O ENSINO E A ECONOMIA

Tomislav R. Femenick
Tribuna do Norte. Natal, 06 abr. 2008.
Gazeta do Oeste. Mossoró, 05 abr. 2008.

Em todos os países a economia tem por base quatro fatores: os recursos da natureza, a mão-de-obra, os recursos de capital (financeiros e os meios de produção: máquinas, edificações, equipamentos de trabalho) e a tecnologia. Os dois primeiros estão presentes em todas as sociedades – uns têm mais e melhores recursos da natureza que outros; uns têm profissionais melhor qualificados ou não.

Até a metade do século passado, as nações que dispunham de maior acumulo de recursos de capital é que eram as sociedades fadadas ao sucesso e se tornaram as líderes do mundo. Detroit e Chicago, nos Estados Unidos, e Manchester e Londres, na Inglaterra, eram exemplos de centros dinâmicos da economia desses países. O celebre fog (um nevoeiro espesso, carregado de fumaça e de partículas poluentes), era o cartão-postal londrino. A cidade de São Paulo era a versão tupiniquim de cidades-fábricas, com sua garoa também impregnada de resíduos expelidos pelas chaminés de suas fábricas. Elas, as fábricas, produziam mercadorias, que se transformavam em lucros, que se transformavam em novo estoque de capital. Essa foi a fase de consolidação da economia capitalista; e também do socialismo real, da finada União Soviética.

Logo após a segunda guerra mundial, o cenário se alterou e a mola dinâmica da economia passou a ser a tecnologia, que nada mais é que a “maneira de se fazer às coisas”. Assim, tecnologia não é o computador, mas os softwares, os programas que a ele são agregados. Pescar com uma vara de pesca, com uma rede de arrasto na praia ou com um barco em alto mar, equipado com radar e várias redes, são todas elas maneiras tecnológicas de pesca, porém com um diferencial: a pesca de arrastão tem mais produtividade que a de caniço e a de alto mar muito mais, ainda, que a de arrastão.

Há que se destacar: as tecnologias são agregadas aos equipamentos e às máquinas; há uma enorme diferença entre a mão-de-obra não especializada para aquela altamente qualificada; as tecnologias inovadoras são criadas pelas pessoas. Assim, chaga-se a conclusão que o ensino é uma importante ferramenta para formação tecnológica de uma nação, para a formação de sua riqueza (PIB) e, consequentemente, para o nível de bem-estar da vida dos seus cidadãos.

De uma forma geral, a velocidade do desenvolvimento tecnológico tem sido um dos temas mais discutido em ensaios acadêmicos, em artigos e até em “conversas de botequim” – a expressão aqui vai de forma figurativa, pois a tecnologia dos fast-food está acabando com esse tipo de estabelecimento. A transformação dos valores (o crescimento da importância das coisas materiais e a depreciação da ética, das religiões, das ideias) e, principalmente, a sublimação do “imediatismo cultural”, também tem sido mote para muitos estudos sociológicos. O efeito desse comportamento, como não poderia deixar de ser, foi um nivelamento por baixo, pois esse imediatismo prega aprender apenas o que se necessita para aplicação imediata no trabalho e na vida. Do outro lado da questão, uma parcela de professores tem se comportado como se tivesse perdido a capacidade de pensar e teorizar acerca das causas e do impacto das transformações tecnológicas e continua a receitar fórmulas prontas e acabadas, com resultados fáceis de serem encontrados. Esta atitude é quase como esperar acontecer para depois ensinar, quando o lógico e recomendado seria preparar esses alunos para que eles façam as coisas acontecerem em suas vida e profissão.

Como contraponto ao imobilismo acadêmico, há várias correntes do ensino universitário que se posicionam buscando alterações, mudando métodos e comportamentos e pregando a efetiva interação vida-escola-empresa. Outras, mais “praticistas” ainda, pregam o que chamam de mais realismo; dão mais ênfase ao atendimento imediato à demanda do mercado profissional, procuram aparelhar o aluno dentro do conceito do que seja mais avançado em novas técnicas. Em todas essas concepções há um ponto pacífico: o entendimento de que o mundo profissional invade a sala de aula e esta, por sua vez, se estende ao mundo externo à escola. É um processo em que a visão pedagógica explica o mundo profissional, objeto e fim do estudo. O perigo está naqueles que dão ao ensino uma feição eminentemente técnica, “praticista” demais. Transmitem aos alunos um ensino voltado para cada um dos campos da especialização educacional. A consequência é o chamado ensino profissionalizante, cujo resultado tem sido privar o aluno de uma visão ampla das coisas e lhe embota a capacidade de formular raciocínio crítico sobre o que lhe é ensinado.

E isso nos leva a uma outra realidade, que distorce e deforma a razão de ser da universidade: de uma forma geral não há empenho suficiente para fazer com que o aluno pense por conta própria. O resultado é a baixa produção de tecnologia, um dos pontos de estrangulamento da economia nacional.