O ILÍCITO É ILÍCITO PORQUE É ILÍCITO

Tomislav R. Femenick
Jornal de Hoje. Natal, 09 dez. 2003.
Gazeta do Oeste. Mossoró, 28 mar. 2004.

 

Mais cedo ou mais tarde aluno e professor, no decurso de suas respectivas atividades escolares, se defrontam com um problema que é, ao mesmo tempo, pedagógico, de caráter social e que pode comprometer o futuro do aluno ou da própria instituição de ensino. Desgraçadamente não se tem encontrado solução para esse caso, não há visão do horizonte de algo que possa amenizar o seu peso. Mais grave, ainda, é o fato de que muitos dos envolvidos com o problema não enxergam a sua importância. Estamos falando da ?cola?, aquela inocente ?cola escolar?, que muitos praticam e outros tantos fazem que não a vêem.

Em 1652 ou 1743, foi editado em Amsterdã ou em Lisboa, não se sabe ao certo, um livro cuja autoria, por muito tempo, foi atribuída ao padre Antonio Vieira. Trata-se de A arte de furtar, uma severa crítica à sociedade portuguesa e do Brasil colônia ? povo e governo. Como não poderia deixar de ser em um livro com tal título, o tema central (e também periférico) da obra era a roubalheira dominante, parte da qual ainda hoje anda livre e faceira por aí, não como herança colonial, mas como resultado da falta de caráter de muita gente que se diz e se acha boa.

E o que é que há entre a Arte de Furtar e a Arte de Colar? É claro que há uma distância muito grande entre uma coisa e outra. Porém, do ponto de vista sociológico, a similitude está em achar que o praticante do delito não é um delituoso. Há alunos que acha que a cola é um recurso válido a ser usado, desde que o professor não note e anote. Esse raciocínio tortuoso localiza o erro no fato de ser flagrado ao se errar, e não o fato de se cometer o erro. Os principais argumentos usados pelos aceitantes da cola, é que o sistema de atribuição de notas não seria perfeito, pois não mediria o conhecimento do aluno sobre a matéria como um todo, mas somente sobre o que cai na prova; que o instante da prova não seria o melhor para se medir conhecimento, pois a pressão psicológica inibiria o raciocínio etc. e tal. Esses argumentos só seriam válidos se fossem indicadas alternativas melhores. O certo é que a “avaliação por notas pode não ser um sistema perfeito, mas ainda é o melhor sistema”.

Sob o ponto de vista do educador, uma atitude passiva diante do problema nada mais é do que um reconhecimento tácito da incapacidade de ensinar. Se não, uma acomodação aos fatos da vida, pecado mortal para aquele que deve dar exemplo a uma juventude tão carente de ideais. Tangenciar, contornar ou conviver com o problema certamente não é a melhor solução. O professor, o mestre, tem que encarar a cola de frente, para que o aluno sinta a necessidade e a responsabilidade de aprender, fortalecer a moral (tão decaída ultimamente), não igualar alunos estudiosos com os não estudiosos e mostrar que o ilícito não compensa.

E o que dizer ao aluno sobre a cola?. Aqui é que está o problema do problema, como diria o conselheiro Acácio. Vivemos no mundo dos espertos e das preocupações imediatas. Pela lógica dominante, no instante da prova o que importaria seria garantir a nota para ?passar?, se possível sem fazer exame. E a matéria? Ora, a matéria seria algo de somenos importância. E para que o aluno vai à escola? Será que é simplesmente para passar o tempo ou para passar de ano? Será que não seja por algo mais importante como, por exemplo, adquirir conhecimento científicos, técnicos e profissionais para ser melhor qualificado na sua carreira? E como ser melhor se trapaceia? A qualificação certa é essa: quem cola trapaceia, e faz isso contra os colegas, o professor e… contra si mesmo. Grandes homens, grandes mulheres não enganam aos outros e muito menos a si mesmos; olham todos nos olhos e se olham no espelho sem desviar o olhar. É ao aluno que mais interessa não colar, para no futuro não ser um fraco, um perdedor ? como pessoa e como profissional.