O Homem das notícias inusitadas

Carlos Skarlack
Gazeta do Oeste.Mossoró, 16 jan. 2000

 

“Ao longo da minha vida, só acontecem coisas inusitadas. As coisas usuais não acontecem comigo” – assim define o mossoroense Tomislav Femenick a sua longa trajetória de uma vida experiente e repleta de muitas notícias.

Tomislav está para publicar este ano cinco volumes, cada um com 400 páginas, sobre notícias escritas por ele e que foram publicadas em vários jornais do país, sobre fatos importantes de Mossoró. Serão quase 2 mil páginas de pura informação, com os textos originais de cada notícia transcritos e datados. Um verdadeiro conteúdo jornalístico sobre a Mossoró da década de 60 e como se comportava naquela época.

A trajetória deste escritor, como ele mesmo se designa, um ‘multifacetado’, é um pouco da história do jornalismo mossoroense que começa apenas com o dom de quem quer ser jornalista, mas que por ser eficiente não cabe em um único livro. Os cinco volumes serão lançados pelo autor até o final de setembro em Mossoró, pela Coleção Mossoroense – Fundação Vingt Rosado.

JORNALISTA ‘DIFERENTE’ CRIA A SERPES EM MOSSORÓ

Filho de croata e nascido em Mossoró, Tomislav Femenick se considera verdadeiramente um homem inusitado. Mas não só por isso. Seu interesse pelas notícias começou ainda muito jovem, aos 13 anos de idade, época em que também começou a trabalhar em um jornal na cidade de Maceió (AL). Lá aprendeu a escrever, a alma de um jornalista e se apaixonou pelas notícias.

“Não demorou muito começaram a me chamar de ‘Benjamim da Imprensa Alagoana, ou seja o mais jovem jornalista da imprensa do Estado, naquela época. Isso me motivou
ainda mais em busca de notícias”, recorda o mossoroense Tomislav, hoje com 60 anos.

Mas a trajetória de Tomislav se tornou mais evidente quando voltou a morar em Mossoró em 1956, quando trabalhou no Jornal O Mossoroense. Decidiu em seguida morar em São Paulo, onde trabalhou na Diários e Associados, onde escrevia informações aos vários jornais do Estado. Meses depois, voltou à Mossoró onde montou a Serviços de Informações e Pesquisas (SERPES), uma agência de notícias sobre as informações mais importantes da cidade para jornais de todo o país.

“A Agência divulgava notícias de Mossoró para três jornais da qual era contratada que eram Diário de Natal, Diário de Pernambuco e , O Povo de Fortaleza. Mas saia de forma eventual, notícias de Mossoró no Correio Brasilienze, O Globo, Jornal do Brasil, até Folha de São Paulo, onde Calazans Fernandes publicava algumas notícias em sua coluna”, relembra Tomislav, ressaltando que este trabalho perdurou de 1964 a 1971. A Serpes além de notícias fazia pesquisas de opinião pública, estudos econômicos, de oportunidade de negócios, piso salarial, enfim a empresa ‘multifacetada’.

Mesmo sem curso superior em Jornalismo, Tomislav disse nunca ter sentido qualquer dificuldade para divulgar as notícias de Mossoró, mesmo nos grandes jornais do país. “Na minha opinião, para ser jornalista é necessário se ter o dom. Ou se tem, ou não se é jornalista. Meu trabalho sempre seguiu esse critério”, opina categórico.

MUDANÇAS – Com os anos, a Serpes deu lugar a outros interesses como a sua formação em Contabilidade, mestrado em Economia e extensão em Sociologia e História. Tomislav atualmente leciona na Universidade Ibero/Americana em São Paulo – SP e possui uma empresa de desingner gráfico, onde lida também com jornais, porém sem esquecer que o período em que atuou com a Serpes conseguiu registrar notícias de acontecimentos importantes para a cidade.

“Hoje o meu contato com jornal é mais plástico que de escri
ta. Mas do jornalismo restou a mania de escrever, só que livros. Já publiquei 17 ao longo destes anos”, completa Tomislav.

NOTÍCIAS MARCANTES FORAM REUNIDAS AO LONGO DOS ANOS

Todas as reportagens feitas por Tomislav Femenick durante os anos em que atuou com a Serps foram recortadas dos jornais e reunidas pela sua esposa, professora Gorete Femenick.

