O Desenvolvimento e a Agricultura Brasileira: Uma Breve Abordagem

Tomislav R. Femenick e Sebastião Alves Barreto
São Paulo: PUC, 1981.

I – INTRODUÇÃO

Não há dúvidas: o Brasil sempre esteve umbilicalmente ligado à agricultura. A nossa primeira crônica histórica, a carta de Pero Vaz de Caminha, já dizia, falando de nossa terra: “Em tal maneira é preciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo”. O Brasil nasceu agrícola”.

É claro que iniciamos com uma frase de efeito, muito a gosto de uma parcela ainda ponderável da opinião pública: os agricultores profissionais e os que advogam o destino (ou predestinação) manifesto do Brasil para as atividades agro-pastoris.

O país pode ter nascido agrícola, mas metamorfoseou-se. Hoje as atividades mineral, industrial e de serviços já ocuparam mais da metade da população economicamente ativa. No entanto é a agricultura, ainda, um dos sustentáculos da economia nacional, para usar outra fase de efeito, porém real.

É com este enfoque – agricultura, uma vital atividade para o desenvolvimento econômico nacional – que procuramos estudar, descrever e analisar a agricultura. A nossa abordagem será sempre com uma macrovisão. Se nos aprofundarmos em determinados detalhes, será sempre para evidenciar ou exemplificar um aspecto.

Para melhor entendimento, dividimos o presente trabalho em três partes principais:

Herança Histórica – Abrange os períodos colonial, imperial e republicano, até a Segunda Guerra Mundial.
Passado Recente – Estuda o período que vem do pós-guerra até os dias correntes.
Conclusões – Analisa o estágio atual da agricultura brasileira e suas perspectivas para o futuro próximo.

É claro que não haverá cortes no tempo. Para nós os anos serão elementos, pontos de referência. Procuraremos evidenciar as soluções de continuidade. “O que devemos considerar como significativo são as diferenças, os elementos de descontinuidade e não os elementos de continuidade”. Para tanto tentaremos determinar alguns padrões que se identifiquem com cada um desses períodos. É claro que não nos será fácil selecionar alguns processos pelos quais o novo padrão se difere do antigo, em cada período.

Procurando contornar essa dificuldade metodológica, porém não dela fugindo, escolhemos alguns dos seguintes assuntos ligados à agricultura que inserimos, à medida do possível, em cada um dos capítulos:

- O problema fundiário.
– Relações de trabalho.
– Tecnologia.
– Política agrícola.

Esses tópicos mencionados não serão motivo de uma exausta investigação, isto porque já foram estudados por grupos específicos, sendo, por tanto, meros pontos de contatos de um todo, que pretendemos orgânico.

Centramos os nossos esforços, no entanto, nos últimos capítulos, quando tentamos evidenciar as relações da agricultura, imbricando-as com as relações capitalistas. “As dimensões destas transformações não são apenas econômicas, mas inclui mudanças institucionais, formais e informais, de natureza sociológica ou política”.

Esses serão os marcos que comporão o pano de fundo, para os quais voltaremos nossa atenção. Isto é: o eixo central de nossa investigação está aqui inserido.

 II – HERANÇAS HISTÓRICAS

A atividade econômica do Brasil colonial (o Brasil só teve uma atividade econômica bastante tempo após o seu descobrimento) era voltada para c
omplementar a economia de sua metrópole; Portugal. Isso se deu num momento em que o comércio mundial tomava proporções gigantescas. “A ocupação das terras americanas constitui um episódio da expansão comercial da Europa”.

No primeiro momento, a ocupação econômica do Brasil deu-se fundamentalmente na extração vegetal: O Ciclo do Pau-Brasil, 2 com a utilização do sistemas de arrendamento e da mão-de-obra escrava dos habitantes primitivos da terra. O arrendamento consistia numa concessão da Coroa a determinada pessoa, para explorar a extração de pau-brasil, nas novas terras. A cessão de uma área poderia ser feita a mais de uma pessoa, visto que não havia limites territoriais conhecidos.

Esse tipo de atividade teve vida curta. A sua finalidade, para alguns autores, era garantir a ocupação da colônia por Portugal, em decorrência da ameaça de invasão do território brasileiro pelas outras potências européias. “O apossamento, em si não constitui garantia suficiente (de manutenção da posse – parêntese dos autores). Não assegura a posse de uma área extensa e vulnerável”.

A cana-de-açúcar

Com o esgotamento do ciclo do pau-brasil, a atividade econômica que lhe sucedeu foi a cana-de-açúcar, mais completa em si mesma, pois que demandava equipamentos e instalações – representando capital fixo. A mão-de-obra utilizada era escrava, composta de negros africanos; o que gerou uma segunda atividade econômica: o tráfico de escravos.

Por sua vez, a agroindústria açucare ira provocou um ordenamento legal para o regime da posse e propriedade da terra. O primeiro regime de posse de terra no Brasil teve sua origem em um modelo português: as sesmarias, norma jurídica que orientava a distribuição do solo aos colonos, originária do reinado de D. Fernando I e incorporada às Ordenações ( Leis) Afonsinas, Manuelinas e Filipinas.

Por esse quadro jurídico, as distribuições de terra feitas pela Coroa, tinham limitações temporais ( geralmente cinco anos ou menos) porém não de extensão. A restrição
temporal atentava para fixar um prazo durante o qual o colono tinha que iniciar o efetivo uso do solo, ou seja, a garantia da posse e propriedade do solo dava-se por intermédio da exploração econômica.

Como as frações das sesmarias eram bastante generosas em termos de grandeza física das propriedades (de quatro, cinco, dez, vinte léguas, muitas vezes em quadras); como o relacionamento senhor x escravo dava poderes de vida e morte ao senhor de engenho e, ainda, como a distância e as dificuldades de transporte forçavam a que se procurasse a auto-suficiência na própria unidade rural, surgiu a tese de um pretenso feudalismo brasileiro, o que não passava de uma mera figura de retórica, pois faltar-lhe-ia a origem nobre e o vínculo de vassalagem, no mesmo plano em que lhe sobraria uma estrutura produtiva de exportação com vínculos nitidamente mercantilistas. O lucro era a mola propulsora da atividade mercantil-açucareira-escravagista.

