O CAPITALISMO E SUAS CRISES

Tomislav R. Femenick
Tribuna do Norte. Natal, 01 jul. 2007.
Gazeta do Oeste. Mossoró, 01 jul. 2007.

Um dos maiores pesquisadores sobre o capitalismo foi o soviético Nikolai Dmitrievich Kondratiev, o pai da “teoria dos ciclos”. Como resultado dos seus estudos, ele chegou à “teoria dos ciclos da economia capitalista”, segundo a qual no modo de produção capitalista existiriam períodos com duas fases que se contrapõem. Na primeira delas, os preços industriais e das matérias-primas se valorizam, as taxas de desemprego se reduzem e há falta de mão-de-obra. Na fase seguinte, as matérias-primas sofrem queda de preços, as taxas de desemprego crescem e há aumento da disponibilidade de mão-de-obra, sendo que nesse último apareceriam novas formas de produção e de distribuição de riqueza. Obviamente suas conclusões não agradaram aos donos do poder soviético. Kondratiev foi considerado “reacionário” e deportado para a Sibéria, aonde veio a morrer na pobreza, faminto e exausto pelo trabalho forçado, como milhões de outros que ousaram enfrentar os desígnios do ditador Stalin.

Em 1929 a quebra da bolsa de Nova Iorque gerou uma crise que se espalhou por todo o mundo, atingindo, indistintamente, economias capitalistas e não capitalistas. O Rio Grande do Norte também foi duramente atingido, pois a atividade pólo de seu desenvolvimento de então, a cotonicultura, entrou em colapso. Se a safra 1929/1930 tinha atingido o recorde de 61.400 toneladas de algodão em caroço e 18.420 de algodão em pluma (beneficiado industrialmente), a correspondente ao período 1930/1931 decresceu, respectivamente para 38.583 e 11.575. Além da diminuição do volume da produção, por carência de compradores, houve, ainda, uma drástica redução do preço. Para conter o avanço e reverter a tendência de crise mundial, o economista inglês John Maynard Keynes preconizava uma forte intervenção do Estado na economia, pratica usada nos Estados Unidos, através da política aplicada pelo presidente Franklin D. Roosevelt (1882-1945) e intitulada New Deal. Essa política perdurou durante os anos 30 e a Segunda Guerra. Com isso, o velho liberalismo perdeu a sua força ideológica.

Terminada a Segunda Guerra, a economia mundial entrou em uma fase de recuperação, quando ocorreu uma nova onda de crescimento e do processo de globalização, chegando a seu apogeu nos anos 70. As eleições de Margareth Thatcher, na Inglaterra, em 1979, e de Ronald Reagan, nos Estados Unidos, um ano depois, foram marcos de afirmação de novas teorias, conhecidas, em seu conjunto, como neoliberalismo. Na prática, isso foi uma reação às crises causadas pelo progressivo declínio das taxas de crescimento econômico, sentido nos países mais desenvolvidos. Crise iniciada nos anos 70, amadurecida na década dos anos 80 e tornada particularmente grave na última década do século XX. Os níveis médios de desemprego na Europa, que eram de 1,5%, nos anos 60, subiram para mais de 11%, nos anos 90. O quadro era idêntico nos Estados Unidos e no resto do mundo, e se configurava como a principal expressão da crise econômica de então.

A recuperação capitalista se deu por força da globalização, que teve por marca a expansão das grandes corporações transnacionais, que passaram a exercer um papel cada vez mais decisivo na economia mundial. Há 15 anos, as 10 maiores empresas do mundo eram a Mitsubishi, Mitsui, Itochi, Sumitomo, General Motors, Marubeni, Ford, Exxon, Nissho e Shell. Juntas, naquele ano elas obtiveram um faturamento de 1,4 trilhões de dólares – valor equivalente à soma de tudo o que foi produzido (PIB), no mesmo período, no Brasil, México, Argentina, Chile, Colômbia, Peru, Uruguai, Venezuela e Nova Zelândia. Um relatório sobre as empresas transnacionais, elaborado pelas Nações Unidas na mesma época, estimou que elas controlavam um terço dos ativos do setor produtivo privado de tudo o planeta. O valor de negócios das transnacionais, fora dos países de origem, alcançava 5,5 trilhões de dólares. Elas se tornaram a maior força da economia mundial, maior do que o próprio comércio internacional na época – que teria movimento apenas 4 trilhões de dólares.

Outro fenômeno foi a globalização financeira, configurada pela movimentação de capitais internacionais nas bolsas de valores e de derivativos, inclusive de países do Terceiro Mundo. A presença desses investidores cria uma irresistível e perigosa tentação à especulação, tendente a provocar graves desequilíbrios no sistema financeiro internacional, como os acontecidos na década passada nos países asiáticos e no Brasil. O fluxo desses recursos (via investimentos diretos, aplicações nas bolsas e financiamentos) adquiriu volume e valores bem superiores ao fluxo de mercadorias e serviços entre os países do mundo. Ao mesmo tempo, verificou-se um sensível aumento da volatilidade deste tido de capital, que tem a capacidade de migrar, do dia para a noite, deixando atrás de si um rastro de pânico financeiro, como os que abalaram o México em dezembro de 1994, a Ásia em 1997, a Rússia e o Brasil 1998 e o Brasil, novamente, em princípios de 1999.

Com avanços e recuos, o processo de globalização hoje é visível e irreversível. Anda em marcha acelerada, impulsionada pela internacionalização do capital e facilitada pelo desenvolvimento da informática e das comunicações. Fusões e aquisições bilionárias entre grandes conglomerados internacionais têm sido uma das principais marcas do desenvolvimento da economia capitalista nos últimos anos, fato que estimula a integração dos mercados e a verticalização e mundialização da cadeia produtiva. Como outros fenômenos do capitalismo – a lei da oferta e da procura, por exemplo -, não adianta lutar contra a globalização. O que se deve fazer é lutar para discipliná-la, corrigir seus erros, conter seus efeitos nocivos às nações não ricas do planeta.