Notícias de um Tempo: 1 – A INTRA-ESTRUTURA

Tomislav R. Femenick
 Obra inédita - Trechos do Primeiro volume de um total de cinco.

 

Esta obra reúne matérias jornalísticas de minha autoria do, publicadas em vários órgãos de imprensa do país, porém principalmente no Diário de Natal, Diário de Pernambuco, O Povo. Há reportagens do Correio Braziliense, Jornal do Brasil, O Globo, Veja, Banas etc. Todas essas matérias divulgaram fatos de Mossoró, em uma das suas mais profícua e importante fase: os anos 60 e início dos anos 70.

Esse foi o “tempo” em que a cidade fincou base para o seu desenvolvimento, conseguindo água e energia elétrica, criando a ESAM e a Universidade, construindo seus primeiros núcleos habitacionais populares e ampliando os serviços públicos de educação, saúde etc. Outros fatores importantes se juntaram a esses: a descoberta de petróleo, a mecanização das salinas e o início da construção do porto salineiro, a agropecuária seletiva, a ampliação do sistema bancário, a dinamização da indústria local, a chegada da fábrica de cimento, a efetiva implantação do Distrito Industrial, os primeiros planejamento para a indústria do turismo etc.

Em outros campos também havia dinamismo: já tínhamos o eterno Vingt-un lançava livros, João Batista Cascudo Rodrigues implantava seus projetos Rita, Cimosa e ICOP, o saudoso Lauro Monte Filho e o seu TEAM-Teatro Escola Amador de Mossoró apresentava peças teatrais, o também saudoso Manuel Leonardo construía e inaugurava o seu Nogueirão,… e a minha Snob, “o início do refinamento da vida noturna no limiar da caatinga e da praia”, como disse o meu amigo Paulo Macedo.

Mas quem mais se destaca nesse cenário era a figura de Raimundo Suares de Souza, o prefeito que “maestrou” essa orquestra com firmeza e finura. Raimundo foi um empreendedor, mas acima de tudo um poeta. Só os poetas é que vêem os sofrimentos dos sem água, sem luz, sem alfabeto, sem emprego. E o nosso querido amigo prefeito deu água, Liz, ensino e empregos para Mossoró.

Esta obra compreende cinco volumes, cada um deles com aproximadamente quatrocentas páginas. Os jornais Gazeta do Oeste e O Mossoroense já publicaram matérias sobre seus “originais”. A Prefeitura Municipal, através de sua Fundação Municipal de Cultura, a Universidade Estadual do Rio Grande do Norte e a Escola e a Escola Superior de Agricultura e Mossoró se comprometeram com a sua publicação… e depois não sei o que houve. Mas isso foi em janeiro do ano 2000. De lá para cá já devem ter outros planos, estes muito mais importantes.

Antecedendo a sua impressão, resolvi divulgar trechos de algumas reportagens, mesmo sem correção de forma ou conteúdo.

Natal, agosto de 2003.
Tomislav R. Femenick

CONTRADIÇÕES DO DESENVOLVIMENTO REGIONAL
Raimundo Soares de Souza, prefeito de Mossoró

O que sempre se temeu, afinal acontece. Aí está um Nordeste cada vez mais pobre, ou pelo menos com crescimento hipertrófico, ao lado de outro privilegiado que vem absorvendo, quase que totalmente, os incentivos fiscais da Sudene (…).

Particularizando o caso do Rio Grande do Norte, a injustiça é tanto mais clamorosa, envolvendo, porém, outras responsabilidades, não mais omissivas. No setor, por exemplo, de energia, cuidou-se com todo empenho de executar um plano de eletrificação que, quase deliberadamente, deixou à parte a zona mais rica do Estado, compreendida na já consolidada microrregião de Mossoró, classificada como pólo de desenvolvimento pela própria Sudene, pelo Serviço Geográfico do Exército e pelo Ministério do Planejamento, por suas notórias influências e irradiações numa vasta área que vai desde o estuário do rio Assu, em Macau, até a Paraíba e baixo Jaguaribe, com o planalto intervalar do Apodi (…).

Na verdade, muito temos a oferecer ao Nordeste e ao Brasil. Basta que se considere que, das cinco matérias primas básicas ao processo de desenvolvimento industrial, temos o sal, o calcário e, provavelmente, o petróleo que, há vários meses forra em plena cidade aguardando uma definição, em termos comerciais, da Petrobrás que estuda o assunto com o maior interesse. O fato revela-se como sinal altamente promissor da presença de óleo em nossa bacia sedimentar. Temos, além disto, uma reserva inesgotável de gipsita, aguardando uma unidade industrial produtora de ácido sulfúrico, deixando o cimento “Portland” como subproduto. Toda uma linha de produção industrial da mais nobre aguarda os incentivos do Poder Público para que se transforme nossa abundante matéria prima em riqueza para o país (…).

Temos absoluta confiança no futuro, por acreditar que, conforme já manifestou o atual Superintendente da Sudene, homem equilibrado, justo e patriota, uma reformulação dos antigos critérios do órgão possa eliminar as negativas contradições de nosso desenvolvimento. – Diário de Pernambuco – 23.06.1968

ÁGUA

Mossoró e a Batalha da água – I
FALTAM QUALIDADE E QUANTIDADE NA ÁGUA FORNECIDA AOS MOSSOROENSES

Água é o maior problema de Mossoró. Com 80.000 habitantes na sede do Município, a principal cidade do interior potiguar vê-se a braços com um grande problema: a falta do “precioso líquido”. Enquanto isso, cresce a demanda ao produto, o que torna a sua escassez ainda maior. O progresso da cidade, o aumento constante do seu perfil demográfico e a industrialização cada vez maior exigem água; pedem cada vez mais água.

CONDIÇÕES ATUAIS – O Serviço de Água de Mossoró, do Departamento Estadual de Saneamento, é o principal fornecedor do líquido à população e à indústria local. Não obstante, está capacitado para apenas 1.000 ligações quando existem atualmente 1.560 (100 desligadas temporariamente), o que provoca um racionamento em dias alternados e um fornecimento precário. Mesmo trabalhando 24 horas diariamente, as instalações da estação de tratamento, a usina matriz, a rede de recalque somente podem fornecer 2.800 metros cúbicos por dia.

A ORIGEM – Nos períodos em que o rio Mossoró permanece corrente, a água para abastecimento da cidade é captada diretamente dele, sendo que quando o rio seca, o líquido é extraído de 11 poços tubulares, insuficientes para atendem à demanda da cidade, pois que sua capacidade máxima de evasão é de apenas 1.000 cúbicos, quando o fornecimento, mesmo em condições precária, deveria ser de 2.800.

Em 1958 foram iniciadas as perfurações de 6 novos poços para o Serviço de Água de Mossoró, não obstante estes ainda não foram concluídos por falta de recursos, embora o material necessário já exista em poder do Serviço, faltando apenas dinheiro para a mão-de-obra. Caso este ano a precipitação pluviométrica nas nascentes do rio Mossoró não lhe forneça condições de cheia suficiente até o próximo inverno, o abastecimento de água entrará em colapso, fornecendo água apenas de três em três dias.

A QUALIDADE – Se há problema quanto a quantidade, também o há quanto à qualidade. O tratamento que ela recebe é muito simples e rudimentar: melhorada quanto à pureza, permanece pesada e com sabor desagradável. As instalações (técnicas) do Serviço de Água de Mossoró estão capacitadas apenas para adição de cloreto de cálcio e sulfato de alumínio à água bambeada do rio ou dos poços, passando-a, depois, por um processo de filtragem simples.

