O COMPLEEXO DE PETERPAN DE LULA

Tomislav R. Femenick
O Globo. Rio de Jeneiro, 14 abr. 2010.
O Mossoroense. Mossoró, 15 abr. 2010.O Jornal de Hoje. Natal, 19 abr. 2010.
Jornal Metropolitano. Parnamirim, 30 abr. 2010.

Se algum dia soube o nome dele, não me lembro. Era conhecido por todos nós, seus colegas de mestrado na PUC de São Paulo, simplesmente como Peter Pan. Como o personagem do conto de fadas (e depois do desenho animado e filme), era um adulto que se recusava a ser totalmente adulto. Na época eu era um jovem de 40 e poucos anos e ele há muito já ultrapassara os 70. O Peter se vestia como um adolescente, participava de todas as nossas farras, não se preocupava com as provas nem com os trabalhos do mestrado, entrava em todas as polêmicas e encarava todas as discussões.

Entretanto o meu colega não tinha aquilo que os psicólogos chamam de “complexo de Peter Pan”; era um profissional respeitável, um chefe de família exemplar e um aluno de excelentes notas. Certa vez, em uma mesa de chopes, perguntado sobre a contradição entre a sua aparência despreocupada e o seu comportamento responsável, ele disse-nos que o chato de alguns velhos é que eles deixam de acreditar nos sonhos para simplesmente encarar a realidade. “A realidade sem sonho – afirmou – seria uma bruta de uma ressaca, da mesma forma que os sonhos sem realidade seriam um baita de um porre – mas não há porre sem ressaca. O certo é beber pouco para que a ressaca seja pequena e suportável”. Convenhamos, foi um “rasgo filosófico” de mesa de bar, mas não deixou de ter uma tonelada de verdade.

Lembrei-me do meu colega ao ler as notícias do comportamento recente do nosso presidente. Lula parece que foi sim contaminado pelo “complexo de Peter Pan”, pois aparenta viver no mundo dos sonhos e que está se distanciando cada vez mais da realidade. Se não vejamos: o PAC1 está empacado e a maioria dos projetos nem saiu do papel e ele já lançou, como todo espalhafato possível e imaginável, o PAC2. Quando o presidente Obama o chamou de “o Cara”, pensou que poderia defender a ditadura disfarçava do venezuelano Chaves, a ditadura escrachada dos irmãos Castros em Cuba e a política atômica do presidente iraniano, tudo isso sem que nada lhe acontecesse. Imaginou que sendo “o cara” seria respeitado pelo mesmo Chaves e pelos presidentes Evo Morales, da Bolívia, e Rafael Correa, do Equador. Lêdo engano. Para eles, Lula é apenas massa de manobra.

Os devaneios peterpanescos do nosso presidente têm vôos mais altos. Acha que o artigo 5º da nossa Constituição é uma peça de ficção. Onde está escrito que “todos são iguais perante a lei” ele inseriu a máxima lulista de que “Sarney não é um homem comum” e, portanto, estaria acima do de qualquer julgamento. Também acha que o artigo 85 de nossa Carta Magna, que estabelece como crimes de responsabilidade os atos do Presidente da República que atentem contra o livre exercício do Poder Judiciário, é letra morta. Multado duas vezes por desrespeitar a lei eleitoral, afirmou que os políticos não podem ficar submetidos às decisões dos juízes. O que Luiz Inácio Lula da Silva finge não saber é que todos nós, e o presidente da República também, não prestamos contas a nenhum juiz singular ou a nenhuma Corte do Judiciário, mas às Leis e ao corpo da Legislação do país. Enquanto formos uma democracia, ninguém está acima da Lei.

Há mais. Nas Repúblicas, o Estado e o Governo são entes distintos. Todavia o pensar do presidente vai em sentido contrario quando afirma, com todas as letras, que eleger Dilma é a coisa mais importante do seu governo e usa toda a força do Estado para realizar seu intento. No Estado Democrático de Direito há que haver o primado da lei e a unicidade do ordenamento jurídico, a igualdade formal dos cidadãos perante a lei, o reconhecimento e a proteção de direitos individuais, civis e políticos, uma segura divisão dos poderes, a distinção entre público e privado e a garantia da propriedade privada. Tudo isso parece ser letra morta para nosso líder.

A grande pergunta que se faz é esta: Para onde Lula quer nos levar? Se nos baseamos no seu Decreto nº 7.037, de 21.11.2009, o famigerado Plano Nacional de Direitos Humanos 3, a um Brasil com a imprensa e o ensino sem liberdade e sob controle, sem garantia da propriedade privada no campo e ao ressurgimento da luta fratricida e ideológica entre nós, como acontecia durante o regime militar.

Cuidado Presidente, a ressaca pode ser bem pior que as delicias dos sonhos nascidos do porre – porre aqui somente como expressão literária.