O Ditador da cocada preta

Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje. Natal, 26 nov. 2007.
O Mossoroense. Mossoró, 28 nov. 2007.

Cocada Preta é um doce típico da cozinha brasileira. Em Salvador é vendido nos tabuleiros das baianas, entre acarajés, abarás e vatapás. É simples e fácil de preparar. Basta colocar em uma panela média 800 gramas de açúcar em 2 xícaras de água, levar-los ao fogo alto e mexer com uma colher de pau, até que o açúcar e a água se transformem em calda. Assim que começar a ferver, se reduz a chama do fogo para média e se pára de mexer. A panela deve ficar no fogo por mais 25 minutos, até que a calda fique com uma cor marrom-escura. Nesse ponto se deve acrescentar um coco ralado e mais meia xícara de água, mexendo delicadamente por uns 2 minutos. Ai é só retirar do fogo e deixar esfriar. Dizem que, quando a família imperial veio para o Brasil, esse quitute era disputado na corte, onde o rei era o primeiro a se servir da iguaria. Daí a expressão “rei da cocada preta”, que a irreverência carioca criou e que hoje é usada, como deboche, para identificar uma pessoa convencida, que se acha o máximo.

Pois muito bem. Aqui na América Latina nós temos um candidato a ditador da cocada preta: Hugo Chávez. O pior é que ele tem fascinado muita gente por aqui, da mesma forma que Hitler encantou muitos na década de trinta do século passado. Como Chávez, ele se apresentava como o paladino dos oprimidos. Seu partido se dizia nacionalista, socialista e operário (“nazista” é a abreviação do Partido Nacional-socialista Alemão dos Trabalhadores). O venezuelano, inspirado no modelo cubano de partido único, agora criou o seu Partido Socialista Unido, anexando os partidos menores que lhe davam apoio (tentou até anexar o Partido Comunista). Quando Hitler começou a armar a Marinha e o Exército Alemão, Neville Chamberlain, Primeiro Ministro inglês, preferiu fazer uma política de boa vizinhança. Em 1938, foi a Munique e negociou um compromisso de paz entre os dois paises, que depois se viu que era pura enganação. Hitler invadiu a Tchecoslováquia, a Áustria, a Polônia, a França e depois quase toda a Europa. Agora Lula, o nosso presidente, diz que Chávez é um democrata. Isso depois dele ter ajudado na expropriação da Petrobrás na Bolívia, de ter invadido a Guiana, de ter tentado se entender com o comandante do exército colombiano para a criação de uma área desmilitarizada, passando por cima do presidente daquele país.

O presidente venezuelano não aceita limites nem protocolos. Uma vez o seu avião invadiu o espaço aéreo brasileiro, sem qualquer aviso prévio, só porque ele queria conversar com Lula. Em agosto do ano passado, dois helicópteros militares da Venezuela invadiram o norte de Roraima. “Um deles pousou na aldeia Xitei, do povo ianomâmi. Três tripulantes desembarcaram e fizeram perguntas ao chefe Ie’Kuana sobre o garimpo de ouro explorado pela comunidade, e não se intimidaram com a presença dos representantes da Diocese de Rondônia e do Ministério Público Federal de Boa Vista, que visitavam o povoado. Um relato chegou ao Comando Militar da Amazônia (CMA) em Manaus, e ao 7º Comar”. Não se sabe qual foi a reação do governo brasileiro.

Em junho e setembro passado, o pretenso caudilho venezuelano acusou o Congresso brasileiro de atrasar a votação da entrada da Venezuela no Mercosul, porque seria submisso aos interesses dos Estados Unidos e que o Congresso Brasileiro “repete como um papagaio” o que diz o Congresso americano. Qual foi a reação do governo brasileiro? Primeiro o Itamaraty emitiu nota dizendo que repudiava o questionamento da independência e dignidade do Congresso Nacional. Depois Lula recua e diz que “Chávez é parceiro, não um perigo para a América Latina […]. Tem suas razões para brigar com os Estados Unidos. E os Estados Unidos têm suas razões para brigar com a Venezuela. O Brasil não tem nenhuma razão para brigar com os Estados Unidos ou a Venezuela”.

Hugo Chávez já invadiu e fechou órgãos de imprensa, seus asseclas já invadiram partidos políticos, a cata de adversários, e universidades a cata de estudantes. Foram até fotografados e filmados com armas apontadas contra os estudantes. Semana passada, uma deputada chavista, Iris Varela, invadiu os estúdios de uma estação de televisão e atacou fisicamente o jornalista Gustavo Azocar, autor do livro “História negra dos próceres vermelhos”, em que este conta o episodio da morte do filho da deputada, na década passada.

Somente no Chile o falastrão teve que enfrentar reação desfavorável ao seu afã, sua ambição, de ser o ditador da cocada preta. Durante a última reunião da Cúpula Ibero-Americana, realizada este mês em Santiago do Chile, ficou famosa a fala do Rei espanhol “¿Por qué no te callas?” (bem dita, porém inoportuna). Porém foi a atitude da presidente do Chile, Michelle Bachelet, uma socialista com história e respeito, pedindo ao venezuelano para ficar fora dos assuntos que envolvem seu país, o maior freio já sofrido por ele. Chávez tinha se pronunciou favorável à demanda boliviana por uma saída para o mar, passando pelo território chileno.