O QUE SE BEBE – Além de escassa e cara (mais cara do que a de Natal e já se fala em novo aumento), a água fornecida pelo Serviço de Água de Mossoró não se presta ao consumo humano.. Ela só apresenta condições para uso de outros tipo. A água que se bebe em Mossoró é de cisterna. Porém, apesar de contar com elevado número de cisternas, estas não podem atender a demanda por água potável de seus proprietários nos períodos de estiagem mais longa, até nos anos não tipicamente caracterizados de seca. Além do mais, não se pode pensar em cisternas em ternos de consumo para toda a cidade – seria impraticável, pelo lado técnico e econômico; não recomendável, pela lado da saúde pública.

POÇOS OU RESERVATÓRIOS – Há longos anos os políticos falam na construção de um grande reservatório, capacitado para perenizar o rio Mossoró e fornecer água de qualidade e em quantidade suficiente à população. Seria o Açude de Santa Cruz. Agora apresenta-se mais um item a este grande problema: a perenização prejudicaria o parque salineiro dos Municípios de Mossoró, Grossos e Areia Branca – com a permanência de água doce no rio Mossoró provocaria a sua dessalinização.

A solução prevista pelos técnicos da Prefeitura Municipal de Mossoró e por organismos de âmbito estadual e federal, aponta a perfuração de poços profundos, que atinjam a camada do arenito, onde existiria um lençol freático de grandes proporções. Algumas perfurações (exploratórias) já estão sendo feitas (…).

POPULAÇÃO POBRE – Se a cidade sofre, se todos sofrem com a falta e com a péssima qualidade da água fornecida em Mossoró, é a população pobre a que mais sofre. Nos bairros da periferia da cidade nem os canos do Departamento Estadual de Saneamento chegam. Para os pobres existem apenas 18 chafarizes (muitos deles construídos na atual administração municipal), algumas cacimbas públicas e muitas particulares, serviços de bolandeiras e carroças-pipas (estas últimas transportando água do rio, sem tratamento e altamente prejudicial à saúde), que substituem o serviço de abastecimento domiciliar. Não é outro o motivo do alto índice de doenças gastrointestinal incidente nessa parcela da população da cidade. – Diário de Natal – 01.03.1997

Mossoró e a Batalha da água – II
SERVI
ÇO DE ÁGUA ATENDE SÓ A DEZ POR CENTO DA POPULAÇÃO DA CIDADE

– “Água e esgotos sanitários são os mais agudos e urgentes problemas de Mossoró, cidade que, contando com oitenta mil habitantes, dispõe de um serviço de abastecimento que atende, há mais de sete anos, a apenas 10% da população e um sistema de fossas ultrapassado e anti-higiênico, que é um aspecto negativo do atual desenvolvimento do nosso Município” – declarou o prefeito Raimundo Soares à reportagem associada.

Continuou: “Tratando-se de um problema cuja solução está fora da capacidade financeira do Município, encaminhamos, no primeiro mês de governo, à SUDENE o exame do assunto, logrando sensibilizar o então superintendente João Gonçalves de Souza, a Divisão de Saneamento Básico e a CAENE-Cia. de Água e Esgoto do Nordeste, com a qual firmamos convênio. Em decorrência desse trabalho, obtivemos a inclusão dos serviços de ampliação da rede de abastecimento de água e de implantação de esgotos em Mossoró no plano prioritário de obras de saneamento do governo federal, estabelecido em decreto. Já no II Plano Diretor da SUDENE foram destinados recursos para esse fim, reproduzidos no III Plano Diretor, além de verbas consignadas no Orçamento da União”.

OS RECURSOS – Perguntado sobre o montante desses recursos, declarou-nos o prefeito mossoroense: – “Somavam cerca de oitocentos milhões de cruzeiros velhos, que evidentemente não cobrem o custo estimado das obras, ao redor de 3 bilhões. Mas, com eles a CAENE promoveu a atualização dos projetos, a cargo do Escritório Saturnino de Brito (em fase final de elaboração), o projeto de viabilidade econômica e contratou com a CONESP, outra subsidiária da SUDENE, a perfuração de poços tubulares profundos para aumento do manancial da cidade”.

AS SOLUÇÕES – Com relação às soluções viáveis para a falta de água em Mossoró, disse o sr. Raimundo Soares: – “Duas soluções foram examinadas: uma, a médio prazo, a construção do Açude de Santa cruz que, disciplinando o curso do rio Mossoró, torna-lo-ia permanente, resolvendo o problema do manancial que nos falta; e outra, a curto prazo, exigida pelas condições precarissimas do sistema atual, onde, na época mais aguda do verão, a partir de novembro, uma lata de água é obtida até por 300 cruzeiros, obrigando grande faixa da população a utilizar água do rio e de poços rasos, caracterizada por um alto grau de poluição. Partimos para a solução heróica e o petróleo veio perturbar nosso trabalho, que se tornou mais demorado”.

ÁGUA DO ARENITO – Falando sobre a água do arenito, disse o prefeito: – “É sabido que a bacia sedimentar de Mossoró, uma das mais ricas do Brasil sob o aspecto hidrológico, constitui um reservatório abundante, sendo o arenito Assu tido como mais produtivo que o de Dakota do Sul, onde existem em funcionamento cerca de 15.000 poços artesianos. Esse arenito está situado na profundidade de 500/600 metros. A opinião generalizada é a de que cinco poços profundos, que alcançassem a água do arenito, assegurariam uma vazão capaz de garantir o abastecimento para uma população de 200.000 habitantes”.

AS PERFURAÇÕES – A CONESP, com recursos do SUDENE, está perfurando um poço com aquela finalidade. Outro está sendo pelo DNOCS, que muito tem ajudado no programa de água para o Município de Mossoró, sobretudo na zona rural.

Um terceiro, com as mesmas características, está sendo perfurado pela CASOL. E agora, sob supervisão da Petrobrás, uma sonda moderna, rotativa, do Departamento Nacional de Produção Mineral, do Ministério de Minas e Energia, encontra-se em operação na localidade Panela do Amaro, onde um poço está sendo perfurado, cuja sonda acha-se a setecentos metros de profundidade, já jorrando água abundante e de excelente qualidade.

O QUE SE FAZ – Continuando, declarou o nosso entrevistado: – “Esse o trabalho de quase quatro anos, em que a atual administração do Município de Mossoró se empenhou para solucionar o problema. Tivemos a ajudar de todos os órgãos citados, notadamente da SUDENE, através dos recursos já liberados. O importante, porém, é que o Superintendente Rubens Costa, durante sua última viagem do aos Estados Unidos, obteve financiamento de US$ 25.000,000 do Banco Interamericano de Desenvolvimento, para o programa de saneamento básico em várias cidades nordestina. O projeto de Mossoró está ali incluído, dependendo apenas do resultado do estudo de viabilidade econômica, a cargo da CAENE. Eis o que temos feito para resolver o problema da falta de água e esgotos em nosso cidade. Aqui apresentamos apenas uma pálida idéia do esforço, da luta, do sacrifício que uma questão dessa envergadura exige da dedicação do homem público que se dispõe a aceitar os desafios da região. Somos, os que trabalham os trabalhamos (e não foram poucos), gratos às perspectivas que hoje se abrem à solução do problema, sem pretender nada mais que a satisfação de encontrar a solução que já está à vista, imposta exclusivamente pelo nosso dever, em benefício do grande povo mossoroense” – concluiu o prefeito Raimundo Soares de Souza. – Diário de Natal – 04.03.1967

Mossoró e a Batalha da água – III
DESDE SUA INAUGURAÇÃO NÃO HOUVE AMPLIAÇÃO DO SERVIÇO

– “As instalação do Serviço de Água de Mossoró não receberam nenhuma ampliação, desde a inauguração de suas atuais instalação técnicas. Há muito tempo que sabemos da necessidade de aumento da necessidade de aumento da capacidade das usinas, da rede de recalque, da estação de tratamento e da própria rede de distribuição. As atuais instalações foram planificadas para atender a população mossoroense em 1959, época de sua implantação” – estas foram as palavras do sr. José Marinho dos Santos gerente do Serviço de Água de Mossoró, do Departamento de Saneamento do Estado.

