O BICUDO SÓ MATOU O DEFUNTO

Tomislav R. Femenick
Tribuna do Norte. Natal, 16 maio 2010

E comum, inclusive entre estudiosos do assunto, atribui-se ao bicudo (Anthononus grandis – inseto da ordem Coleóptera, a mesma dos vaga-lumes, joaninhas e gorgulhos) a causa da crise da cotonicultura do Nordeste e, por extensão do nosso Estado. O certo é que foi uma série de fatores – que se sucederam e se repetiram ao longo do tempo – que impactaram o setor, provocando uma verdadeira hecatombe na agricultura, no comércio e na indústria ligada ao cultivo e beneficiamento do algodão. O bicudo apenas foi mais um desses fatores; muito danoso, porém não o mais letal. Como diz o jargão popular, ele “apenas matou o defunto que já estava morto”.

É tido que o bicudo é originário da America Central, possivelmente do México. De lá se espalhou nas direções norte e sul. Em 1892 foi registrada ocorrência de sua presença no Texas, nos Estados Unidos. A partir de então, alcançou outros países da America Central. No final dos anos 70 do século passado chegou ao Brasil, onde encontrou condições ambientais favoráveis à sua proliferação. No início da década seguinte, se espalhou por todas as regiões brasileiras cultoras do algodão. Na América do Norte a cultura do algodão convive com o inseto, combatendo-o com relativo êxito. Entretanto não há como transplantar essa experiência para o Brasil – especialmente para o Nordeste Brasileiro – por causa das nossas características de plantio; enquanto lá a cotonicultura ocupa vastas terras continuas, em fazendas com milhares de hectares, aqui (embora tenhamos algumas plantações nessas condições) o predominante são pequenas e médias propriedades, ocupando espaços que se alternam com outras culturas.

Essa peculiaridade dificulta a ação de combate à praga, que deve ser empreendida com pulverização das plantações e utilizando agrotóxicos altamente danosos a outras espécies animais e vegetais. Dependendo da região e das condições locais, o custo anual do produtor no combate ao bicudo varia entre R$ 200,00 e R$ 300,00 por hectare. Convenhamos, é uma senhora praga e um custo respeitável, que inviabiliza a continuidade de muitos produtores no setor. Entretanto, esse problema apenas evidenciar outros, esses sim a quase “causa mortis” da nossa cultura algodoeira: o fator econômico, acoplado à baixa produtividade.

A escassez de recursos, as altas taxas de juros para financiamento da produção e beneficiamento da pluma e do caroço foram problemas levantados há quase cinqüenta anos nos “Encontros de Desenvolvimento do Rio Grande do Norte”, organizados pela SUDENE em Mossoró, Caicó e Pau dos Ferros. Pelo que ali foi dito, o montante das linhas de créditos, oferecidas pelo Banco do Brasil e Banco do Nordeste aos agricultores e maquinistas, sempre foram insuficientes, fato que ensejou o aparecimento dos atravessadores. Esses agentes foram importantes para o sistema, porém agregavam custos desnecessários.

Ainda no campo econômico, outro aspecto encarecia e ainda encarece a agricultura do algodão potiguar (e em quase todas as áreas agrícolas nordestinas dedicadas a essa cultura): a quase ausência de economia de escala. A nossa cotonicultura está estruturada em unidades produtoras familiares de pequenas dimensões, além do mais em espaços não contínuos. Cada uma dessas unidades cuida do seu preparo da terra, do seu plantio, da sua aplicação de defensivos, da sua colheita etc., numa cadeia de custos que se multiplicam. Por outro lado, a pequena dimensão das propriedades dificulta a mecanização dos processos, geralmente realizada com máquinas caras, até quando alugadas.

O resultado era e é que tínhamos e temos baixo rendimento por hectare plantado, em comparação com outras regiões do país e outros países produtores, o que significou perda do poder de concorrência. O problema maior é que esse fato se perpetua. Segundo a Conab, na safra 2006/2007 o Rio Grande do Norte cultivou 12.700 hectares com algodão, colhendo 2.900 toneladas de algodão em pluma, com uma produtividade de 228 quilos por hectare plantado. Na Bahia a produtividade por hectare foi de 1.509 quilos. Se comparada com a produtividade brasileira, se ver o tamanho do problema para a cotonicultura potiguar: na safra anterior foi de 3.209 quilos por hectares, segundo o IBGE.

Agora, quando se pensa revitalizar a cotonicultura potiguar, esses elementos não podem se desprezados. No conjunto de medidas que visam criar novas condições para essa importante fonte de geração de renda para o agronegócio do Estado, há que se pensar na eficiência técnica nas estruturas do processo econômico; na natureza e na dimensão das unidades produtoras, nas fontes de financiamento; nas tecnologias de plantio, irrigação e colheita; no combate às pragas e o uso racional dos defensivos; na cadeia de comercialização etc. Atenção especial deve ser dada aos assentamentos da Reforma Agrária, onde pequenas propriedades contínuas se adéquam perfeitamente à produção em escala, desde que um número razoável de glebas se dedique a uma mesma cultura.