Segundo Tomislav, ela guardou durante anos, reportagens marcantes como os primeiros serviços de distribuição da água pela CAERN, a energia pela CHESF que chegava a cidade naquela época, as inaugurações da Escola Superior de Agricultura de Mossoró (ESAM), da Universidade Regional do Rio Grande do Norte (URRN) na época, do Estádio Leonardo Nogueira, o “Nogueirão”, e muitos outros acontecimentos como criação de associações que até hoje permanecem e principalmente a primeira perfuração de petróleo em Mossoró, notícia que inclusive foi destacada nos grandes jornais do país.

“Minha esposa, a professora Gorete Femenick, descobriu os recortes de jornais, dividiu, classificou e providenciou a digitação de todo esse trabalho. O resultado disto foi o interesse em transformar todas essas noticias da década de 60 sobre Mossoró em livro para pesquisa, para o interesse dos jornalistas, enfim, uma contribuição para a cidade”, completa Tomislav.

CONTEÚDO

O escritor Tomislav Femenick ao perceber a quantidade de notícias daquela época, juntamente com a esposa decidiu publicá-las, mas em volumes distintos. Serão cinco volumes do livro, cada uma com 400 páginas somando quase 2 mil páginas só de notícias da década de 60 sobre Mossoró.

O primeiro volume – Trata da criação da Infra-estrutura de Mossoró naquele período. A chegada do serviço mais dinâmico de água, a energia pela Chesf, o porto salineiro que começou a ser construído também neste período, as primeiras estradas asfaltadas, problemas da ferrovia, problemas de abastecimento, matadouro e tudo ligado a infra-estrutura.

O segundo volume – Fala da economia da cidade
, a pecuária, as indústrias existentes na época, o sal que tem um grande destaque no livro com um capítulo especial, as associações de classes produtoras como CDL, Centro das Indústrias do Estado do Rio Grande do Norte que teve sua primeira sede em Mossoró e que atualmente está em Natal, e o aparecimento do petróleo.

“Nessa época o furo nacional foi divulgar o aparecimento do petróleo em Mossoró, quando se buscava por água. Inclusive como eu mandava a matéria para os jornais pela Sesp, o Diário de Pernambuco deu um furo de reportagem no O Mossoroense”, relembra sorridente o escritor-jornalista.

O terceiro volume – Da educação, do esporte e da cultura na década de 60. Entram notícias das faculdades isoladas e depois da fundação da Universidade Regional, da inauguração do Nogueirão, jogos de inauguração do estádio e todos os prêmios conquistados por artistas locais em outros Estados do país.

O quarto volume – Vai ser um estudo sociológico, como a cidade estava organizada na época, as entidades, associações, clubes de serviços como Lions, Rotary que tinham uma importância maior que nos dias de hoje, Abrigo Amantino Câmara, a Igreja, a política da e a polícia.

O quinto volume – Vai tratar da microrregião de Mossoró, são notícias das cidades vizinhas que têm grande ligação de Mossoró como Areia Branca, Assu, Apodi e muitas outras.

Fotos – Os livros serão ilustrados com fotos da época, mostrando os acontecimentos conforme foram noticiados pelos jornais.

Algumas notícias retiradas do livro ainda não lançado “Notícias de um tempo” de Tomislav:

SOBRE O PETRÓLEO EM MOSSORÓ

Descoberto petróleo em Mossoró

MOSSORÓ (Do correspondente) – A escavação de um poço com a finalidade de encontrar água fez com que, ontem, na Praça Padre Mota, no coração de Mossoró, jorrasse petróleo abundantemente, de uma profundidade de 645 e 650 metros.

O primeiro jorro petrolífero em Mossor
ó ocorreu em fins de 1955, julgando os técnicos de então (inclusive alguns norte-americanos) que as pesquisas deveriam ser abandonadas, estando a Petrobrás ausente daquele centro potiguar.

A perfuração do poço estava, ontem à noite, em sua fase final, devendo hoje ocorrer a retirada dos aparelhos de escavação. Diário de Pernambuco – 31.12.1967

Em pleno coração de Mossoró: Poço d’água deu em petróleo

MOSSORÓ, 4 (Do correspondente) – Voltou a jorrar petróleo nesta cidade. Perfurando um poço na Praça Padre Mota, em pleno centro urbano, com a intenção de atingir lençol de água, a CASOL encontrou “ouro negro” na profundidade de 647 e 650 metros. O poço já está em fase de acabamento, com a retirada dos tubos metálicos. O primeiro jorro de petróleo no Rio Grande do Norte ocorreu em fins de 1966, em um poço da CAENE, na localidade Saco. Observe-se que a Petrobras, que fizera estudo da bacia local em 1955, está ausente de Mossoró. O Povo – 04.01.1968

Poço petrolífero localizado na praça Pe. Mota em Mossoró se encontra vedado

MOSSORÓ (Serpes) – Os jornais voltam a estampar notícias sobre o petróleo mossoroense. Um poço que estava sendo perfurado para captar água apresentou óleo a 290 metros de profundidade, em terras da Salina Guanabara. Aliás, em duas oportunidades anteriores o mesmo fenômeno foi constatado. Os primeiros indícios oficiais de existência de petróleo na região de Mossoró apareceram em 1965, quando a própria Petrobras fazia estudos na localidade de Gangorra, onde o óleo foi encontrado a aproximadamente 400 metros de profundidade.