– “Com o aumento da população era de se esperar que, paralelamente, tivesse havido um aumento da capacidade de fornecimento por nossa parte. O crescimento da cidade exige, hoje, um fornecimento de água muito maior do que a nossa capacidade de atendimento”.

A MANUTENÇÃO – Acrescentou o sr. José Marinho que “a nossa repartição se mantém com a sua própria receita, a qual deve cobrir todas as despesas efetuadas com pessoal, material químico empregado na purificação, decantação e filtragem do líquido, bem como com combustível, luz, força e as outras coisas necessárias ao seu funcionamento, As vezes dá-se o caso atrasarmos os nossos compromissos, porém isso só ocorre quando outras repartições públicas atrasam na liquidação de suas contas para conosco” (…).

QUALIDADE E QUANTIDADE – Falando sobre a possibilidade para um aumento substancial do volume de água para fornecimento à população e para uma boa qualidade desse mesmo produto, continuou o sr. José Marinho dos Santos: – “Somente com a captação de água de poços profundos, como esse do Ministério de Minas e Energia perfurado no sítio Panela do Amaro, ou com a construção do reservatório do Açude Santa Cruz, a 72 quilômetros de distância da cidade, é que teremos água suficiente e boa para os mossoroenses”. – Diário de Natal – 06.03.1967

Mossoró e a Batalha da água – IV
ÁGUA É PERIGO PARA CRIANÇAS: MOSSORÓ

– “Muito embora se rejeite o líquido fornecido pelo Serviço de Água de Mossoró para o consumo humano, ele pode ser utilizado para isso. O tratamento a que é submetido, torna-o livre de impurezas. No entanto, o fato dessa água conter uma elevado proporção de substâncias calcárias e um sabor bastante desagradável cria no povo a impressão de que a mesma á água impura” – disse ao Diário de Natal o sr. Jair Nogueira Lima, médico diretor do Centro de Saúde.

MORTANDADE INFANTIL – A população pobre de Mossoró usa, com mais freqüência, para o próprio consumo água do rio ou de cacimbas rasas. Calcula-se que essa fator possa ser responsável por um processo que resulta no elevado índice de mortandade infantil, que a cidade apresenta. Sobre o assunto, disse o entrevistado: – “Não resta dúvida que a ingestão de uma água não tratada, por um organismo cuja defesas estejam diminuídas, ou não totalmente desenvolvidas, representa certo perigo para quem recebe, mormente se se falar em termos de população infantil. Nesse caso o perigo é tanto maior quanto menor for a idade da criança”.

ÁGUA DE CISTERNAS – Se a água de beber dos pobres é a retirado do rio ou das cacimbas rasas, aqueles que podem possuem cisternas. Falando sobre esse meio de armazenamento de águas de chuva, disse o sr. Jair Nogueira: – “Muito maior perigo acha-se representado pelo consumo de água de cisternas, cuja vedação não seja perfeita, principalmente considerando-se as condições peculiares da cidade sem rede de esgotos, como é Mossoró. Aqui abundam as fossas destinadas ao despejo de dejetos, raramente impermeabilizadas e quase sempre próximas às cisternas. Essa situação propicia a contaminação das águas das cisternas, através da porosidade natural do solo e de insetos. Este fato ocorre com uma freqüência muito maior do que se supõe, haja visto a alta incidência de parasitas intestinais entre a população da região, assim como a disenteria bacilar, principalmente no seio da população infantil”.

FALTA TÉCNICA – “O sistema de tratamento de água, utilizado pelo Departamento de Saneamento do Estado em Mossoró, é um sistema padrão – continuou o diretor do Centro de Saúde. Ressentindo-se apenas de falta de técnicos capacitados e especializados em controle químico e bacteriológico do líquido. Sabemos que, não obstante o esforço do pessoal que atualmente trabalha no Serviço de Água de Mossoró, não existem condições de que se consiga algo melhor sem a presença de um técnico especializado no assunto. Além disso, necessitamos que a água fornecida à população venha de outras fontes que não o rio, que ali se concentra uma série de impurezas que contamina a água e que exige processos de purificação que a torna pesada e de mal gosto”. – Diário de Natal – 08.03.1967

Mossoró e a Batalha da água – V
RURALISTA MOSSOROENSE É ETERNO “HOMEM COM SEDE”

Se na sede do Município a falta de água é um problema sério, pois que apenas 10% de sua população é abastecida pelo Serviço de Águas de Mossoró, muito mais grave apresenta-se o panorama rural.

Como Mossoró possui uma rede de Açudes muito pequena, a zona interiorana do Município tem que captar o líquido de poços pouco profundos, que atingem o lençol freático do subsolo. Dentro dessa vivência é o ruralista (este termo foi empregado no sentido de identificar o produtor rural; o agricultor, o pecuarista) mossoroense um eterno “homem com sede”. A água que ele consegue tem que ser dividida entre a sua sede pessoal e de sua família, a sede dos trabalhadores da fazenda e de seus familiares, bem como a sede do seu gado. Além disso, os produtores mais abastados têm uma preocupação a mais: repartir sua água com os vizinhos.

ÁGUA DURA – Aqui não existe um grande número Açudes, entre outras razões porque a maior parte do solo mossoroense tem formação de calcário. Este fato faz com que a região não se preste para nela se construir Açudes de grande porte ou mesmo em grande quantidade. Geralmente apela-se para a solução dos poços que atinjam a água subterrânea (localizada abaixo da placa de calcário), porém essa não possui boa qualidade. É a chamada água dura, de aspecto salobro, de gosto ruim e, além de tudo, de quantidade pouca.

O homem e o gado, a gosto ou a contragosto, bebem esse líquido por falta de opção. No entanto, muitas variedades de plantas a rejeitam, tornando o campo pouco produtivo em épocas de estiagem.

POÇOS PÚBLICOS – Há muitos anos os prefeitos mossoroenses se preocupam com a falta de água para a população e para as atividades rurais. Já na década de vinte, foram perfurados poços no interior do Município.

Atualmente existem cerca de sessenta poços públicos, sob administração da Prefeitura Municipal de Mossoró, instalados em distritos, núcleos, povoados e fazendas. Trinta novos estão sendo instalados. Muitos deles são equipados com motobombas, compressores, cata-ventos ou bombas manuais. Alguns (muito poucos) têm casa de máquina e reservatórios. A Prefeitura matem um Serviço de Poços, com 56 funcionários, incluindo os residentes nos locais de captação do líquido.

QUEM AJUDA – Diversos organismos ajudam os ruralistas mossoroenses na batalha pela água: a CASOL, o DNOCS e a própria municipalidade. Ainda existem em funcionamento, sob administração da Prefeitura, poços perfurados pela antiga Inspetoria Federal de Obras Contra a Seca, autarquia que foi posteriormente transformada no atual DNOCS-Departamento Nacional de Obras Contra a Seca.

A Cia. de Água e Solo do Rio Grande do Norte-CASOL fez diversos contratos com proprietários rural para perfuração em suas terras, com uma cláusula segundo a qual esses poços sejam também para uso dos moradores vizinhos e adjacentes. Esses contratos foram realizados principalmente no Distrito de Baraúnas e no núcleo de Alagoinha. A CASOL também perfurou poços públicos, visando minorar a falta de água no campo.