Na exploração canavieira o meio de produção essencial, a terra, constituiu-se em um fator que não apresentava restrição ao crescimento da produção agrícola, em decorrência da grandeza do território brasileiro e da abundância de terra agriculturável ainda não apropriada, ou seja, o deslocamento da fronteira agrícola era uma constante na produção extensiva da cana-de- açúcar, requerida devido ao caráter predatório do cultivo dessa lavoura, que era assentado no sistema de plantation.

A mão-de-obra utilizada era a escrava, constituída do negro africano. Dois fatores contribuíram para a sua utilização. Primeiro a indisponibilidade de força de trabalho local, visto que a experiência que se fez com o escravismo indígena não surtiu resultado, porque o contingente populacional dos nativos era insuficiente para a empreitada. A Coroa Portuguesa proibiu a escravização dos indígenas brasileiros, fato que dificultou mais ainda a sua utilização como mão-de-obra.6 Segundo, o capital comercial já existente na época e envolvido com o tráfego negreiro, foi outro fator determinante para
a utilização da mão-de-obra escrava de africanos no ciclo da cana-de-açúcar.
O capital fixo, era totalmente importado. O engenho de cana-de-açúcar vinha pronto já para operação, o que se requeria quando da sua chegada era somente montá-lo. Para Celso Furtado os capitais flamengos se associavam a Portugal no financiamento à produção da cana-de-açúcar. ” Tudo in dica que capitais flamengos participaram no financiamento das instalações produtivas no Brasil bem como no da importação da mão-de-obra escrava”.

Alguns estudiosos caracterizam o regime sócio-econômico da plantation como feição feudal. Nelson Wemeck Sodré, que compartilha desse ponto de vista, na sua obra Formação h istórica do Brasil ( Civilização Brasileira,1976, p. 80 e 81) cita alguns deles e outros que não concordam com seu ponto de vista.

Mais recentemente surgiu uma nova concepção teórica referente ao assunto, liderada por Jacob Gorender, que defende a idéia segundo a qual nesse período da história do Brasil se teria criado um novo modo de produção, alheio aos padrões da ortodoxia marxista, quando afirma ” Com efeito ocorreu na América do Sul, mais exatamente no Brasil, a criação de um novo modo de produção, cujo reconhecimento, se pensado em suas profundas implicações corrobora as modernas linhas de pesquisa e de generalização sistemática do materialismo histórico”.

Ciclo da Mineração

Com o declínio da atividade açucareira, em decorrência da restrição do mercado externo, causada pela produção das Antilhas e sua concorrência no mercado internacional, o Brasil se voltou para a mineração. Para se ter uma idéia da importância do ciclo da cana-de-açúcar, as exportações brasileiras até 1822 foram de ₤ 536.000.000, desse total o açúcar foi o responsável por ₤ 300.000.000. O restante coube ao ouro, fumo, madeira, algodão, etc.

Então, pelo exposto, a mineração substitui a plantation açucare ira. O impacto maior da atividade mineradora foi originar as formações urbanas, dando com isso origem às cid
ades e a criação de um mercado interno de produtos alimentares, pois a atividade mineradora está dissociada da produção agrícola de subsistência. Ao contrário do ciclo canavieiro que tinha a produção de alimentos para a subsistência da força de trabalho escrava, inseri da na plantation ou a ela justaposta.

Há, portanto, dois mercados consumidores surgidos paralelamente em função do ciclo do ouro: o constituído pela força de trabalho diretamente engajada na extração( escrava ou não); e o outro composto pela população urbana direta ou indiretamente ligada àquela atividade – funcionários das casas de fundição, funcionários da coroa, etc.

“Essas aglomerações de mineiros exigiam vultosos transportes de artigos para o seu consumo e instalação; na própria exploração de minas usou-se gado muar em abundância e o transporte de ouro, com sua comitiva de guardas incrementava a sua utilização”.

Concluindo, podemos afirmar que o ciclo da mineração deu à agropecuária a oportunidade de produzir para o insipiente mercado interno.

Abolição do Trabalho Escravo e a Introdução do Trabalho Assalariado

Os dois grandes eixos dinâmicos da economia brasileira: o ciclo da cana-de-açúcar e a mineração se assentavam, dominantemente, no trabalho escravo. As relações sociais de produção nesses dois momentos históricos eram as mesmas, a diferença aqui observada é em termos de grau. Enquanto que no período açucareiro, a força de trabalho assalariado representava um contingente ínfimo dos trabalhadores ( escravos). Só o controle da força de trabalho assalariado na produção açucare ira era exercida por imigrantes europeus que, gradativamente, foram substituídos por escravos ou mestiços que apresentassem aptidões para o exercício de atividades manuais. Na economia mineira, o contingente de trabalhador não escravo já era superior ao observado na cultura canavieira, pois além do exercício de atividades na fundição do metal (ouro), a sua extração era, também, feita no regime de parceria da produção, entre o
agente de produção (o trabalhador envolvido na produção) e o detentor do direito de exploração, dono do meio de produção. Esse tipo de relação chegou a ser firmado com escravos, que nas horas de folga se dedicavam a essa atividade paralela. O fruto desse trabalho muitas vezes permitiu aos seus executores comprarem sua alforria.

O grau de verticalização das atividades açucareira e mineradora, se assim podemos chamar, era limitadíssimo. Enquanto no nordeste a criação de gado abastecia as necessidades de animal de tração para os engenhos, o sul fornecia muares para transporte e o gado para corte. Daqui conclui-se que a pecuária foi a atividade complementar da principal, enquanto esta mudou de região e de atividade, aquela mudou somente de região, ou seja, a pecuária continuou sendo uma atividade complementar da principal. O que aqui dizemos não é que os agentes econômicos tenham se transportado do Nordeste para o Sul, nesse ponto, nos abstraímos totalmente; a mudança de eixo regional da atividade pecuária é enfocado sob o prisma da atividade ser a mesma em momentos históricos diferentes, ou seja, é complementar ao pólo dinâmico da economia das respectivas épocas.

Expõe Furtado, que a atividade no seio da pecuária dava-se sob relações não monetárias e que a absorção da força de trabalho era reduzida. Na pecuária, o agente econômico tem a sua remuneração dada pela participação na apropriação de uma parcela do rebanho, isto é, ela tem direito a ficar com uma cria, ao cuidar de um determinado número de outras. A pecuária é notoriamente uma atividade econômica que requer um limitado número de trabalhadores, principalmente extensiva, que era o caso do Brasil.

