O fascínio do cinema

Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje. Natal, 07 jan. 2008.
O Mossoroense. Mossoró, 10 jan. 2008.
Metropolitano. Parnamirim, 11 jan. 2008.

Havia uma certa magia no ar, um clima de expectativa, ansiedade, magnetismo, fascinação e encanto. Olhando para os lados a gente via os amigos e conhecidos. Todos estavam sentados, esperando ouviu o som da cigarra que substituía as três batidas que antecedem as apresentações de teatro. Subitamente a cigarra tocava, cessavam as conversas e as luzes iam se apagando ao som da musica da ópera “O Guarani”, de Carlos Gomes. Primeiro eram apresentados os “jornais cinematográficos”. Os mais freqüentes eram o Warner Bros News, Noticias da Semana da Atlântica Cinematográfica, da Cinédia, da Luiz Severiano Ribeiro e o indefectível Actualité Française.

Era assim o mundo fantástico do Cine Pax, em Mossoró, no final da década de quarenta e início da de cinqüenta, quando comecei a freqüentar as suas vesperais de domingo. Geralmente íamos juntos, eu e meus primos Carlos, Marluce, Assis, Clarice e Concita. Depois dos jornais (que assistíamos meio sem prestar atenção) vinham os desenhos animados, que eram acompanhados de gargalhadas e gritos infernais e, coroando a apresentação do dia, os episódios das séries Mulher Tigre, Capitão Marvel, os Perigos de Nioka, o Caveira, Tom Mix, Flash Gordon, Roi Roger, Tarzan e outro mais. Terminada a seção, as luzes se acendiam, voltamos para a vida real e íamos para casa, não sem antes comentar acaloradamente cada uma das cenas eletrizantes dos seriados. Isso até o próximo domingo, quando todo recomeçava. Lembrem-se que naquela época não havia televisão por aqui.

Mas o fascínio por aquele mundo de luz e som não se desligava. Procurei leva-lo para casa. Com a ajuda de meu tio José Vicente, transformei uma caixa de charutos e uma lâmpada queimada cheia de água em um “projetor de película”. A luz era uma réstia de sol que passava pelas telhas. Captada por um espelho, atravessava a lâmpada (transformada em lente), passava pela película e projetava em uma parede uma cena (um quadro) qualquer daqueles filmes de minha infância. Para conseguir as películas, fiz amizade com seu Jorge Pinto e com seu Sales, os arrendatários do Pax. Os quadros eram restos de aparas dos filmes, quando esses quebravam e tinham que ser emendados. Toda a meninada da redondeza ia lá para casa, ver os pedaços de nossas inocentes ilusões.

Já rapaz, continuei freqüentando a tradicional casa de espetáculo. As seções noturnas tinham o mesmo aparato de luz e som. Os jornais cinematográficos, também. A programação principal é que era diferente. Lá conheci Gilda, interpretada por Rita Hayworth, a mulher que não precisava tirar a roupa para ser sensual; bastava tirar as luvas ou fumar um cigarro. Vi Humphrey Bogart beijar Ingrid Bergman e ouvi o ator Dooley Wilson, tocar “As Time Goes By”, no celebre filme Casablanca. Foi no Pax que assisti Orson Welles, no papel de Cidadão Kane; Yul Briner e Steve McQueen, em Sete Homens e Um Destino; e novamente Humphrey Bogart, na versão cinematográfica do famoso livro policial O Falcão Maltes, de Dashiell Hammett. A lista é enorme.

Os rapazes – como eu – costumavam ir para o cinema com paletó e, de vez em quando, nos levantávamos para fumar nas portas laterais que davam para uma área interna. Terminado o firme, íamos com as namoradas saborear sorvete na Sorveteria Oásis, com os amigos tomar cerveja no Umuarama ou espairecer mais um pouco na churrascaria O Sujeito.

Bom, esse tempo passou e agora veio a pá de cal que encerrou a última cena: o Cine Teatro Pax de Mossoró fechou suas portas, como já o fizera quase que todos os antigos cinemas do Brasil. Aqui no Estado os cines Nordeste e Rio Branco são exemplos em Natal. Agora somente sobrevivem os cinemas dos shoppings. O magnífico prédio do Pax foi projetado pelo arquiteto francês George Lumier (o mesmo que projetou a igreja matriz de Fortaleza) e inaugurado em 1943. Mesmo tombado, espero que não se transforme em supermercado, nem em templo evangélico. Seria um acinte aos seus idealizadores.