A CONESP, uma subsidiária da SUDENE, o DNOCS e a CASOL assinaram diversos contratos com a Prefeitura para perfuração de novos poços e para recuperação de poços que se encontram paralisados ou mortos. Esses convênios já apresentam algum resultado positivo e espera-se que eles continuem.

AINDA É POUCO – Não obstante esse trabalho que se realiza, o qual não deixa de ter seu mérito, ainda se faz pouco para matar a sede do homem do campo em Mossoró. Em se falando de água, não se pode pensar em termos de apenas o mínimo necessário para a sobrevivência. Não se pode negar o trabalho que é realizado, mas também não se pode esquecer a população que aumenta e o desenvolvimento agrícola que é tolhido porque falta água. Quando a população cresce, há necessidade de água para o consumo humano, quando a economia rural se desenvolve há necessidade de água para as plantações e para os animais de cria e corte que, têm por fim a alimentação dessa mesma população. Em Mossoró o problema é mais cruciante quando se sabe que nunca houve água, se não abundante, pelo menos em quantidade suficiente para as próprias necessidades premente de atendimento ao consumo das pessoas. – Diário de Natal – 09.03.1967

Mossoró e a Batalha da água – VI
MAIS DE CEM ANOS DE SEDE; AGORA EXISTE ESPERANÇA

A escassez de água é uma presença perene na história desta região e deste povo. Desde a presença de colonos ou viajantes pela região que viria a ser o Oeste Potiguar, que a falta de água é um registro constante. De passagem pela região do que viria a ser a cidade de Mossoró, em 1810, o viajante-aventureiro Henry Koster (filho de ingleses e nascido em Portugal), descreve situação características desse problema: rio seco, abandono de terra pela falta de fontes de água, água salobras retiradas de cacimbas. Fazenda, arraial, vila, paróquia e Município, a situação não mudou. Em 1965, bebia-se água de cacimbas e de raras cisternas que coletavam as águas pluviais. Em 1877, vitimada pela grande seca, a população teve que ser socorrida por uma Comissão de Socorros Públicos

Podemos dividir a história do abastecimento de água à população de mossoroense em quatro fases: a dos pioneiros, a dos “planificadores”, a dos “implantadores” do atual Serviço de Água de Mossoró e a presente. Destaque-se que nunca houve suficiência do líquido nesta região do Estado.

A luta pela água, em Mossoró, vem de há mais de cem anos. Desde o tempo do DA fazenda e arraial de Santa Luzia que os seus habitantes se preocupam com o assunto, numa busca contínua pela solução de como matar a sede e atender a outra necessidades básicas, só atendidas, se não pela abundância, pelo menos pela existência do precioso líquido.

RESERVATÓRIO – Data de 1917 o primeiro estudo realmente importante sobre o assunto. Naquele anos Guilherme Browne indicava como solução a construção de um reservatório no rio Upanema, no local Tabuleiro Grande, localizado a cerca de dez ou doze quilômetros da sede do Município. Ali deveria ser construída a represa que abasteceria a cidade e a população circunvizinha, inclusive para atividades agrícolas e pecuárias.

Desta época consta o trabalho de diversos mossoroenses pela concretização desde projeto, alguns propondo modificações na proposta inicial, mas sempre tendo como base o estudo de Browne. Jerônimo Rosado, Francisco Vicente Cunha da Mota, entre outros, eram batalhadores pela efetivação do projeto. Como alguns proprietários de terras que seriam desapropriadas não concordaram com a idéia e lutaram pelos seus direitos individuais, muito embora contra o s interesses coletivos, tempos depois o projeto foi substituído pelo projeto da construção do Açude de Santa Cruz, em local distante a mais de quarenta quilômetros da sede do Município. Esse foi a época dos pioneiros.

O PROJETO – Na etapa seguinte teve participação primordial o então prefeito da cidade, Luiz Cunha da Mota, o Padre Mota. Do seu trabalho e esforço é que resultou o estudo e esboço completo que serviu de base para o atual Serviço de Água de Mossoró. Durante a sua administração é que foram efetuados os estudos para a implantação dos serviços de água e esgotos da cidade. Esses projetos foram realizados com recursos da Municipalidade, contando apenas com pequena ajuda do governo do Estado.

No dia 6 de fevereiro de 1945, o padre Luiz Mota, autorizado pelo então interventor do Estado do Rio Grande do Norte, general Antonio Fernandes Dantas, assinou com o Escritório Satunino Brito, do Rio de Janeiro, o contrato para elaboração dos projeto de abastecimento de água e coleta de esgotos de Mossoró. O sistema de fornecimento de água compreendia: adução de água, numa base de 150 litro por habitantes (com capacidade de atendimento de uma vez e meia da população então existente, ou seja, prevendo-se o seu crescimento até cinqüenta por cento), projeto de purificação de água, de construção de reservatórios e esquema de redes de recalque e de distribuição e, ainda, a projeção de suprimento futuro. A coleta de esgotos contemplava: redes coletoras, delimitação dos bairros atendidos (inclusive prevendo a expansão urbana), técnicas de emissão dos dejetos, locais de centralização da coleta, sistemas de tratamento e descarga.

A IMPLANTAÇÃO – A Dix-Sept Rosado e a Duodécimo Rosado deve-se a efetivação do projeto do Padre Mota, com a implantação do serviço de distribuição de águas atualmente servindo ao Município. Ainda como prefeito, Dix-Sept Rosado batalhava pela solução do problema. Como governador, morreu a procurá-la, pois que o desastre de que foi vítima deu-se quando ia ao Rio de Janeiro para, entre outros assuntos, manter entendimentos com o Banco do Brasil, visando conseguir financiamento para o projeto de águas para Mossoró. Silva Pedrosa, como governador do Rio Grande do Norte, construiu e inaugurou o Serviço de Água de Mossoró, subordinado ao Departamento de Saneamento do Estado.

CEM ANOS DEPOIS – Hoje, a batalha continua. Amanhã, ela continuará. O mossoroense tem cem anos de sede. Desde o início de sua existência que toma água salobra, contaminada ou salobra e contaminada. Agora abre-se um novo horizonte, uma nova perspectiva. Descobriu-se água boa e em quantidade suficiente até para mais do que a população da cidade necessita atualmente. Mas, muitos investimentos têm que ser feitos. A rede de distribuição é precária e insuficiente; bairros inteiros existem que não possuem sequer um metro de cano do serviço público; quatro novos poços profundos têm que ser perfurados a mais de setecentos metros de profundidade; uma adutora tem que ser construída para trazer o líquido até uma estação de tratamentos ou caixas centrais; as escolas, os hospitais, hotéis, restaurantes, as residências e as indústrias não podem ficar com torneiras secas; as cisternas têm que ser abolidas e evitados os parasitoses; as crianças não podem viver com o perigo de morrer, cada vez que bebem água.

OS QUE TRABALHAM – Nesta série de reportagem, procuramos sempre por em evidência os trabalhos e realizações do Departamento de Hidrogeologia do Ministério de Minas e Energia, do DNOCS, da CASOL, da CONESP, da CAENE e da Prefeitura Municipal de Mossoró. No entanto nota-se que às soluções procuradas falta entrosamento. É o caso de se perguntar: muito bem, encontramos água, e agora? O problema exige solução imediata, porque a falta de água não é de agora, e de há mais de cem anos. Não há mais tempo para esperar. – Diário de Natal – 13.03.1967

MOSSORÓ TERÁ FORNECIMENTO DOMICILIAR DE ÁGUA MINERAL

MOSSORÓ (Serpes) – A Cia. de Águas e Esgotos do Nordeste-CAENE, subsidiária da SUDENE, iniciou os trabalhos de ligação do Poço do Triângulo com as caixas de água, nos reservatórios centrais da cidade. Logo que seja terminada a ligação direta para a rede de recalque da linha adutora existente, será fornecida água mineral para a população da cidade. O prazo previsto para o término do serviço é o dia 12 de janeiro próximo.