A retração do pólo dinâmico da economia, e aqui a economia açucareiro, convertia a atividade complementar em economia de subsistência. Ainda de acordo com Furtado “… a rentabilidade da economia pecuária dependia em grande média da rentabilidade da própria economia açucare ira, ao transferir-se população desta para àquela nas etapas de depress
ão, se intensificava a conversão da pecuária em economia de subsistência”.

Para o autor, tal mecanismo foi responsável pela não saída dos fatores de produção e pela não estagnação demográfica, no período de depressão que enfrentou a atividade açucareira.

A guerra pa independência Americana, Revolução Industrial Inglesa, Revolução Francesa, etc. ( não é o nosso objetivo estudar esses fatos aqui) contribuíram sobre maneira para reacender, embora de maneira passageira, a economia brasileira que se encontrava em fase de prostração com o declínio da atividade mineradora.

Os Estados Unidos da América eram os principais produtores de algodão do mundo e alimentavam o parque industrial inglês, que se encontrava em etapa de constantes mudanças, em virtude do avanço técnico, uma necessidade requerida pela concorrência “intercapitalista”, para baratear o custo das mercadorias. Com a guerra da independência americana, a demanda por algodão, principal insumo da indústria têxtil, se acentua em decorrência do maior fornecedor se encontrar em guerra. O resultado disso é que o Nordes te brasileiro toma-se um produtor respeitável de algodão, para atender basicamente a demanda inglesa.

A revolução francesa refletiu, em termos de convulsão social, na sua colônia produtora de açúcar – o Haiti, onde, em 1789, houve uma rebelião de escravos que destruíram as condições materiais de produção. Por último as guerras napoleônicas com o “bloqueio e o contrabloqueio da Europa e a desarticulação do vasto império colonial”. Esses fatos levaram um novo estímulo a atividade açucareira, embora de maneira passageira, pois com o restabelecimento da ordem internacional, o mercado externo de açúcar voltou a ser abastecido pela produção das Antilhas. A situação se repetiu com o algodão. Passada a guerra, os Estados Unidos voltaram a ser os principais fornecedores de algodão para a indústria têxtil inglesa, provocando retração na procura do produto nacional. Depois do reordenamento da economia mundial, a nossa economia voltou
para a letargia que dantes se encontrava.

Esse fluxo e refluxo não teve maiores conseqüências, em virtude da atividade produtora nacional utilizar o trabalho escravo. No período canavieiro, a força de trabalho não engajado na produção ( por esta não estar sendo realizada no mercado) era desviada para atividades afins, como restaurar as instalações do engenho, cultivo da própria subsistência do escravo, etc. Na exploração mineira, no momento da retração o ônus maior recaiu sobre o agente investidor, decorrência natural da imobilidade dos fatores das produção.

A abolição de escravatura brasileira deu-se em 1888, de direito, mas de fato muitos bolsões da economia brasileira já a havia executado, por não dispor de escravo. Esse fato foi causado pela séria oposição do governo britânico ao tráfico negreiro, desde os princípios do século XIX. Cedendo à pressão inglesa no sentido de supressão do tráfico negreiro, o Brasil adotou uma série.de textos legais, tais como, Lei do Ventre Livre (proíbe escravizar os filhos de escravos), a do Sexagenário ( não permite escravizar o negro com 60 ou mais anos de idade), etc, leis essas com pouca abrangência, principalmente, a última, pois pelas condições de exploração da força de trabalho escravo, a expectativa de vida era bem inferior aos 60 anos de idade. A expectativa de vida do brasileiro atinge o limite de 60 anos de idade, somente no decorrer da sexta década do século XX.
A reação brasileira à oposição britânica ao tráfego negreiro deu-se por uma razão evidente: o governo, como representante do segmento social controlador da produção, temia que a abolição do uso de mão-de-obra es crava encarecesse os seus produtos, tirando com isso o seu poder de competitividade no mercado internacional. Da independência, em 1822, essa resistência foi até 1888, quando se capitulou e foi proclamada a abolição total da escravatura no território nacional. A capitulação dos setores escravagistas não se deu somente devido à pressão das correntes externas, mas também por forças so
ciais internas, que se opunham à escravidão. O realinhamento da economia do país, em relação à economia mundial, deu-se com um novo produto: o café, que desde 1840 passou a ser o principal produto de exportação.

Assim, o Brasil inicia a superação de sua estagnação econômica novamen te vinculando-se ao mercado internacional, cultivando o café para seu atendimento. Segundo Furtado, isso deu-se em face da especialização de nossa economia. ” Desenvolvimento com base no mercado interno só se torna possível quando o organismo econômico alcança um determinado grau de complexidade que se caracteriza por uma relativa autonomia tecnológica”.

O ciclo cafeeiro trouxe o germe da dissolução do trabalho escravo. A introdução dessa cultura deu-se em bases escravocratas. A sua expansão requeria um contingente de trabalhadores que não podia ser atendida pela importação de escravos, pela oposição inglesa a essa atividade. Como atender à necessidade de mão-de-obra requerida pela expansão cafeeira? Essa era a questão posta.

Diz Sérgio Silva, que a solução encontrada foi a importação de mão-de-obra não escrava (européia), desde 1850, utilizando-se, inicialmente, como relação de produção a parceria: “Os trabalhadores eram contratados como parceiros”. A mão-de-obra européia atendeu às exigências da expansão cafeeira, sofrendo refluxo num primeiro momento, quando no início da imigração, o trabalhador imigrante chegou a ser transacionado no mercado, pois no momento da repartição da colheita, o fruto do seu trabalho não cobriu o ônus despendido com o seu transporte e instalação, feitos pelo fazendeiro, com financiamento do Estado. Esse fato causou repulsa nos países exportadores de mão de obra, que chegaram a suspender a imigração de seus nacionais para o Brasil.

Aparadas as arestas que entravavam o fluxo da mão-de-obra européia, ele foi retomando no grau requerido pela economia cafeeira, assentada em outras bases ( inicialmente colonato e depois regime assalariado) de relações de produção. “Foi fundamental gr
aças a essa imigração massiva de trabalhadores de origem européia, que o mercado de trabalho formou-se e desenvolveu-se no Brasil, até a década de 1920. É nesse mercado de trabalho, formado pelos trabalhadores imigrados, que se abasteceram não somente os fazendeiros de café mas também os primeiros industriais brasileiros… “.

