O Haiti está quase aqui

Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje. Natal, 19 mar. 2007.
Gazeta do Oeste. Mossoró, 18 mar. 2007.

Desde algum tempo que o nosso país está trilhando por uma vereda bastante tortuosa e cheia de altos e baixos. Se considerarmos somente os anos que se iniciaram com a era de Juscelino para cá, veremos que o desenvolvimento econômico de alguns períodos de nossa história recente vem sempre acompanhado por etapas de agravamento das relações sociais. Isso leva certas pessoas a crêem que, no Brasil, as mutações econômicas alteraram as condições financeiras das vidas das pessoas e, ao mesmo tempo, degradam suas condições e ambiente de vida. Entretanto, também assistimos o agravamento desse desgaste sempre que há uma estagnação ou um retrocesso no processo de crescimento da economia.

Essa meditação introdutória tem por objetivo analisar a posição de alguns analistas que pululam na imprensa provinciana e que culpam o capitalismo por todos os males de nossa sociedade. Será que é verdade? Vejamos. Até o fim da ditadura militar iniciada em 1964, tínhamos quase que um capitalismo de estado, pois as grandes empresas de quase todos os setores pertenciam ao governo. Seus produtos eram ruins e caros – lembremo-nos dos casos da telefonia e das geradoras e distribuidoras de energia elétricas. Vivíamos quase que num socialismo à la Iugoslava antes da queda do chamado socialismo real. Depois tivemos os anos oitenta, quando o governo Sarney proporcionou um espetáculo de insensatez, tentando fazer dar certo aqui o que nunca deu certo em lugar nenhum: decretou o congelamento de preços e mandou prender boi no pasto. Ridículo a mais não poder. Em seguida tivemos que enfrentar o voluntarismo de Collor que confiscou a poupança das pessoas e, de maneira atabalhoada, abriu o mercado nacional aos produtos estrangeiros sem nenhuma preparação ou cuidado para não prejudicar as indústrias nacionais. Nada disso é capitalismo, no máximo foram “porra-louquices”.

O país começou a entrar no caminho do capitalismo no governo Itamar Franco, quando foram feitas as primeiras privatizações, e seguiu nos governos de Fernando Henrique e Lula. O primeiro, FHC, continuou com as privatizações, criou a Lei de Responsabilidade Fiscal e tentou modificar alguns erros que emperram o crescimento. Lula fez duas cousas boas: continuou a política econômica da “herança bendita” e implementou os programas de redistribuição de renda, que desaguaram no bolsa família. Mas… ainda falta muito caminho a ser percorrido para chegarmos lá.

Agora chagamos no ponto “x” do problema: o capitalismo tupiniquim tem um defeito de nascença: concentração de renda. Por que defeito, do ponto de vista capitalista? Porque impede o crescimento do poder aquisitivo da maioria das pessoas, fazendo com que o mercado consumidor interno fique num patamar inferior ao que poderia ser. Resultado: as empresas brasileiras produzem para vender no exterior – origem do nosso superávit na balança comercial e do crescimento das reservas cambiais. Porém o alicerce da economia de todos os países é formado pelo grande número de pequenas e médias empresas e, geralmente, essas não se fazem presente no comércio internacional. Resultado: a concentração de renda impede o crescimento das empresas; quando as empresas não crescem, não há crescimento de empregos; sem empregos, as pessoas formam o “exército de mão-de-obra de reserva” (atenção leitores, isso é de Marx); dispondo de mão-de-obra desempregada, as empresas achatam os salários; salários baixos inibem o crescimento do mercado consumidor interno – e o ciclo se reinicia.

Então o bom seria o socialismo? Qual deles? O da finada União Soviética e seus satélites era tão ruim que fez desmoronar o chamado socialismo real. O de Cuba precisa de financiadores externos para subsistir. O da Coréia do Norte mata, literalmente, o seu povo de fome. O pregado por Hugo Chavéz precisa dos dólares da exportação de petróleo para o “cão americano”, para continuar xingando os ianques, numa recaída dos anos cinquenta. Talvez o “socialismo de mercado” da China e do Vietnã? Não dá. Nesses países não há direitos trabalhistas e os salários são bem mais baixo que no nosso. Então qual a saída para o Brasil? Temos que fazer as reforma que faltam fazer. As reformas previdenciária, trabalhistas, política etc. Temos que moralizar o governo nas três esferas de poder (executivo, legislativo e judicial) e nos três níveis (federal, estadual e municipal). Não adianta colocar panos quente ou remendos. Temos que ter coragem para encarar os problemas de frente. Enquanto assim não fizermos, seremos sempre o penúltimo em crescimento na América, na frente somente do Haiti.

Há alguns anos o senhor Gilberto Passos Gil Moreira, administrador de empresa e ministro da cultura, mas também compositor e cantor conhecido simplesmente como Gilberto Gil, pede para que nós pensemos no Haiti, rezemos pelo Haiti. Pois bem, o Haiti já está quase aqui.

COISAS DE PADRE MOTA

Que eu saiba, as festas de São José celebradas na Paróquia do mesmo nome em Mossoró, nunca faz referencia à pessoa que foi responsável pela construção da igreja em homenagem ao santo operário e pela organização da Paróquia. Tudo começou em 1928, quando, atendendo a uma reivindicação dos moradores dos bairros próximos, porém principalmente dos residentes nos bairros de Paredões e Barrocas, o Padre Mota deu inicio a construção da Capela de São José, lançando a sua pedra fundamental em 2 de maio daquele ano. O ato de sua inauguração foi presidido pelo primeiro bispo de Mossoró, Dom Jaime de Barros Câmara, no dia 29 de junho 1936, um mês após a sua chegada na cidade. Na ocasião o Padre Mota era Cura Diocesano e Prefeito da cidade.

Grande Padre Mota!!!

EDUCAÇÃO

No final do ano passado, dos 471 procedimentos administrativos investigados no Rio Grande do Norte pelo Ministério Publico Federal, “79 investigavam desvios do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação”. Pobre Estado é esse nosso. Com um sistema educacional tão deficiente ainda tem que vivenciar roubo de verbas tão escassas, tão minguadas.

BAR SUEZ

Tentando arrumar a minha mesa de trabalho, comecei a rasgar alguns recortes de jornais. Muitos eram desses que, na hora em que a gente recorta, se pensava ser assunto importante. Com o passar dos dias, dos meses e dos anos, eles perdem o interesse e viram simplesmente papéis amarelecidos e sem importância. Outros, não. Ficam mais importantes ainda. Foi o caso de um artigo de Francisco Rodrigues da Costa, intitulado “O Bar Suez”. É saudade líquida e pura. Vejam só um trecho: “A cerveja mais gelada da cidade. Na entrada, cerca de cinco mesas de sinuca. Uma saleta central, onde eram despachadas as bebidas, dividia o salão do reservado lá atrás. Ali o apaixonante jogo de bozó para as disputas das louras geladas”. Meu Deus como era simples e bom. Quantas e quantas vezes eu, Jaime Hipólito e Helder Heronildes pendurávamos nossas contas com Aderson, o proprietário e amigo. Só Lauro Filho e Rafael Negreiros faziam questão de pagar no dia seguinte.