Segundo convênio assinado entre a SUDENE, governo do Estado e a Prefeitura de Mossoró, a rede de distribuição domiciliar do Serviço de Água de Mossoró será ampliada, ficando a execução das obras a cargo da CAENE. Todo o material técnico para utilização os trabalhos será fornecido pela SUDENE (e já estão chegando), não se sabendo, todavia, a data prevista para o seu início. Caberá à Prefeitura Municipal arcar com as despesas de mão-de-obra.

TRABALHOS – A montagem e instalação da motobomba que fará o suprimento da linha adutora já estão concluídas, faltando apenas a ligação dos equipamentos com a linha de recalque. Os serviços estão sendo efetuados em ritmo intenso. A equipe de trabalhos está dividida em três turnos, que trabalham dia e noite.

Com água captada a 909 metros de profundidade, jorrando a uma temperatura de 52 graus centígrados, o poço de água mineral recebera o nome de Marechal Artur da Costa e Silva. Sua inauguração está prevista para o dia 22 próximo, pelo próprio presidente da República, quando de sua visita a Mossoró. Vale ressaltar que Mossoró será uma das poucas cidades brasileiras a ter rede de distribuição domiciliar de água mineral, de primeira qualidade. – Diário de Pernambuco – 17.12.1967

COSTA E SILVA INAUGURA POÇOS DE ÁGUA EM MOSSORÓ (Resumo)

MOSSORÓ (Serpes) –Chegou ontem a esta cidade o presidente Costa e Silva, acompanhado do ministro Costa Cavalcanti, das Minas e Energia, e numerosa comitiva (…). O presidente chegou a Mossoró pouco antes das 13,00 horas, mas já a partir das 11,00 horas grande massa de povo de aglomerava no aeroporto e no local onde o primeiro mandatário do país inaugurou o poço artesiano que tomou o seu nome (…).

PRESIDENTE COSTA E SILVA INAUGURA OBRAS EM MOSSORÓ (Resumo)

Grande parte desta reportagem, distribuída pela Agência Nacional (órgão encarregado de divulgar as notícias de interesse do governo federal), teve como base matéria escrita pelo autor e remetida, via telegráfica, para as redações dos jornais Diário de Pernambuco, em Recife, e O Povo, em Fortaleza. “Não se sabe” como a Agência Nacional teve acesso à reportagem original e incorporou parte dela (com alguns acréscimos laudatórios) ao noticiário que distribuiu à imprensa nacional. Somente transcrevemos a parte que foi escrita pelo autor.

MOSSORÓ (Agência Nacional) – O presidente Artur da Costa e Silva (…) dirigiu-se (…) para Mossoró, onde presidiu várias inaugurações.

O chefe do governo (…) deslocou-se para o triângulo ferroviário, a fim de inaugurar o poço Costa e Silva, cuja água se assemelha, de acordo com análises, às águas minerais de melhor qualidade. O chefe pôs as mãos nas águas que escorriam em várias sangria da rede condutora do líquido, sob grande ovação popular. Descerrou, na oportunidade, a placa alusiva à inauguração. No local discursos o ministro de Minas e Energia, general Costa Cavalcanti, ressaltando a importância da obra. Em seguida, o presidente da República dirigiu-se ao bairro de Bom Jardim, onde inaugurou outro poço, denominado de Ministro Costa Cavalcanti. No local, o presidente Costa e Silva, emocionado, pôs novamente suas mãos no líquido, até há pouco escasso naquela região. – Diário de Pernambuco – 23.12.1967

MOSSORÓ CONTINUA COM RACIONAMENTO DE ÁGUA POR CAUSA DA BUROCRACIA

Por causa dessa matéria, mais especificamente por ter citado a inauguração do serviço de abastecimento de água, feita pelo presidente Costa e Silva, e a persistência dos “canos secos”, fui chamado a Natal e a Recife, para prestar esclarecimentos às autoridades competentes (como se dizia na época dos governos militares). A Natal fui acompanhado do deputado Vingt Rosado e do prefeito Raimundo Soares; a Recife fui com o prefeito. Segundo os oficiais do exercito que me interrogaram, a reportagem era uma “tentativa de envolver o nome do presidente da república em um problema insolúvel, (…) visando subverter a ordem pública, (…) jogando o povo contra o governo”. O argumento do prefeito (e também advogado) Raimundo Soares foi de que o próprio texto da reportagem dizia outra coisa. Se faltava água era por causa da burocracia, não por culpa dos governantes, ele mesmo também governo, talvez o que poderia ser mais responsabilizado. Tudo ficou resumidos a interrogatórios, sem inquérito, sem nada mais. Hoje, com a democracia normalizada, posso dizer que foi só chateação. Mas que foi um grande susto, foi.

MOSSORÓ (Serpes) – Água boa, água mineral, uma das melhores do Brasil, mas… nem todo dia há. Assim é o Serviço de Águas de Mossoró: ótima qualidade e irrisória quantidade. Localizada na região semi-árida que apresenta mais características da caatinga do que do litoral, a cidade de Mossoró há mais de um século vive o seu problema de falta do líquido essencial. O rio que banha as suas terras tem vazão sazonal e, mesmo quando corre, tem alto teor de dureza, provocado pelo calcário existente em suas margens e na própria estrutura do seu leito.

O ABASTECIMENTO – Nas primeiras décadas deste século, algumas pessoas da cidade procuraram resolver em parte o problema da água (pelo menos no que diz respeito a quantidade), organizando a Cia. de Águas de Mossoró, a qual perfurou poços de pequena profundidade, construiu reservatórios e estendeu uma rede de distribuição na cidade. Mas a água era salobra.

Quase cinqüenta anos depois, o governo do Estado, pelo seu Departamento de saneamento, organizou o Serviço de Água de Mossoró, que não atende nem a metade da população e cujos canos somente passam nas ruas centrais. De lá para cá a cidade mais do que duplicou – em recente estudo da SUDENE Mossoró aparece como a cidade nordestina de maior índice de crescimento, com uma taxa de 7,8% ao ano. No
entanto, até hoje o Serviço de Água não aumentou a sua canalização.

O RACIONAMENTO – Como era de se esperar, de uns anos para cá foi oficialmente estabelecido p racionamento de água em Mossoró. Dia sim, dia não, há falta de líquido em determinados ramais da rede de abastecimento. Hospitais, escolas, restaurantes, residenciais, tudo e todos “entram pelo cano”, quando vão a procura de água. Enquanto isso, o prefeito Raimundo Soares, por conta da Prefeitura, fez a abertura de vários chafarizes para atender aos bairros mais pobres e voltaram à paisagem local as carroças pipas e as “roladeiras”. E o governo do Estado fugia do assunto da distribuição de água em Mossoró.

PESQUISA – Há 18 meses vêm sendo feitas prospecções em terras de Mossoró, objetivando a localização de um lençol subterrâneo de água. A CAENE, a CONESP, a CASOL e o Ministério de Minas e Energia fizeram diversas perfurações e a água foi encontrada em quantidade quase infindável e de qualidade superior à esperada pelos próprios técnicos. Para quem tem sede há tanto tempo nem era necessário ser tanta e tão boa. Foi com imensa alegria que o mossoroense recebeu a notícia e, quase que incrédulo, ele passou a sonhar com água muito e muito boa em sua residência. As donas de casa não mais teriam a preocupação de marcar os “dias de água” nas folhinhas do calendário, as crianças poderiam tomar banho a qualquer hora e a cidade teria jardins regados com água mineral. Era sonho, não era quimera, iria acontecer. Era só questão de dias. Poucos dias mais.

