O Centenário do Gênio

Tomislav R. Femenick
Cazeta do Oeste. Mossoró, 23 dez. 207.
O Jornal de Hoje. Natal, 24 dez. 2007.

Acima uma das mais conhecidas obras de Orçar Niemeyer, o Palácio da Justiça, em Brasília

Se não me engano, referindo-se a aceitação geral que se propagava que o governo da ditadura militar tinha, Nelson Rodrigues criou uma das suas mais famosas frases: “toda unanimidade é burra”. Frasista incomparável, ele sabia compor frases de efeito como essa que hoje em dia é repetida constantemente, em qualquer contexto, em qualquer situação. Aceita a premissa contida na alocução, essa nos leva a um fato constrangedor. A repetição constante e o fato de não haver contestação à essa afirmação nos faz cair em um paradoxo: se todo mundo aceita o fato de que “toda unanimidade é burra”, então está criada uma unanimidade e, consequentemente, uma tremenda burrice e a confirmação de que toda a unanimidade é burra mesmo.

E por que hoje estou falando em unanimidade? Por causa do centenário de uma das figuras mais importantes da história recente do nosso país e que é – quase – uma unanimidade nacional. Claro que estou falando dos cem anos de nascimento de Oscar Niemeyer, o maior de todos os arquitetos brasileiros, o homem que ousou sonhar com concreto armado. Não com o concreto pesado e bruto. O seu tem uma leveza igual ao do seu sonho, que é moldado com uma grande liberdade plástica, onde as ondas são a tônica e as retas apenas complementos que têm por fim realçar as curvas. Visto por esse prisma, esse Oscar é muito mais que um simples profissional que projeta ou idealiza obras de engenharia, ele fantasia seus projetos, caprichando na imaginação, no devaneio.

A trajetória ousada de Niemeyer teve um mecenas na pessoa de Juscelino Kubitschek – fato hoje quase que esquecido. Quando prefeito de Belo Horizonte, Juscelino o contratou para projetar o conjunto da Pampulha, composto do cassino, restaurante, clube náutico e da igreja. Essa, dedicada a de São Francisco de Assis, é um marco da arquitetura moderna; brasileira e do mundo. Nela as curvas se contrapõem aos ângulos retos do jovem Oscar. Os painéis de Portinari e os jardins de Burle Marx complementam essa verdadeira obra-prima, criada por três grandes gênios nacionais.

Depois, quando presidente, Kubitschek levou Oscar Niemeyer a projetar a nova capital da República, com total liberdade de criação. Brasília é uma cidade para se ver. O próprio arquiteto diz: “De Pampulha a Brasília eu segui o mesmo caminho, preocupado com a forma nova, com a invenção arquitetural. Fazer um projeto que não representasse nada de novo, uma repetição do que já existia, não me interessa”.

Entretanto, parece que somente para não haja unanimidade, também há criticas ao arquiteto Oscar Niemeyer. Porém essas críticas são, via de regra, pouco “críticas”, pois ficam focadas na periferia da obra do mestre. Falam da pouca funcionalidade de sua arquitetura e do caráter essencialmente escultórico de seus projetos; que suas obras são sempre contratadas pelos poder público, mesmo assim sem atender às exigências impostas pela lei das licitações. São coisas pequenas se comparadas, por exemplo, à sinuosidade e à beleza escultural das rampas do Prédio da Bienal (no Parque do Ibirapuera) e do Edifício Copam, na capital paulista.

Todavia, há aquelas que são mais ou menos pertinentes: o conjunto do Parlatino-Parlamento Latino-Americano, também em São Paulo, peca pela aridez, pelo distanciamento entre a obra e as pessoas. Na sua praça não há lugar para descanso e muito menos devaneios de alma, estado de espírito de muito agrado do arquiteto. O interior do Palácio da Alvorada, residência presidencial oficial em Brasília, dizem que é um espaço do descompasso, onde falta ordem e sobra desarmonia, tornando-o quase que inabitável. Não é à-toa que todos os presidentes militares e mais Sarney, Collor, Itamar, Fernando Henrique (numa parte do governo), preferiram residir em outro lugar.

Um outro ponto em que não há unanimidade com relação a Oscar Niemeyer é com relação à sua conhecida posição de comunista de carteirinha, desde há muito tempo. Discordo mas defendo o seu direito de ser comunista; mesmo tento 100 anos de idade, tempo suficiente para ter refletido sobre os erros do “socialismo real” e feito autocrítica, e mesmo sendo o maior arquiteto brasileiro e um dos maiores do mundo.

A “FOME” DO BISPO

D. Luiz Flávio Cappio, bispo de Barra (BA), fez greve de fome contra a transposição das águas do Rio São Francisco para uma das regiões mais secas do Nordeste. O bispo tem todo o direito de ser contra qualquer coisa, porém não o de chantagear quem quer que seja, muito menos a Presidência da República. Essa sua greve deve ser analisada sob alguns aspectos. Primeiro eticamente é uma chantagem e, como todo chantagista, ele está se tornando um infrator da Lei. No caso concreto de Sua Eminência ainda tem o agravante de não cair bem uma figura da alta hierarquia católica fazer chantagem. Depois tem-se que analisá-la pelo lado religioso. Se é para valer, em tese sua grave poderá levá-lo à morte, o que seria suicídio e o suicídio vai de encontro aos preceitos do catolicismo. Antigamente aos suicidas até era negado o direito de serem enterrados no “campo santo”; nos cemitérios administrados pela igreja.

Se quer chamar a atenção, por que D. Cappio não pendura uma melancia no pescoço?

ÁGUA QUE SOBRA

Já que estamos falando de água para o semi-árido, o que está faltando para que as águas da Barragem de Santa Cruz sejam utilizadas no desenvolvimento econômico da região oeste? Concluído em 2002 e completamente cheio em 2004, o reservatório tem sido apenas isso mesmo um lugar de represamento das águas da bacia do rio Mossoró. Os projetos de irrigação e de urbanização continuam sendo apenas isso mesmo: projetos. Projetos que dormem esplendidamente escondidos em alguma gaveta de alguma repartição pública.

Enquanto isso, estamos esperando pelo milagre do São Francisco, pelas águas do velho Chico.

REVER MOSSORÓ

Nos anos sessenta eu ainda era funcionário do Banco do Nordeste, quando veio trabalhar na agência de Mossoró um rapaz chamado Rui Santos Silva. Hoje Rui é advogado famoso, exercendo a Advogado Geral do governo e meu companheiro do Rotary Natal Sul. Estamos programando passar alguns dias em Mossoró para rever a cidade e, principalmente, tomar alguns whiskys com amigos daquela época. Rui e eu fazemos parte daquela confraria dos que não acreditam nos homens que não bebem e nem nos homens que não sabem ser comedidos, quando bebem.

CRUZEIRO DO SUL

Sabem quem foi agraciado pelo governo brasileiro com a nossa maior honraria, a Ordem do Cruzeiro do Sul? Evo Morales. Ele mesmo, o homem que expropriou os bens da Petrobrás na Bolívia, ocupando-os militarmente. Agora Lula o agraciou com o Grande Colar da Ordem do Cruzeiro do Sul, a mais importante honraria brasileira. Dá para acreditar?