EM MAIS TRÊS – Com a descoberta de óleo na Salina Guanabara sobem para três os casos de surgimento espontâneo de petróleo em Mossoró, desde agosto de 1967, quando no lugar Saco, uma sonda da CONESP retirou óleo de um poço que, na época, alcançava 378 metros. Em 30 de dezembro do ano que passou, em pleno centro da cidade, a CASOL encontrou petróleo numa perfuração que fazia entre as duas caixas de água do Serviço de Abastec
imento do Município, na Praça Padre Mota. O óleo correu abundantemente nas ruas da cidade, às vezes até em uma proporção de 40% de petróleo e 60% de água, conforme análises feitas na ocasião.

POÇOS VEDADOS – O poço da Gangorra foi tapado pela Petrobrás, as perfurações da CONESP foram paralisadas, o poço da Praça Padre Mota foi misteriosamente vedado, a ocorrência de óleo na Salina Guanabara está isolada e a perfuração continua em busca de atingir o lençol subterrâneo de água existente na região.

A empresa do monopólio petrolífero brasileiro tem realizado estudos e análises a propósito de todas essas perfurações e ocorrências, isoladamente e em correlação com os indícios de que dispõe. Nada de definitivo foi dito ainda e até parece que o petróleo de Mossoró quer sair da terra com as suas próprias forças.
ATITUDES DA PETROBRÁS – O aparecimento espontâneo de óleo na área de Mossoró não poderia causar uma precipitação nos estudos da Petrobrás. Poderia, e isto ocorreu, despertar um interesse maior da empresa, no tocante às suas pesquisas, às quais vem realizando desde 1949, ainda no tempo do Conselho Nacional do Petróleo.

O petróleo encontrado na localidade de Saco e na Praça Padre Mota contribuiu, de maneira relevante, para uma intensificação, e não precipitação, das atividades da empresa na zona oeste do Rio Grande do Norte. Diário de Pernambuco – 17.09.1968

SOBRE A ESAM:

Decreto dá a Mossoró escola de agricultura

MOSSORÓ, 20 – Decreto do Ministro de Educação criou a Escola Superior de Agricultura de Mossoró. Vários considerandos justificaram a criação dessa unidade de nível superior, destacando-se a realização de metas da nova política de desenvolvimento rural do governo central da república a ser implementada por órgãos federais, a importância da formação de técnicos de nível superior para atuar no meio rural, a necessidade de incentivos para a região de Mossoró intensificar sua produção agrícola e pecuária e, ainda, formar especialistas para criar na regiã
o meios para desenvolver uma forte industrialização de produtos de origem agropecuária.

A FACULDADE – Decreto do prefeito de Mossoró, Raimundo Soares de Souza, nomeou uma comissão para a organização da Escola Superior de Agricultura de Mossoró. O decreto assinala, também, que as despesas com a instalação da nova escola correrão por conta do orçamento do Município, nas rubricas próprias ao registro dos valores destinados à FUNCITEC-Fundação para o Desenvolvimento da Ciência e Tecnologia. A contratação de pessoal para preencher as vagas de trabalho na nova unidade de nível superior será realizada observando-se a legislação trabalhista em vigor no país.

QUATRO ESCOLAS – Com a criação da Escola Superior de Agricultura de Mossoró esta cidade contará com quatro unidades de ensino universitário, sendo que três delas foram criadas na atual gestão do prefeito Raimundo Soares à frente do Executivo municipal. Atualmente existem as Faculdades de Filosofia, Ciências e Letras, de Serviço Social e de Ciências Econômicas (esta a primeira delas) e, com o decreto recém-assinado pelo prefeito, a Escola Superior de Agricultura de Mossoró. Diário de Natal – 22.04.1967

Escola de agricultura será inaugurada em dezembro

MOSSORÓ – Segundo declarações do dr. José Rodrigues da Costa, a Escola Superior de Agricultura de Mossoró estará funcionando regularmente a partir do próximo ano.