AS TORNEIRAS SECAS – É, não era sonho. Era quimera mesmo. Nada mais do que sonhos irrealizados. As torneiras continuam secas, as folhinhas continuam com os “dias de água” assinalados, os jardins iniciados pereceram e só a qualidade do líquido mudou. O racionamento continua.

O presidente da República veio a Mossoró inaugurar o novo serviço de abastecimento da cidade. Houve foguetões, salva de 21 tiros, banquetes, mas ainda há falta de água. Isso aparentemente é inexplicável e o mossoroense procura entender o fato e só encontra uma possível causa: ganha a batalha pela localização da água, agora é a vez de se ganhar a luta contra os papéis.

DINHEIRO HÁ – Em agosto do ano passado a Cia. de Águas e Esgoto do Nordeste-CAENE, empresa subsidiária da SUDENE, já havia incluído em seu orçamento a importância de NCr$ 400.000,00, para os trabalho de perfuração de poços em Mossoró.

Agora, com os resultados das pesquisas feitas diretamente pelo Ministério de Minas e Energia, o prefeito mossoroense solicitou e conseguiu que aquele órgão deslocasse referida verba para os serviços de aproveitamento dos poços perfurados pelo Ministério de Minas e ampliação da atual rede que faz o abastecimento de água na cidade de Mossoró. Ainda com relação ao problema de água e esgotos da cidade, o dr. Raimundo Soares foi informado pela CAENE que o Banco Interamericano de Desenvolvimento havia aprovado uma verba de NCr$ 3.000.000,00, parte da qual seria vinculada aos referidos serviços.

UTILIZAÇÃO DAS VERBAS – Recentemente o prefeito mossoroense esteve com o superintendente da SUDENE, tratando da imediata utilização da verba já liberada de NCr$ 549.000,00, destinada ao serviço de água da cidade. Em contato com o governo do Estado, o chefe do executivo mossoroense fez os acertos necessários para uma fusão dos esforços da SUDENE e governo estadual e municipalidade, para utilização dos poços profundos aqui perfurados, tendo em vista o atendimento da demanda local.

E por ai vai a batalha burocrática, a luta contra os papéis, para vencer o tempo perdido e, só de vez em quando, as dificuldades naturais. Enquanto isso, perde-se milhões de litro de água por dia, escorrendo dos poços e correndo pelas sarjetas das ruas, porque somente um deles esta ligado a rede de abastecimento domiciliar do Serviço de Água de Mossoró. – O Povo – 17.02.1968

ENERGIA ELÉTRICA

MOSSORÓ SOB AMEAÇA DE FICAR SEM ENERGIA DE PAULO AFONSO

MOSSORÓ, 10 – Está ameaçada a chegada da energia de Paulo Afonso a Mossoró. Depois de muitas lutas e anos de trabalho, quando finalmente a CHESF tem projeto concluído e a União incluiu em seus orçamentos verbas para a execução do projeto, quando a SUDENE tem verbas liberadas e material comprado, de repente estoura a “bomba”: ainda não é desta vez que Paulo Afonso vai chegar a Mossoró.

PROJETO – O projeto elaborado levaria a energia da CHESF a Mossoró através de Assu, e todo o planejamento está sendo feito neste sentido. Sabe-se, agora que o sr. Apolonto Sales, presidente da CHESF, estaria tentando desviar a rota e levar a energia através da cidade de Russas, no Ceará. Isto levará a uma alteração dos planos que acarretará nova demora na execução. Uma demora de aproximadamente cinco anos para a chegada da energia que se esperava neste ano.

PROVIDÊNCIAS – Diversas autoridades tem procurado impedir que o boato seja confirmado e o projeto através de Russas executado. O prefeito Raimundo Soares telegrafou a órgãos federais e à SUDENE comunicando o fato e pedindo providencias. Dois representantes do nosso Estado no Congresso, srs. Vingt Rosado e Dinarte Mariz, falaram pessoalmente com o presidente da CHESF, que teria negado a intenção do desvio por Russas. Entretanto fontes, não oficiais da SUDENE confirmaram que o caminho da energia elétrica de Paulo Afonso para Mossoró está em vias de ser mudado, para passar por Russas ao invés de Assu. – Diário de Natal – 11.03.1967

LUZ DE PAULO AFONSO PARA MOSSORÓ

MOSSORÓ, 17 – Regressou a esta cidade o prefeito Raimundo Soares, após Ter mantido entendimentos em Recife com autoridades governamentais, durante o período em que o Presidente Costa e Silva ali manteve o governo federal. Na sua viagem foi acompanhado pelo Deputado Vingt Rosado, que o secundou em quase todos os contatos realizados.

ELETRIFICAÇÃO – No setor de eletrificação, foi assinado convênio entre a Sudene e o Serviço de Eletrificação Rural do Nordeste (SERNE), para realização da rede de eletrificação rural dos vales dos rios Assu e Mossoró. No caso do vale do rio Mossoró, (segundo nos informou o sr. Emerson Azevedo) haverá um repasse para a Cia. Melhoramento de Mossoró S/A (COMEMSA), a qual aplicará a parcela que lhe couber dos NCr$ 1.000.000,00 constante do contrato realizado. O serviços serão iniciados a dois de setembro próximo.

No departamento de eletrificação da Sudene, o prefeito fez gestão para que sejam liberado mais NCr$ 150.000.00 para que tenham prosseguimento dos trabalhos de substituição elétrica desta cidade. Ainda no setor de eletrificação, o Prefeito Raimundo Soares recebeu das mãos do Presidente Costa e Silva, no Palácio dos Campos das Princesas, a importância de NCr$ 20.000,00 a ser aplicada em cursos de cooperativismo rural, vistas a breve instalação da rede de distribuição de luz e força nos vales do Açú e Mossoró. – Diário de Natal – 17.08.1967

ESTAÇÃO ABAIXADORA DE MOSSORÓ EDIFICADA EM RITMO ACELERADO

MOSSORÓ (Serpes) – A cidade de Mossoró prepara-se para receber, dentro em breves dias a energia de Paulo Afonso, no dia 22 de dezembro, num trabalho conjunto entre a SUDENE e a CHESF, cujos serviços estão de intensificando dia a dia. Calcula-se que em fins do corrente mês esteja concluída toda obra.

TESTES PREVISTOS – O Sr. Emerson Azevedo, diretor presidente da Companhia Melhoramento de Mossoró S.A. (COMEMSA), empresa subsidiária dos serviços energéticos da cidade, declarou que não a possibilidades de haver adiamento de inauguração da energia de Paulo de Afonso, tudo depende apenas da Companhia Hidrelétrica do São Francisco (CHESF), entregar a energia vinda de Paulo de Afonso quatro ou cinco dias antes, para os devidos testes.

Todo o serviço de “posteação” e da rede elétrica do centro da cidade já foram concluídos, faltando apenas o término da “posteação” e rede elétrica da zona urbana, que serão terminados nos próximos dias.

Salienta ainda o Sr. Emerson Azevedo, que apôs a inauguração serão mudados todos os transformadores que contiver 2.300 volts, por transformadores novos com 13.800 volts, devido a ciclagem antiga que era de 50 ciclos passar a ser de 60 ciclos. Para essas modificações toda cidade sentirá a falta de energia elétrica durante dois ou três dias, após as solenidades de inauguração. Salienta, ainda, que apesar do prazo estimulado ser um pouco restrito, os trabalhos ficaram prontos em tempo.

