O Dumping que veio da Ásia

Tomislav R. Femenick
Tribuna do Norte
. Natal, 18 set011
Gazeta do Oeste
. Mossoró, 30 set. 2011

Dois fatos têm marcado presença quase que constante no noticiário econômico do cenário brasileiro, nos últimos meses. O primeiro deles é um fato positivo: constata o crescimento das vendas do setor comercial, impulsionadas pela maior distribuição da renda nacional, atingindo pessoas que antes estavam quase que fora do mercado; as classes C, D e E. O outro, pelo contrário, é preocupante. Trata-se de uma puxada de freio no crescimento da produção industrial. Esses dois acontecimentos paralelos podem até parecer uma incongruência ou, no mínimo, uma contradição. Se há mais vendas de mercadorias, então deveria haver maior produção dessas mesmas mercadorias.

Na verdade o que está havendo de fato é que o crescimento das vendas é suportado pele aumento das importações, tanto de bens de consumo, como de matérias primas e bens intermediários, principalmente de países asiáticos. A pergunta que se faz é: E por que as importações desses fatores estão crescendo tanto? A resposta é simples, porque a nossa moeda (o Real), está sobrevalorizada, situação que faz que seja mais barato importar autopeças, vestuário, produtos de informática, eletroeletrônicos, insumos da indústria química e tudo mais, do que produzi-los aqui.

Essa primeira pergunta enseja que se faça outra: E por que o Real está sobrevalorizado? Simplesmente por efeito da lei da oferta e da procura. Em uma economia de câmbio livre, isso é, em que o governo não interfere e não tabela o valor da moeda, as várias moedas internacionais se valorizam ou desvalorizam em função do estoque dessas moedas que estejam à disposição do mercado importador e exportador. Como o Brasil tem hoje algo em torno de Us$ 350 bilhões em reservas, temos uma grande oferta de dólares, euros e outras moedas que lastreiam as transações de importação e exportação. O que nos levou a essa invejável posição foram, principalmente, as nossas exportações de grãos, carnes, minérios; todos produtos primários que têm pouco valor agregado, que seria maior se esses fossem bens industrializados. Por exemplo, exportamos minério de ferro e importamos chapas de aço.

Outro fator deve ser levado em conta para explicar os preços baixos dos produtos importador da Ásia: o chamado dumping econômico e social, largamente praticado pelos países asiáticos. O dumping econômico é a prática de se vender um produto abaixo de seu preço normal para outros países, como forma de ganhar o mercado. Isso é comportamento usual de certos fabricantes chineses. Já o dumping social é mais complicado. Os preços baixos de algumas mercadorias asiáticas tem origem no não reconhecimento dos direitos trabalhistas recomendados pela Organização Internacional do Trabalho, tais como salários justos, carga horária e descansos semanais, férias etc. O não atendimento a esses direitos reduz o custo de fabricação e resulta em menor preço de venda de seus produtos.

A conjunção desses dois elementos – Real supervalorizado e preços baixos dos produtos importados – provoca esse efeito que, num sentido extremo, poderíamos chamar pecaminoso para a economia nacional: o aumento do consumo brasileiro sendo atendido por produtos importados. Nada de mais haveria se também tivéssemos uma estrutura de exportação alicerçada em produtos também industrializados, e não predominantemente em commodities, em produtos primários que proporcionam baixo valor agregado: baixa massa salarial, poucos lucros, juros e alugues de tecnologia.

Visto por esses ângulos, compreende-se melhor a cadeia de acontecimentos atuais do nosso mundo econômico. As crescentes exportações primárias brasileiras nos dão um confortável colchão de reserva em moedas fortes. Essa reserva força a valorização do Real. A valorização do Real torna os produtos importados mais baratos. Os produtos importados mais baratos impulsionam as importações de autopeças, vestuário, produtos de informática, eletroeletrônicos, insumos da indústria química etc. A importação mássica desses itens reduz a produção desses mesmos produtos pela indústria nacional. A consequência é menos emprego aqui e mais emprego na Ásia.

Historicamente o Brasil sempre foi um exportador de produtos primários, desde a época colonial. Primeiro tivemos o ciclo do Pau Brasil, depois da cana de açúcar, do ouro, do café, da soja, só para citar alguns; onde poderíamos incluir o algodão, em alguns períodos localizados. É certo que também exportamos outros itens, tais como aviões, veículos automotores, móveis, derivados de petróleo, joias e uma infinidade de outros itens. Mas é pouco, muito pouco.

Em síntese, o Ministro Mantega está certo. Precisamos agregar mais valor às nossas exportações e coibir as importações que nos são danosas.