A construção do seu moderno edifício teve início no dia três de julho do corrente ano e estará concluída no próximo mês. O prédio está sendo erigido sobre pilotis, com aproveitamento somente da parte superior. É constituído de oito salas de aula, três salas para laboratórios, uma outra de Desenho, Biblioteca, Congregação, Diretório Acadêmico, Cantina e Secretaria. A área total é de 2.058 metros quadrados, inclusive duas rampas de acesso.

CONVÊNIO – A Escola Superior de Agricultura foi criada pelo prefeito de Mossoró, dr. Raimundo Soares de Souza, através do decreto 03/67, de 18 de abril do corrente a
no. A sua edificação é feita através de convênio firmado pela prefeitura com o INDA-Instituto Nacional do Desenvolvimento Agrário, que destinará os recursos suficientes para a concretização da mencionada obra, que já importa em NCr$ 350,00 (trezentos e cinqüenta cruzeiros novos).

INSTALAÇÕES – A faculdade de agricultura contará com cinco laboratórios, inclusive de Física, Química, História Natural e Zoologia. A biblioteca conta com cerca de 2.500 volumes especializados. A escola terá, também, uma Estação Experimental, numa área com cerca de 135 hectares, criando condições reais, com vistas a pesquisa aplicada, preconizada pela reforma universitária.

INAUGURAÇÃO – Segundo telegrama do presidente do INDA, dr. Jerônimo Dix-huit Rosado Maia, estão sendo acertados os detalhes finais para a vinda do presidente da República, marechal Artur de Costa e Silva, para o ato inaugural da Escola Superior de Agricultura. Nessa oportunidade, será concedido ao marechal Costa e Silva o título de Doutor Honores Causa por ter sido o grande codificador da Carta de Brasília. Acompanhando o presidente, virão ministros de Estado e outras autoridades civis e militares.
Diário de Pernambuco – 28.11.1967.

Presidente Costa e Silva inaugura obras em Mossoró

MOSSORÓ (Agência Nacional) – O presidente Artur da Costa e Silva, precedente da Guanabara (…) dirigiu-se (…) para Mossoró, onde presidiu várias inaugurações.

O Avião aterrissou no aeroporto de Mossoró às 12h40. Ao descer da aeronave, o presidente Costa e Silva foi cumprimentado pelos governadores do Rio Grande do Norte, monsenhor Walfredo Gurgel, pelo comandante do IV Exército, general Raphael de Souza Aguiar e pelo presidente do INDA, sr. Dix-huit Rosado Maia.

Uma banda de música do Exército tocou o Hino Nacional, sob o troar de 21 tiros de artilharia, em saudação ao chefe do governo. Após passar em revista as tropas, formada em sua honra, o presidente foi cumprimentado pelos governadores de Pernambuco, sr. Nilo Coelho; do Ceará,
sr. Plácido Castelo; pelo prefeito de Mossoró, sr. Raimundo Soares, além de altas autoridades civis e eclesiásticas. O chefe do governo, após receber um palma de flores, das mãos de uma menina da sociedade local, em companhia do governador Walfredo Gurgel e do chefe do Gabinete Militar da Presidência da República, general Jaime Portela, deslocou-se para o triângulo ferroviário, a fim de inaugurar o poço Costa e Silva, cuja água se assemelha, de acordo com análises, às águas minerais de melhor qualidade (…).

NA ESCOLA DE AGRONOMIA – O presidente da República dirigiu-se, em seguida, à ESAM-Escola Superior de Agricultura de Mossoró, dando-a por inaugurada, ao cortar a fita simbólica, colocada à entrada do prédio. Diante de um painel, usou da palavra o presidente do INDA-Instituto Nacional de Desenvolvimento Agrário, senador Jerônimo Dix-huit Rosado Maia.

O chefe da nação passou, em seguida, a visitar todas as dependências da Escola, onde, numa delas foi apresentado pelo presidente do INDA aos membros da Congregação da ESAM. Na oportunidade foi outorgado ao presidente o diploma de “Professor Honores Causa”. Logo depois, ainda na presença do chefe do governo, foi entregue pelo ministro Tarso Dutra, da Educação e Cultura, uma biblioteca à Escola Superior de Agricultura de Mossoró. Diário de Pernambuco – 23.12.1967

OUTROS TRABALHOS

Tomislav lança mais outros três livros este ano (Títulos provisórios – Data para lançamento): DESCOBRIMENTO E COLONIZAÇÃO: Abril/2000. PARA APRENDER ECONOMIA: 2a edição – Fev/2000. PERÍCIA CONTÁBIL: Jun ou Jul/2000 .