A construção da subestação, que está sendo edificada à margem da rodovia Mossoró-Areia Branca, encontra-se bem adiantada e é administrada pela SUDENE e CHESF. – O Povo – 06.12.1967

PAULO AFONSO VAI CHEGAR A MOSSORÓ ATÉ FIM DO ANO

MOSSORÓ, 8 – Paulo Afonso está sendo como que um passe mágico em Mossoró. Tudo aqui se move, se faz, se pensa e já se realiza em termos da energia que a Cia. Hidroelétrica do São Francisco vai fornecer à cidade. Parece uma força a mover a vida da cidade. Toda a comunidade espera pela vinda dos fios que já atravessam as zonas do sertão e do agreste e estão achegar até Mossoró. Foi preciso que dois Estados fossem atravessados pela rede da CHESF, para que esta viesse até aqui.

CUSTA, MAS CHEGARÁ – De há muito vem a luta para que Mossoró receba a energia de Paulo Afonso. Dirigentes, políticos, empresários, padre e estudantes, participam da batalha. Antes, individualmente, agora juntos em torno do Centro das Industriais do Estado do Rio Grande do Norte, entidade que tem sede em Mossoró, os industriais locais vem lutando de toas as maneiras para conseguir este objetivo. Em todas as frentes eles estão a pedir, solicitando, exigindo e indo, no Congresso Nacional, na Eletrobrás, na SUDENE e até na própria CHESF, fazem ver a necessidade desta cidade receber a energia que tem impulsionado o Nordeste. Afinal de contas, Mossoró também é Nordeste e, aqui, é localizado o maior parque salineiro do país. Por outro lado, o sal, as águas residuais a eletricidade podem gerar soda cáustica, um dos produtos básicos para a industria brasileira e com a importância do qual se gasta muito dos nossos poucos e preciosos dólares.

O ENCONTRO – Segundo consta, estaria sendo estudado pela SUDENE e pela Cia. Hidro-Elétrica do São Francisco um projeto para transformar Mossoró o ponto de encontro dos sistemas de eletrificação do Ceará e do Rio Grande do Norte. Isso evitará a possibilidade de falta de luz e força nesses Estados, em caso de rompimento de cabos de uma das duas direções, pois haveria um fechamento do circuito energético, como um suprimento de emergência.

Sabe-se que, ocasionalmente, tem havido falta de energia de Paulo Afonso, até mesmo em Natal e Fortaleza, motivada por defeitos nas linhas de transmissão que suprem essas capitais e outras cidades. Esses encontro dos dois sistemas seria uma solução para casos dessa natureza.

DISTRITO INDUSTRIAL – A atual administração do município criou, há aproximadamente dois anos o distrito industrial do município para funcionamento em modalidades modernas e adequadas às comunidades de produção. Dentro das condições de infra-estrutura para organização do DI, destaca-se em sua planificação o fornecimento de energia elétrica barata e economicamente recomendável. Somente mediante a utilização de energia hidráulica pode-se conseguir essa meta. Tão logo cheguem a Mossoró os fios da CHESF no dia 22 próximo a Municipalidade e a empresa concessionária do serviço de luz e força farão uma rede de transmissão até o Distrito Industrial. Desta maneira, a luz de Paulo Afonso integrar-se-á no processo de desenvolvimento de Mossoró.

NO SAL – Desenvolvendo a economia regional, essa energia elétrica também deverá ser fator participante do complexo industrial do sal que, aqui, poderá ser formado e ampliando por ela. Além da soda cáustica, do potássio, do cloro, do sódio, do magnésio e do gesso, uma infinidade de outros produtos e subprodutos poderão ser extraídos do sal e das águas residuais (águas mães) das salinas localizadas na região compreendida pelos Municípios de Mossoró, de Grossos e Areia Branca. Não obstante, para que processos especiais de industrialização, como os exigidos para a obtenção desses elementos , sejam postos em prática é essencial à existência de energia elétrica abundante e barata. Paulo Afonso criará essas condições.

PORTO – Em fins do ano passado e início de 1967, o governo federal resolveu, enfim, equacionar o problema dos portos salineiros do Rio Grande do Norte. Daí surgiu a autorização para os estudos das viabilidades técnicas dos portos de Areia Branca, localizado na foz do Rio Mossoró e de Macau, localizado na foz do Rio Assu.

No caso o porto de Areia Branca, que beneficiará diretamente toda a região oeste do Estado, qualquer das alternativas encontradas para as modalidades de sua construção e futuro funcionamento, ficará na dependência da utilização de energia elétrica. Este angulo do problema se amplia quando se sabe que, obrigatoriamente, deverá ser construído um teleférico para transporte do sal das salinas até o costado do navio, em alto mar, ou até os armazéns de um porto oceânico ou continental, conforme seja o caso. Este teleférico mover-se-á à energia elétrica.

ZONA RURAL – O INDA (Instituto Nacional de Desenvolvimento Agrário), que tem como seu atual presidente Dix-huit Rosado Maia, prepara-se também para aproveitar as oportunidades que serão oferecidas ao Município. Este organismo do Governo Federal já possui elaborado um completo plano de eletrificação rural para a bacia do Rio Mossoró, partindo da sede deste e espalhando-se por outros Municípios vizinhos.

A importância desse plano destaca-se mais ainda, quando sabemos que a região oeste do Rio Grande do Norte (o local da bacia do Rio Mossoró) é uma das mais áridas do Estado e, também, uma das que mais freqüentemente sofrem inundações, muito embora isso possa parecer paradoxal. Com a eletrificação rural, poder-se-ão utilizar modernos meios de irrigação à base de captação de água do subsolo, ao mesmo tempo em que evitar-se-á proliferação dos Açudes mal construídos e com paredes inseguras, uma das principias causas das inundações. Afora esse fator, outros de origem econômicas, mesmo de modernização de trabalho e das condições de vida, abrirão novos horizontes e darão novas perspectivas ao homem e ao trabalho do campo.

REGIÃO – De maneira geral, a vinda da energia elétrica de Paulo Afonso beneficiará a toda região. Os Municípios vizinhos serão também eletrificados; todos por onde a rede passar. Daqui, linhas subsidiarias seguirão para outras cidades. No projeto haverá bifurcação da linha. A zona Oeste do Rio Grande do Norte poderá, inclusive, mudar seu ritmo de vida, suas normas e mentalidade econômica, política e social com o simples advento da luz de Paulo Afonso.

A SUBSIDIARIA – Nesta cidade, a concessionária do serviço de luz e força é a COMEMSA – Companhia Melhoramentos de Mossoró S/A, empresa que foi organizada pela Prefeitura, e que era o seu principal acionista, com completo controle acionário. Muito embora não mais esteja nas mãos da municipalidade, a empresa ainda continua controlada pelo governo, porém agora pela União através da SUDENE.

A COMEMSA vai distribuir a luz da CHESF em Mossoró. Atualmente, já prepara toda a rede de distribuição da cidade, substituindo-a totalmente por fiação, posteação e luminárias novas. Este trabalho vem se processando em ritmo acelerado, sendo esperada a sua conclusão para antes do fim do ano.
Diário de Natal – 09.08.1967

COSTA E SILVA INAUGURA OBRAS EM MOSSORÓ (Resumo)

MOSSORÓ. Diante da Escola Superior de Agricultura de Mossoró, onde se encontrava grande massa popular, realizou-se o ato de inauguração das linhas de transmissão da CHESF, ligando Paulo Afonso à Mossoró e a várias outras cidades do Rio Grande do Norte. Após discursar o presidente da Companhia Hidroelétrica do São Francisco, sr. Apolônio Sales, o chefe da nação, acionou o botão que ligou Mossoró ao sistema da CHESF. – Diário de Pernambuco – 23.12.1967

VINTE ANOS FAZENDO O PROGRESSO DO MUNICÍPIO

Desde 1926, os serviços elétricos de Mossoró foram explorados por várias concessionárias, as quais foram incorporados pela Companhia Melhoramentos de Mossoró, em 1948. A partir desse ano, a COMEMSA ganhou a concessão para distribuir a energia elétrica da cidade e, em 1952, no Município de Mossoró, pelo prazo de 30 anos. Constituída como empresa de economia mista, cuja maior acionista era a Prefeitura Municipal. Em 1963, fez-se a elevação para 6 mil cruzeiros novos, atingindo, dois anos depois, a noventa mil e oito cruzeiros novos, já com a inclusão de recursos oriundos do Governo Federal, através da SUDENE, e convertidos em ações desta sociedade de economia mista. Apenas decorrido outro ano, o capital social da COMEMSA alcançava o total de 196 mil e oito cruzeiros novos, cabendo à SUDENE a parcela altamente representativa de 190.008 cruzeiros novos, ou seja, 96% do total.

