O CAUBÓI TRAPALHÃO

Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje. Natal, 17 mar. 2008.
O Mossoroense. Mossoró, 21 mar. 2008.
Metropolitano. Parnamirim, 21 mar. 2008.

Nós, historiadores e economistas, de vez em quando, somos mordidos pela mosca azul, um mosquito deveras singular, original, estranho e excêntrico. Quando isso acontece, entramos em um estado quase febril de tentação e aspiramos delinear o futuro, baseados em dados que, nem sempre, nos dão sustentação para isso fazer. Eu tento escapar desse inseto o mais que posso. Uso fumegador (daqueles que a prefeitura usa para matar o mosquito da dengue), aplico inseticida à minha volta e, no desespero, uso até o antiquado mosquiteiro, aquele cortinado do tempo de nossos avós. Adivinhar, contar o porvir, fazer previsão, não faz o meu gênero.

Entretanto, vez por outra sou contaminado pelo vírus transmitido pela mosca azul e me atrevo a fazer incursão pelos campos que é próprio dos magos, astrólogos e futurólogos. Hoje é um desses dias. O famigerado inseto conseguiu me ferroar e eis que estou aqui na qualidade de presciente, querendo saber com antecipação o que vai acontecer, pronto para fazer uma previsão sobre o futuro da historia. A minha tese é que, no futuro, a historiografia classificará George Walker Bush, o atual presidente ianque, como um simplório caubói trapalhão. Caubói, por causa de sua “educação” texana, seu jeito rude de ser e de tratar as outras pessoas e mesmo os outros países e, também, por querer resolver os problemas internos e externos de sua nação na base do bangue-bangue. Trapalhão, porque não consegue acertar nada, até quando as condições lhe estão todas favoráveis.

Vejamos alguns exemplos. Com a morte da finada União Soviética, os Estados Unidos herdou uma situação singular que lhe dava a posição de líder inconteste do mundo, tanto no campo militar como no político e no econômico. Por sua vez, o atentado terrorista de 11 de setembro de 2001 contra as Torres Gêmeas do World Trade Center, de Nova Iorque, e ao Pentágono, em Washington, os colocou na posição de vítima e, consequentemente, alvo da simpatia de todo o mundo civilizado. Pois bem, o que fez o senhor W. Bush? Tanto que fez, tantas trapalhadas ele arrumou que, hoje, os Estados Unidos são contestados por todos e aparecem como o vilão maior do mundo, civilizado ou não. O fato é que, no campo político os ianques estão perdendo o bonde da história.

O mesmo está acontecendo no terreno militar. Muito embora nenhuma nação tenha algo, mesmo que parecido, com o arsenal bélico norte-americano, a sua “força” militar está se esvaziando pelo insucesso no Iraque, pelo ressurgimento dos talibans no Afeganistão e no Paquistão e pelo fato de Osama bin Laden ainda continuar soltou, livre e faceiro, liderando uma legião de fanáticos. Depois temos o comportamento antiético de alguns militares ianques no Iraque, a prisão medieval (sem justiça e com torturas) na base naval de Guantánamo e o reconhecimento do direito da CIA de torturar terroristas presos. Meu Deus do céu. Como os Estados Unidos querem ser os paladinos da democracia e dos direitos humanos se assim agem? Somente tendo um presidente da qualidade do senhor George W. Bush.

Porém sua maior trabalhada está no campo econômico. Não dá para entender como, em um período de grande expansão dos negócios globais, a maior economia mundial esteja ameaçada de entrar em colapso. Só há uma explicação: incúria, desídia, desleixo, negligência ou inação de um governo incapaz, fraco, inerte e despreparado. Bil Clinton, o antecessor de Bush, deixou a economia do país arrumada O Tesouro tinha um superávit de US$ 236 bilhões e agora registra déficit – o governo gasta mais do que arrecada com os tributos. Para completar, cresce a diferença entre importação e exportação, gerando um déficit comercial alarmante, que beira a 6% e continua a aumentar – uma situação que mereceu uma reprimenda do Fundo Monetário Internacional, mais habituado a censurar países em desenvolvimento. Como se fosse pouco, no governo Bush foi gerado o caso da hipotecas podres, que gerou a desconfiança nos bancos americanos, que gerou a crise que se anuncia em cenário mundial – que tomara não aconteça.