O CICLO DO ALGODÃO NO SERIDO – II

Tomislav R. Femenick
Tribuna do Norte. Natal, 13 jun. 2010.

Iniciado no final do século XIX, o ciclo econômico algodoeiro do Seridó se sobrepôs à pecuária bovina, atividade que praticamente deu origem ao povoamento colonial da região, e se transformou numa das mais fortes fontes formadoras da renda do Estado, muito embora essa fosse uma agricultura de sequeiro, praticada em terreno árido e sem irrigação. Contribui para essa acessão o fato da região ser a origem de um dos mais procurados tipos de fibra de algodão, o algodão mocó ou simplesmente o “algodão do Seridó”.

Já nos anos de 1920, o Seridó passou a produzir mais de 40% de todo algodão exportado pelo Estado. Os altos lucros atraíram quase todo o potencial de trabalho, capital e tecnologia disponíveis na região, que foram empregados na produção, beneficiamento e comercialização daquilo que era um verdadeiro ouro branco. Em função disso, “até a década de 1970, a maior parte da população do Seridó estava concentrada no meio rural”. Essa situação se transplantava para o Estado: “A cultura do algodão no Rio Grande do Norte foi, até o final da década de 70, a principal fonte geradora de emprego e renda, tendo a agricultura participado em percentuais médios, no período 1962-71, com 45% da renda estadual; isoladamente, o algodão contribuiu com 32%” (SPF-RN, 2000).

A partir daí, sucederam-se vários fatores que, juntos, provocaram a debacle das atividades ligadas à economia algodoeira no país e no Estado, porém acentuadamente no Seridó: o aparecimento das fibras sintéticas, a ocorrência de uma sequência de períodos de seca, as altas taxas de juros e a correção monetária incidentes nos contratos de empréstimo rural e, finalmente, o aparecimento a praga do bicudo. O bicudo é frequentemente evocado como o pivô da crise, entretanto ele foi tão somente mais dos problemas que se somaram e ocasionaram essa história.

Nas duas últimas décadas do século passado, o cultivo de “pés de algodão” mocó, típico e natural da região, sofreu um grande declínio e foi quase que totalmente abandonado pelos produtores locais. No ano de 2000, o cultivo de algodão arbóreo no Rio Grande do Norte ocupara apenas 9.642 hectares, dos quais 8.852 na Região do Seridó. Se compararmos com os anos 1960, quando a cotonicultura se espalhava por 500.000 hectares, ver-se o tamanho de seu encolhimento. Isso resultou na transformação das terras, antes ocupadas por algodoais, em pastagem para o gado e, depois, em capoeiras e “mata rala”, num processo que tem facilitado a desertificação da região do Seridó. O efeito social, paralelo, foi a urbanização da população; a migração de grande parcela de população da zona rural para as cidades.

A consequência foi que a agricultura da região, hoje preponderantemente voltada para a produção de milho e feijão, ficou restrita a pequenos sítios em áreas de vazante (terreno temporariamente alagado pelas enchentes dos rios) e tabuleiro (terreno pouco elevado, arenoso e de vegetação rasteira). A cotonicultura do Seridó, outrora exuberante, foi desestruturada, quase que eliminada, provocando à bancarrota de todos os outros setores envolvidos na cadeia produtiva do algodão: os comerciantes intermediários, maquinistas, beneficiadores e indústria de óleo.

Nos primeiros anos deste novo século os governos federal e estadual, bem como algumas outras entidades, estão empenhados em recuperar a agricultura algodoeira, fazendo a distribuição de sementes (herbáceas, e não mocó, no caso arbóreo) e incentivando o preparo do solo com o uso de tratores.

Também tem sido política de governo incentivar o cultivo no Seridó do algodão arbóreo orgânico – cultivado sem agrotóxicos ou adubos químicos, prática que mantém e recupera a fertilidade do solo. A boa adaptabilidade e capacidade produtiva dessa variedade algodoeira são garantidas pelas condições naturais da região, que conta com temperatura alta, baixos índices de umidade relativa do ar e, ainda, com alta taxa luminosidade, fatores que reduzem substancialmente os problemas de pragas e doenças desse tipo de plantio algodoeiro.

Nessa mesma linha de atuação, em março passado, o SENAI promoveu o seminário “Cultivos Alternativos do Algodão para Geração de Renda Agrícola”, evento integrante do Arranjo Produtivo Local do Algodão e do projeto Implantação de Tecnologias na Cotonicultura no Semi-Árido, com o objetivo de reunir pesquisadores e produtores de algodão para trocar experiências e traçar novas estratégias de negócios.

A opção do algodão orgânico é válida para o Seridó, onde se espera plantar 6.000 hectares até este ano, porém não reuni as condições necessárias para recuperar a grandeza que o agronegócio algodoeiro já representou para a região.