Dessa forma, pode-se dizer que a cultura cafeeira foi a responsável pela introdução do trabalho assalariado. Trouxe, também, em seu bojo uma alteração, limitada, nas forças produtivas. Isso em decorrência da raridade da força de trabalho. Esse avanço tecnológico deu-se, por exemplo, com a utilização de secadoras mecânicas importadas, empregadas na secagem do café. Restrição se faz a essa informação somente no aspecto quantitativo, pois o uso dessa nova técnica não foi generalizado para o conjunto da economia cafeeira.

Por outro lado, o café ensejou que fosse criado e / ou ampliado o sistema viário da região centro-sul, principalmente nas estradas de São Paulo e Rio de Janeiro. Paralelamente às rodovias, que se estendiam de forma restrita aos centros de embarque, estenderam-se os trilhos das ferrovias, ligando o interland aos portos exportadores.

O capital da economia cafeeira assume formas específicas, tais como: capital agrário, financeiro, industrial, etc., embora a sua autonomia fosse relativa, pois o agente que o detinha não se diferenciava em qualquer das atividades e nelas todas estava ao mesmo tempo.

Do conjunto total dos capitais presentes na cafeicultura, o dominante foi o capital comercial-mercantil, tal fato verificando-se pelo baixo índice de desenvolvimento das forças produtivas. “A preponderância do capital comercial é ( era), em primeiro lugar, o resultado do desenvolvimento ainda fraco das relações de produção capitalistas no Brasil”.

Nessas condições, o fator de produção que representava uma importância fundamental para a produção agrícola e sua expansão, era a terra. a aumento de produção era conseguido não por inversão de nova tecnolog
ia, mas sim pela agregação de novas terras, resultando num constante alargamento da fronteira agrícola.

A estrutura fundiária foi substancialmente alterada em 1850, com a edição da Lei de Terras ( Lei n.o 601, de 18.09.1850). Sua grande importância está na medida em que o instituiu no Brasil um princípio jurídico pelo qual a propriedade da terra adquiriu expressão monetária. Além do mais, esse texto legal impediu, ou pelo menos dificultou, o acesso à terra a vastos setores da população que não dispunham de recursos financeiros, inviabilizando uma participação maior de uma importante camada da população na gerência e posse fundiária.

Diante disso, não restava outra alternativa ao trabalhador sem recursos para aquisição de terras, a não ser se submeter ao capital, vendendo sua capacidade de trabalho – assalariando-se.

No modo de ver, o ciclo da economia primária exportadora, dada em relações não inteiramente capitalistas, encerrou-se quando se fizeram presente as relações sociais de produção nitidamente capitalistas, ou seja, de um lado se encontravam os detentores dos meios de produção e de outro os possuidores da capacidade de trabalho. Em linguagem marxista, o trabalho está subsumido ao capital.

Nestes termos, se estrutura o capitalismo no país; segundo Sérgio Silva, num momento de universalização do modo capitalista de produção. No primeiro instante, o país insere-se na nova divisão internacional do trabalho, ainda, como primário-exportador, tendo como principal produto na sua pauta de exportação o café, posição mantida até data bem recente.

Para que o café atingisse essa posição, foram necessárias, no decorrer de sua história – enquanto produto central da acumulação de capital – políticas governamentais que mantivessem nível de preço internacional ou preço remunerador ao produtor.

O contraditório de tudo isso era que quando da baixa dos preços inter nacionais ainda era um bom negócio permanecer na cultura cafeeira, pois os produtores tinham preço bastante compensador
para o seu produto. A con seqüência natural era a ampliação crescente da produção, visto não haver dificuldade para sua realização a preço remunerador.

A débâcle de 1929 trouxe sérias conseqüências à economia brasileira, que já se encontrava interdependente da economia mundial. Representou tal fato a queima de suas divisas para manter sua capacidade de importar, abalada pela não realização no mercado externo do seu principal produto, isto é, nessa fase as importações brasileiras superavam as exportações, apresentando um diferencial coberto pelas nossas reservas metálicas. Essa crise encontrou o café em situação bastante vulnerável, uma superprodução brasi leira e um subconsumo mundial.

Outro fator foi resultante da crise de 1929: ” Nos anos de depressão, ao mesmo tempo que se contraíam as rendas monetária e real, subiam os preços relativos das mercadorias importadas, conjugando-se os dois fatores para reduzir a procura de importação”.

O resultado da contração das importações e das exportações – com o rompimento do eixo dinâmico da economia imbricada ao movimento dos capitais internacionais – foi uma pressão de demanda por produtos antes importados e a transferência de parcela substancial do capital anteriormente investido na agricultura e no comércio, para a incipiente indústria nacional de bens de consumo. “A concentração de renda em mãos de plantadores, comerciantes e financistas do café, não se chocava inteiramente com a diversificação da economia. Nos períodos de crise de exportação, como as importações encarecessem e as novas plantações fossem restringidas, eles investiam na produção interna, substituindo as importações, principalmen te de bens de consumo e, em menor grau, de bens intermediários… “.

O crescimento do setor industrial ligado ao mercado interno deu-se, inicialmente, com a utilização mais intensiva da capacidade produtiva já instalada, porém, paulatinamente, começou a pressionar no sentido de ampliar o parque fabril, com adições de bens de capital. O custo crescent
e dos itens importados favoreceu a instalação de uma indústria de bens de capital. En quanto a produção nacional de ferro, aço e cimento cresceu em 60% (sessenta por cento) entre 1929 e 1932, no mesmo período as importações de bens de capital foram reduzidas em quase 80% (oitenta por cento). De 1929 a 1937, a produção elevou-se em mais de 50% (cinqüenta por cento).

Para alguns estudiosos da economia brasileira do período em tela, a industrialização deu-se devido a baixa capacidade de importar que o país enfrentava, naquele momento. O resultado disso, foi a implantação de uma política de substituição de importação de bens antes importados e que a situação de momento não permitia se fazer. A demanda desses bens estimulou a sua produção interna.

Outra corrente diverge desse pensamento, advogando à tese do desenvolvimento industrial como integrante de uma realidade capitalista unitária, onde a expansão do valor é a finalidade central do investimento. “O elemento essencial do nascimento e o ulterior crescimento da indústria não podem ser encontrados ao nível da demanda de produtos importados, nem mesmo ao nível da demanda em geral. O nascimento do capitalismo (o.), do qual a expansão da demanda representa um simples resultado”.

