das afirmações científicas, visando desenvolver “técnicas de ação” relativas à própria da ciência. O segundo, o conhecimento normativo, tem uma perspectiva mais funcional. Nessa concepção, o saber tem por função “ser usado” para obtenção de melhor padrão de bem-estar para a sociedade. Aqui entra um elemento subjetivo, pois na procura pelo que é o melhor, equivalente e ou não bom, há que se fazer uso de juízo de valor.

Nas ciências, especialmente nas ciências sociais – inclusive na economia – o confronto entre “conhecimento positivo” e “conhecimento normativo” é raiz de muitas controvérsias. Foi tema das ideias de Michel de Montaigne, Francis Bacon, René Descartes, Adam Smith, Immanuel Kant, Karl Marx e muitos outros. Engels aborda o assunto no seu “Anti-Dühring”, Jean-Baptiste Say, no “Tratado de economia política” e até Alexis Leontief, no “O desenvolvimento do psiquismo”.

É extensa a lista de pensadores que tratam do assunto, de forma direta ou indireta. Porém o que sempre esteve no cerne das suas exposições foram conceitos sobre a importância da crítica científica efetuada pela “razão” como polo epistemológico; a “razão crítica” quando usada para sustentar ou contestar teorias das ciências sociais, ciências econômicas, inclusive.

A capacidade critica da razão, ou seja, sua aptidão para compreender, raciocinar, julgar e avaliar com correção, é aceita como um elemento de comprovação das hipóteses e teoria. É, portanto, uma das ferramentas da metodologia da ciência, principalmente pela sua faculdade de criticar a si própria. Destaque-se que em uma das mais importantes fontes dos estudos sobre a razão, a “Crítica da razão pura”, a fenomenal obra de Immanuel Kant, ela é, ao mesmo tempo, sujeito e objeto da crítica.

Na segunda metade do Século XX, um dos principais estudiosos sobre as “economia positiva” e “economia normativa” nas ciências econômicas foi britânico nascido na Holanda Mark Blaug, com o seu livro “A Metodologia da Economia”. Sua análise é direta: a economia positiva centra sua atuação em trabalhos relacionados a fatos comprovados; enquanto que a economia normativa faz uso de conceitos. A economia positiva lida com elementos empíricos e trabalhos baseados na experiência e na observação, “o que é”; a economia normativa trabalha com julgamento de valor, “o que deve ser”. Embora constate essas duas correntes de atuação das ciências econômicas, Blaug põe em dúvida que haja uma ruptura Ao contrário indica que haja uma relação, se não de complementar mas de elementos que se acrescentam.

Agora vem a pergunta que complica mais ainda o que já estava complicado: quais as implicações do conhecimento (ou de sua falta) para a economia? Muitas, muitas mesmos. Basta que rememoremos o passado recente do país. Durante o regime militar, Delfim Neto foi por duas vezes o Tsar do Ministério da Fazenda, onde imperava altaneiro. Uma das suas invenções foi a correção monetária, que se revelou um desastre total: levava a inflação de hoje para amanhã e a da amanhã para depois e assim sucessivamente, impedindo que ela fosse extinta. O que foi isso se não falta de conhecimento (com uma forte dose de arrogância).

Depois da queda dos militares, houve uma sucessão os planos voluntariosos, querendo matar a inflação. Em 1986, os planos Cruzado I e II; em 1987, o Plano Bresser; 1989, o Plano Verão; em 1990, o Plano Collor. Nenhum deu certo por absoluta falta de fundamentação econômica. O Plano Real deu certo porque seus idealizadores entendiam o que estavam fazendo.

Moral da história: prepotência ou boas intenções não devem ser confundidas com conceitos, hipóteses ou teorias econômicas. “O que é” e “o que deve ser” são bases substantivas, que independem do querer das pessoas e dos governantes. Sem base cognitiva, não há ciência.