Abstraindo-se da visão ideológica subjacente a abordagem do analista, o Brasil deu saltos qualitativos e quantitativos no período entre guerras, como pode-se verificar: ” Até 1938, o Brasil quase atingiu a auto-suficiência em manufaturas leves, e a indústria de bens (de) capitais crescera tanto que, um decênio após, estaria produzindo mais da metade das necessidades de equipamentos. É importante, assim, notar que, embora tivesse havido considerável atividade manufatureira antes de 1930, foi durante essa década que a industrialização, (…) como o setor líder do crescimento da economia, ocorreu pela primeira vez”.

Esse ritmo de crescimento no setor industrial estendeu-se durante os anos da Segunda Grande Guerra, quando o Brasil, inclusive, se fez presente no mercado
mundial de produtos industrializados. Em 1943, 13% (treze por cento) das vendas ao exterior representavam exportação de tecidos. Por outro lado, 38% (trinta e oito por cento) da produção industrial nacional constituíam-se de bens de capital. Um indicador do crescimento do setor industrial na economia do País evidencia-se pelo crescimento comparativo, no mesmo espaço de tempo, de 1939 a 1946, da indústria e da agricultura. Enquanto aquela cresceu 60% (sessenta por cento) esta cresceu somente 7% ( sete por cento).

Muito embora, a indústria apresentasse um maior dinamismo no seu crescimento, a sua participação relativa no Produto Nacional ainda era minoritária em relação à agricultura, pois em 1940, 66% (sessenta e seis por cento) cabiam a esta última.

Continuamos apresentando dados quantitativos referentes à economia brasileira, no período 1938/1945. O Quadro I mostra a evolução do setor agrícola ( principais produtos) e o Quadro II, o desempenho do setor indus trial (composto também dos principais produtos). O terceiro Quadro da série evidencia o dinamismo de economia observado pelo ângulo do comércio externo, do setor agrícola e do setor industrial. E, por último, procuramos destacar do conjunto da economia – composto por dois setores ( agrícola e industrial) e sem governo, a participação relativa desses autores na competição da nossa restrita economia – por termos esboçado em bases muito limitadas.

Área Cultivada

Dois aspectos se sobressaem do quadro em análise. Enquanto as culturas voltadas para o consumo interno tiveram um aumento acentuado, na sua área de cultivo, o mesmo não se pode dizer das culturas de exportação, especialmente o café, que teve uma redução drástica da área cultivada, me nos 31 % (trinta e um por cento). Isso
em decorrência da política governamental que desencorajava a expansão da cafeicultura, devido à baixa cotação no mercado externo. Observa-se, no entanto, que o crescimento da área delicada ao cultivo de arroz, feijão, de 53,06% e 42,95%, respectivamente, não teve um correspondente aumento na fronteira agrícola, pois a expansão desta foi somente 5,66%. Tal dado nos diz que o crescimento da área dedicada a essas culturas deu-se em detrimento da destinada à cafeicultura.

O único produto de exportação que teve sua área de cultivo aumentada, em termos razoáveis, foi o cacau, que em 1938 ocupava uma área de 180.909 ha., saltando para 267.920 ha., em 1945. Isso representou uma adição de 152.989 ha. destinados a essa cultura. Em termos relativos esse aumento foi da ordem de 48,09%.

Produção

Exceto a borracha, que cresceu 108,73% no volume de sua produção, os outros produtos de exportação tiveram uma redução no total produzido em relação ao ano base (1938). Não obstante, somente o algodão teve decréscimo (20,17%) nas suas vendas. Até o café cresceu (83,39%) na receita auferida. O feijão e o arroz, principais produtos alimentícios básicos, cresceram tanto em volume de produção como em receita. Em contrapartida, todos os produtos de exportação tiveram queda no volume produzido (restrição feita à borracha), porém com aumento da receita ( menos o algodão que decresceu 20,17% na receita obtida).Disso conclui-se que houve um aumento da produção agrícola voltada para o consumo interno em detrimento das culturas que tinham a sua produção dirigi da para o mercado externo. Comprova-se esse fato pela simples comparação de dois dados extraídos do quadro em tela: a receita total da agricultura cresceu no período (1938 a 1945) 131,51 %, enquanto que as receitas obtidas com exportação de pro dutos agrícolas cresceram somente 69,13%.

Exportação

Dos cinco principais produtos agrícolas que integravam o rol de exportação brasileira, apenas um, ainda a borracha, ascendeu em volume (56,50%
). Entretanto todos eles ( algodão, café, cacau, borracha e mate) obtiveram receitas crescentes no período.

O Quadro II (uma amostra extremamente limitada e conservadora da realidade econômica, dada pelo universo pesquisado) expressa uma só realidade: o crescimento constante da atividade industrial no período pois, como vimos, evidencia um volume de produção em ascensão para uma receita em crescimento muito maior em termos relativos. O aço foi o produto que teve o maior crescimento relativo, no período em análise, tanto no volume como no valor, 122,82% e 398,22%, respectivamente. O oposto dá-se com o cimento que cresceu em volume somente 25,3% e em valor I 25%. Estes números indicam que o crescimento da indústria foi de forma ascendente em todos os seus segmentos (da nossa amostra).

Quadro III – AMOSTRAGEM-EVOLUÇÃO DA ECONOMIA BRASILEIRA – 1938/1945 PRODUÇÃO AGRÍCOLA E INDUSTRIAL (PARTICIPAÇÃO %) – Clique aqui

Três Setores

o objetivo da montagem desse quadro foi o de comparar e alargar nosso horizonte de pesquisa, confrontando a receita da produção agrícola com a das exportações – vez que a agricultura era o setor detentor de maiores componentes na pauta de exportações – e a receita industrial com o valor das importações – o que nos fornece indícios para elaborações teóricas.

Durante os anos em observação, constatamos que a agricultura cresceu 131,51%, as exportações todas cresceram 139,31%, enquanto que as exportações agrícolas cresceram somente 69,31%. Isso permite deduzir que houve uma diversificação, da pauta de exportação, nela inclu
indo-se pro dutos não agrícolas.

Uma outra evidência é que a produção industrial deu saltos significati vos no volume e no valor de sua produção, contribuindo mais substancial mente no cômputo geral da economia brasileira (ressalta-se mais uma vez as características de nossa amostragem). A parte disso, o crescimento significativo dq setor industrial, aconteceu um crescimento moderado das importações.

Para a corrente cepalina, e objeto de estudo do Prof. Otavio Rodríguez, o crescimento industrial nos países subdesenvolvidos, com início nos anos trinta, surgiu em decorrência das limitações das importações: “(..) a partir dos anos trinta, as mudanças da economia mundial forçam as áreas periféricas a manterem um baixo coeficiente de importações, ou ainda a reduzi-lo gradualmente, para assegurar o seu desenvolvimento. Por sua vez, isso significa uma mudança no padrão de crescimento da periferia que, em vez de apoiar-se na expansão das exportações, passa a um novo modelo baseado na instalação e ampliação de um setor industrial cuja produção destina-se ao mercado interno”.

A visão oposta, tem como fundamento a própria estrutura do capitalismo e sua lógica interna que é a valorização do capital. Dentro desse tipo de abordagem excluir-se-ia posição divergente e conFlitante para o desenvolvimento como um todo. O capitalismo nessa abordagem é tratado universal mente com a divisão internacional do trabalho estabelecido de acordo com a ótica do capital. “A opção entre produtos importados e produtos nacionais é limitada (..) pela própria lógica da acumulação”.

Seria a industrialização causa ou efeito da retração das importações? Ou a industrialização foi uma melhor opção para a remuneração de capitais, onde a economia é um todo regulado por uma taxa de lucro?

Dois Setores

Aqui procuramos compor em termos relativos a nossa economia. Compondo-a com os dois setores: agricultura e indústria. Demonstra-se nesse quadro que o crescimento de um setor, é claro, dá-se em detrimento da
retração do outro. Em assim sendo, enquanto a agricultura perde 3,8% na composição do produto, a indústria ganha igual parcela.

III – PASSADO RECENTE

A economia brasileira tem enfrentado no pós-Segunda Grande Guerra, o fluxo e refluxo da economia mundial, devido ao seu caráter interdependente e a universalização do modo de produção capitalista.
No entanto, a nossa economia tem alterado substancialmente o seu perfil produtivo. A agricultura brasileira no decorrer das décadas tem sofrido transformações importantes no que diz respeito ao seu cultivo: introdução de mecanização, sementes selecionadas, pesticidas etc., dando como resultado um aumento de produtividade agrícola.

A atividade agrícola hoje é minoritária na absorção de mão-de-obra. Esta reversão verifica-se a partir de 1960, quando deu-se quase um equilíbrio entre a agricultura e os demais setores da economia, pois enquanto o setor agrícola absorvia 50,7% da força de trabalho, o restante estava empregado nos outros setores da economia. Essa situação consolida-se já em 1970, quando o grosso da força de trabalho estava alocado nas atividades urbanas, cabendo ao setor agrícola empregar 40, 1 % da população economicamente ativa. Daqui para a frente a situação tende cada vez mais a se aprofundar, pois em 1976 os trabalhadores empregados na agricultura correspondiam a 37,7% da população ativa. Deve-se levar em consideração que a população ativa vem num crescendo, com o passar dos anos. A sua composição, em 1960, era de 22.750.028 trabalhadores e, em 1976, era de 40.236.743. O interessante de tudo isso é que a população absoluta empregada no setor agrícola nos anos de 1960, 1970 e 1976 foi de 12.276.908, 13.087.521 e 14.595.0531, respectivamente, isto é, apresentando pequenos acréscimos e se mantendo quase no mesmo nível.

A contrapartida da redução do uso da força de trabalho no setor agrícola foi o aumento da utilização de tratores. Em 1960, foram usados 61.324; em 1970, 165.870, e 1975,323.113 tratores.2
Caracteriza esse fato a substituição do trabalho vivo pelo trabalho morto. Dito de outra maneira, o trabalho direto foi potenciado, em virtude de se incorporar ao processo produtivo novos instrumentos de trabalho, isto é, aumentou-se o peso do trabalho indireto na formação do produto.

Para alguns autores o incremento da mecanização e automatização do processo produtivo de uma economia com vasta população à sua disposição representa, no mínimo, um contra-senso se privilegiar o chamado fator capital, em detrimento do fator trabalho, abundante. Nos países subdesenvolvidos, o fator capital é escasso e geralmente obtido no exterior, quando não a sua totalidade, pelo menos parcela considerável do seu total. “Utiliza-se mais intensamente o fator capital, de que somos carentes, e abandona-se o uso do fator trabalho que é abundante e barato”.

A racionalidade do modo de produção capitalista é minimizar os custos de produção. O empresário usa a planta produtiva que menos onere, em termos de custos, a sua empresa. A sua preocupação é ganhar a concorrência do mercado junto ao público consumidor. Portanto, ele deve estar sempre procurando utilizar a tecnologia mais avançada, para não ser posto à margem do mercado, pelos seus concorrentes.

Um mercado de trabalho abundante, causado por fatores estruturais (estrutura fundiária concentrada, desemprego e subemprego) regulado pelo setor dinâmico ou de ponta da economia, deprime as taxas de salários, não sendo, no momento mais recente da economia internacional, alternativa para substituir o fator capital. O oposto se dá a constante e crescente automatização da economia, com, a substituição do trabalhador por robôs, máquinas etc.

O Quadro IV mostra a estrutura fundiária brasileira. De uma área de 360.418.098 ha., em 1965, 76% estavam concentrados em latifúndios por exploração, cabendo 4,1% dessa área à empresas rurais. Essa situação se altera um pouco em 1972, pois a área total é de 393.230.232, sendo 68,6% pertencentes a latifúndios por exploração e 9,1%
à empresas rurais. Embora tenha havido um deslocamento da fronteira agrícola, das rubricas que compunham o quadro em análise, só houve um aumento absoluto e relativo das empresas rurais. Estas cresceram em detrimento dos latifúndios por exploração e dimensão que ocupavam a seguinte posição: 82,9% e 72,2%, em 1965 e em 1972, respectivamente, Houve, também, redução dos minifúndios no período de 1965/1972. De 12% no ano base, essa posição cai para 11,5% no fim do período. Ressalta-se que o número relativo de minifundistas quase se igual à área ocupada pelos grandes proprietários, mais especificamente os latifundiários, tanto em 1965 como em 1972. Em outras palavras, enquanto uma grande fração da população ocupa um limitado espaço para extrair sua subsistência, um minoria dispõe da quase totalidade das terra agricultáveis em exploração ou simplesmente mantida como reserva de valor.

Quadro IV – ESTRUTURA FUNDIÁRIA NO BRASIL

Devido às melhorias públicas – construção da rede viária, açudagem etc.- uma vasta porção do território nacional sofreu uma extraordinária valorização. Numa economia onde a moeda está em estado de erosão, causa- da pela contínua alta dos preços, tomou-se um bom negócio manter artigos fixos, no presente caso, terras, sem submetê-los a benfeitorias ou mesmo explorá-los economicamente, para manter atualizados os recursos monetários empregados na sua aquisição, até mesmo superando-os. Esse diferencial, Ignácio Rangel denomina de a quarta renda da terra.

De acordo com a concepção de Rangel, a estrutura fundiária não é um empecilho para a penetração do capitalismo no campo, pois até o capital financeiro, é convertido em ativo através da aquisição de terras. “Do ponto de vista econômico, os problemas que a agricultura apresenta para o processo de acumulação geral de capital têm outra origem. Isto é, não estão imediatamente relacionados com a estrutura fundiária ou com o grau de concentração da propriedade territorial no Brasil”.

De 1970 a 1975 a área cultivada da agric
ultura brasileira se expandiu em 10,11 %, passando de 294.145.466 ha., para 323.896.082 ha.6 Como já vimos, houve uma redução da população economicamente ativa empregada nas atividades agrícolas. No entanto, a participação relativa da agricultura no produto interno líquido manteve-se mais ou menos num mesmo patamar, em tomo de 10%, nos anos de 1970 a 1974.

Quadro V – CONTAS NACIONAIS – CONTAS DE PRODUÇÃO

Além do já mencionado, referente à agricultura e a sua participação na formação do Produto Interno Líquido, que ao longo do período se mantém com relativa estabilidade, o Quadro V também mostra um equilíbrio nos setores secundário e terciário. Enquanto este último teve um decréscimo de 4,5%, o primeiro ganhou 3,53 %, na composição do Produto Interno Líquido nacional.

Até o momento, a citação dos dados empíricos neste capítulo e no precedente, foi feita com o intuito, embora de maneira extremamente sucinta, de demonstrar uma tendência de ampliação do capitalismo no campo, sua consolidação. A partir desse instante, o nosso trabalho será direcionado para evidenciar se o setor agrário sofreu uma revolução tecnológica, com o emprego de novos métodos empregados no processo produtivo agrícola, e se este esteve amalgamado ao setor industrial nacional.

A Agricultura e a Industrialização

A partir da década de trinta o centro dinâmico da economia nacional transladou-se, gradativamente, da agricultura para a indústria. Posição que se aprofunda no transcorrer do tempo, atingindo a hegemonia em meados dos anos sessenta e início dos setenta. Desde o término da Segunda Guerra Mundial o perfil produtivo da economia assume nova feição, voltada para o desenvolvimento interno, proporcionando o incremento e/ou implantação da indústria de bens de capital, através da expansão do consumo desses bens, pe
los setores produtores de bens de consumo.

Dessa forma, instala-se o complexo agroindustrial, onde o crescimento da indústria é função e fator do desempenho das outras atividades econômicas. As fases que antecederam esse momento também utilizavam base de produção acoplada ao sistema produtivo agrícola, e também estavam imbricados ou reproduzindo o capital internacional.

O Brasil instalou um departamento produtor de bens de capital, na época já mencionada, mas só atingiu a maturação desse setor a partir da metade da década de cinqÜenta. Nesse período a economia completa-se e reproduz- se internamente, com toda a dimensão requerida para a expansão do valor. É claro, o país não corta as suas relações comerciais externas. As mantém em outras bases. De complementadora da economia internacional (realizando ou ajudando a realizar fração do departamento de bens de produção das economias centrais ou desenvolvidas), passa a estreitar esse mercado e até mandar outros insumos produtivos, alterando a composição das importações.

A dinâmica na indústria de bens de produção é dada pelo desempenho do conjunto e/ou ampliação dos setores produtivos de bens de consumo de massas e duráveis – este na sua fase inicial, dadas as condições técnicas de produção integravam o consumo de uma pequena minoria da população. “A instalação de setor industrial produtor de bens de consumo duráveis (DIII) e a expansão do departamento produtor de bens de capital (DI) viabilizaram, na segunda metade dos anos cinqüenta, a expansão do emprego”,

Os recursos econômicos, que permitiram a expansão industrial do país, foram captados junto ao setor primário-exportador, via confisco cambial e outras figuras tributárias, a alta geral e contínua do nível de preços contribui para a transferência de renda das camadas que as tinha fixa, para à de renda móvel, principalmente a indústria oligopolista. Esse comportamento a economia nacional manteve até 1964.

Os fatos descritos até agora aconteceram num cenário político, em que o emb
ate entre as classes sociais mostrava-se acirrado e ao mesmo tempo, tenso, culminando com o movimento militar de 64. As forças em luta objetivavam, cada uma delas, obter um alargamento de sua fatia de participação na apropriação do produto social. O resultado final foi a ruptura da estrutura de poder vigente até então, com o afastamento das forças populistas do poder.

As forças sociais que assumiram o leme do Estado Brasileiro, em 1964, promoveram uma série de reformas no seu setor: “A reorganização do mercado financeiro, as reformas fiscais, de 1965 e 1966, a criação do sistema financeiro de habitação, a nova Lei de remessa de lucros, os incentivos à exportação, a contenção dos salários e reconcentração da renda”. Esses dados refletem a intensidade que o Estado assume, na gerência da atividade econômica.

Nesta época, o aumento da produção agrícola deu-se mais em função da aplicação de novas técnicas do que pela incorporação de novas terras. Ou seja, pelo aumento de produtividade obtida numa mesma extensão territorial. Isso foi o resultado de políticas agrícolas que defendiam não só os interesses intrínsecos da agricultura, mas também, interesses acoplados a essa atividade, advindos da indústria produtora de bens de capital, insumos básicos etc., e ainda, do capitalismo financeiro. O processo produtivo é tido como o que dominava a economia agrária, superando os seus enclaves ainda não sob a dominação das relações capitalistas. “A esse processo técnico- econômico e sócio-político designamos de revolução agrária em curso no país”.

Alguns dados empíricos puderam comprovar a interdependência dos setores agrários e industriais, mostrando que “a dinâmica de acumulação de um setor tende a interferir na dinâmica e no estilo de crescimento de outro” 11. A indústria de tratores tem sua produção expandida. Em 1970, ela é 57% maior que a média do período 1962/69; em 1972, 222% maior e, em 1975,533% maior que a mesma média. De uma média de 9.000 unidades anu- ais para o período de 1962/69, cresce para um
nível de produção de 50.000 unidades anuais, a partir de 1975. “A frota estimada passa de 156 mil unidades, em 1970, a 400 mil unidades em 1978″.

Por sua vez, houve também um acentuado aumento do uso de fertilizantes agrícolas. Em 1950/54, o consumo anual girava em toma de 100 mil toneladas. Nos anos 60/62 o consumo de fertilizantes elevou-se a 260 mil toneladas anuais. Entre 63 e 66, o consumo anual já atingia a marca de 285 mil toneladas anuais. O crescimento do uso de fertilizantes incrementou-se, ainda mais, nos anos seguintes, atingindo 2,7 milhões de toneladas no biênio 1976/1977.

Os instrumentos dinamizadores de crescimento de uso de insumos básico na agricultura foram os incentivos governamentais – facilidades creditícias, para aquisição de insumos modernos, e facilidades fiscais, para a ampliação ou instalação de parques fabris, produtores desses insumos.

O importe técnico atingindo pela economia nacional, nas últimas décadas, permitiu reivindicar da agricultura a resposta aos seguintes desafios: produzir alimentos, para o mercado interno; produzir grãos e outros produtos para exportação, e álcool, como energia alternativa ao petróleo o grande dilapidador de divisas do país.

Reclama-se essa performance da agricultura, tendo-se em vista o suporte técnico, financeiro, fiscal etc., que lhe é dado pelos outros setores da atividade nacional.

No entanto, o conjunto de solicitações feito ao setor agrícola não é harmonioso, porque os recursos produtivos são finitos e ao se privilegiar um segmento agrícola, só se poderá fazê-lo em detrimento dos demais. “A agricultura foi vista durante muito tempo – e ainda hoje é assim em certos círculos oficiais – como uma atividade em permanente expansão, alimentada, basicamente pela abundância de terras e de mão-de-obra. Sendo assim, não haveria limites ao crescimento da produção agrícola que não fossem aqueles ditados pelo mercado (volume da demanda e poder da compra dos consumidores) ou resultantes da intervenção desastrada do governo (.
..). Em linguagem técnica dizia-se que a oferta agrícola era fortemente elástica”.

Esse tipo de postura não é claramente difundida na política governa- mental, porém existe nas suas entrelinhas, vez que não foi criado nenhum instrumento que viabilizasse o alcance desses três objetivos, porém não há compatibilidade entre os objetivos reivindicados da agricultura brasileira, e a indisponibilidade dos recursos requeridos para essa empreitada – os recursos existentes não têm a elasticidade necessária e suficiente.

O aumento da produção de alimentos exigirá uma mudança no comportamento dos setores agrícolas, atualmente voltados para a cultura de exportação e matéria-prima energética, absorvendo a quase totalidade dos re- cursos disponíveis – tratados, aqui, em sua forma mais ampla. 15 Além do mais, para que se atinja a sua finalidade maior, minimização da espiral inflacionária, faz-se necessária uma alteração no comportamento nos preços dos produtos alimentares, em relação aos demais. Nos anos 70, os produtos alimentares aumentaram seus preços 19 vezes; os demais produtos componentes do índice de custo de vida 13 vezes.

O sub-setor agrícola voltado para a produção de matéria-prima energética (alternativa aos derivados de petróleo), tem absorvido vultosos recursos, desde a fase de projeto ao curso de sua implementação. Tem-se constituído, também, no sub-setor que mais tem dilatado o módulo médio de cultivo da cultura que lhe é básica e fundamental, a cana-de-açúcar. A área média da propriedade destinada ao cultivo de cana-de-açúcar é de 6.000 ha., o que implica na concentração da propriedade fundiária, beneficiando, assim, as camadas mais abastadas dos produtores agrícolas. Outro aspecto negativo na cultura de cana-de-açúcar é a de redução do nível de emprego que provoca com o agravamento da questão da sazonalidade, como demonstra Homem de MeIo, no quadro a seguir:

Quadro VI – ESTIMATIVA DE ALTERAÇÃO DE MÃO-DE-OBRA NA AGRICULTURA DE SÃO PAULO, 1980 EM RELAÇÃO A 1976

No que se refere às culturas de exportação, estas sempre foram as privilegiadas entre os sub-setores agrícolas, em detrimento das culturas voltadas para o abastecimento interno. A soja poderia ser tomada como um exemplo: os seus incentivos e bom preço, fizeram com que a soja ocupasse área que antes era destinada ao cultivo de produtos alimentares, comercializados no país. De acordo com o Quadro VII (tomando o Rio Grande do Sul como exemplo), a soja foi responsável direta pela redução da área dedicada às demais atividades, com destaque para a criação de gado e os cultivos de milho e mandioca”.

Quadro VII – SOJA E CINCO CULTURAS DE ABASTECIMENTO INTERNO…

IV – CONCLUSÃO

N a elaboração do presente trabalho deparamo-nos com vários aspectos do desenvolvimento econômico brasileiro, particularmente aqueles ligados à agricultura. Pela própria natureza do estudo, pela sua abrangência e estrutura metodológica – impostas pelos autores – dirigimos, deliberadarnente, a nossa ação num plano teórico e, mesmo quando descíamos à realidade factual, era em alto nível de abstração.

Para nós a base técnica da agricultura brasileira foi substancialmente alterada no decorrer do século XX, principalmente, nas décadas de sessenta e setenta. Entendemos também que, o grande agente promotor dessas mudanças foi o Estado Brasileiro, com as suas instituições aparelhadas para regular o fluxo de recursos interdepartarnentais da economia, reproduzindo o capital social total.

Não obstante esse aumento da produtividade agrícola, não será possível o atendimento do famoso desafio lançado à agricultura brasi
leira: suprir o mercado interno de alimentos, produzir culturas exportáveis no montante que permita equilibrar a balança de pagamento e, por último, a produção de matéria-prima energética, alternativa ao petróleo, principal produto da nossa pauta de importação. Procuramos demonstrar a existência de conflito no próprio seio do desafio: há inviabilidade na simultaneidade dos três segmentos.

Entendemos que hoje existe uma interação agroindustrial. A reprodução do capital social de um setor está imbricado ao desempenho do outro setor. A política agrícola em defesa de um setor, terá sempre o empenho do setor que o complementa – a agricultura intera-se na indústria como fornecedora de matéria-prima e consumidora de bens de produção: maquinaria, implementos e insumos básicos.

Queremos finalizar ressaltando o fato de não abordarmos a abrangência do desenvolvimento verificado na economia brasileira, quanto aos aspectos do seu fruto social. O tema em si requereria um trabalho com foco direcionado.

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