EQUIPAMENTO – O equipamento elétrico da COMEMSA veio a operar, de início com dois grupos geradores de 300 HP, instalados em 30 de setembro de 1949. Com a crescente demanda de energia, foram adquiridas duas outras unidades, de 300 e 450 HP, em fins de 1951. Os recursos financeiros mobilizados foram da esfera própria, levantados na Carteira Agrícola e Industrial do Banco do Brasil S.A., agência local. Tais geradores entraram em atividade regular a partir de 30 de setembro de 1952.

Outro financiamento foi obtido junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico, para novamente ampliar a sua capacidade geradora e expansão da rede distribuidora (postes, transformadores, cabos etc.). Adquirida nova unidade, com 1.000 HP, entrou em funcionamento em 30. 09. 57, sendo esse segundo empréstimo pago com amortização proporcionada pelos 50% dos recursos da coto federal do imposto de renda, entregue anualmente a parcela correspondente à Prefeitura Municipal de Mossoró. Aí já se dispunha da unidade nº 5, de sua usina geradora. Posteriormente, programada nova ampliação da oferta de energia na cidade de Mossoró, sob os auspícios da SUDENE, fez-se a aquisição de uma unidade diesel de 2.000 HP, peças sobressalentes para reequipamento das unidades de serviço, bem como ainda a aquisição de um rotor sobressalente para possibilitar sua mudança de freqüência para 60 ciclos por segundo, quando da chegada da linha tronco da CHESF a Mossoró. No esquema financeiro planejado, o Ministério de Minas e Energia entregou á COMEMSA a quantia de 19 mil e seiscentos cruzeiros novos, com a participação da própria SUDENE e provenientes de recursos previstos no Orçamento daquele Ministério para o ano de 1961 (…).

No último ano houve a inauguração dos serviços elétricos de Tibau, através de funcionamento de dois geradores com capacidade de 100 Kw e de custo da ordem de NCr$ 110.000,00 com a participação significativa do Ministério de Minas e Energia, no montante de NCr$ 100.000,00 (Cem Mil Cruzeiros Novos). A COMEMSA partiu para a ação promotora de desenvolvimento do turismo na Micro-Região de Mossoró, dotando aquele pitoresco recanto, encravado no vizinho Município de Grossos. O ano de 1967 termina com a integração definitiva da empresa ao sistema da Cia. Hidro-Eletrica do São Francisco, com a inauguração da subestação de Mossoró, em 22 de dezembro. – Diário de Pernambuco – 23.06.1968.

PORTO SALINEIRO

A ILHA DO SAL

Apesar das salinas do Rio Grande do Norte (o maior produtor nacional), de Alcântara, no Maranhão, ou de Cabo Frio, no Estado do Rio, vez por outra, o Brasil importa sal. Este é um dos inúmeros paradoxos da nossa economia. É certo que a causa importações é o processo de produção, que continuam sendo dos mais primários, tanto do ponto de vista e econômico quanto do humano e, portanto, do social. Entretanto é no sistema de embarque, transporte e desembarque do cloreto de sódio que se encontra o verdadeiro nó górdio dessa questão (…).

Diante desse problema, que pede atitudes urgente e integrada, parece que as autoridades resolveram adotar a técnica das soluções tópicas, isoladas – uma para cada caso. Em relação ao transporte do sal, por exemplo, decidiu-se pela construção de uma ilha oceânica, localizada no litoral do Rio Grande do norte. Seu objetivo será permitir o acostamento de navios de até 100 mil toneladas “dead weight”. Se considerarmos que atualmente o acostamento nos portos de embarque só permitia a utilização ou emprego de navios de até 25 mil TDW, temos que o avanço é grande: representa quadruplicar a capacidade de transporte.

A ILHA ARTIFICIAL – O porto-ilha será construído no litoral do norte-rio-grandense, a cerca de quinze quilômetros de Areia Branca (aproximadamente 10 milhas). Terá 150 metros de comprimento, por 66, de largura. Seu custo está orçado em NCr$ 19.170 mil, e o prazo de construção prevista é menos de três anos, pois deverá estar concluída a 19 de maio de 1970. Com a sua construção a média de carregamento de sal, que atualmente é de 800 toneladas por dia, com o uso de barcaças, será elevada para 1.500 toneladas por hora. A ilha comportará um estoque permanente de 90 mil toneladas. Um navio de 25 mil TDW, que leva hoje trinta dias para ser carregado, o será em cerca (limite máximo) de 20 horas. É um salto gigantesco (…). – Globo – 13.10.1967

ASSINADOS CONTRATOS DOS TERMINAS SALINEIROS DO RIO GRANDE DO NORTE

Esta matéria resultou de uma junção de uma reportagem do autor e de outra distribuída pela Meridional, a agência de noticias pertencente aos Diários Associados

RIO/NATAL (Meridional-DP) – O ministro dos transportes, coronel Mário Andreazza, assinará hoje à tarde os contratos de construção dos terminais salineiros de Areia Branca e Macau, ambos no Rio Grande do Norte, com a TERSAL-Terminais Salineiros de Areia Branca S.A. – e a TERMASA-Terminais Salineiros de Macau Sociedade Anônima. Os dois terminais objetivam movimentar, cada um, 1.500.000 toneladas anuais de sal a granel, em 1985, e atender aos diversos produtores dá região, representando um investimento global de 40.487.000 cruzeiros novos.

AREIA BRANCA – O terminal de Areia Branca será construído de uma ilha artificial, podendo armazenar 90 mil toneladas de sal a granel situada a 10 milhas a nordeste de Areia Branca, em área adjacente a um canal natural com 18 metros de profundidade. O local escolhido para a implantação da ilha tem entre 6 e 7 metros de profundidade e distância 150 metros de canal. Uma frota de barcaças, autopropulsadas de 200 toneladas TDW e de 60 toneladas TDW assegurarão a transferência do sal das salinas para a ilha, garantindo o embarque, nas salinas de 200 toneladas por hora, e a descarga na ilha, de 500 toneladas por hora.

Um carregador de navios ficará localizado numa das margens do canal, capaz de receber navios de até 40.000 TDW, inicialmente, e navios de até 100.000 TDW futuramente, e assegurar o embarque, pela esteira transportadora, que transferirá o sal da ilha até os porões, à razão de 1.500 toneladas/hora, permitindo que um navio adequado ao transporte de sal a granel seja carregado entre o máximo de 36 horas e o mínimo de 24 horas. Um sistema mecânico automático operará na ilha, proporcionando o descarregamento de 500 toneladas de sal por hora, e a formação de pilhas de sal lavado e não lavado e dos equipamentos destinados à movimentação da esteira transportadora; central elétrica; depósito de combustíveis e os prédios destinados à administração. O montante do investimento é de NCr$ 19.800.000,00 (…).

CONTRATOS – Os contratos a serem firmados hoje pelo ministro dos Transportes, são parte do “Protocolo Básico de Convenção e Compromisso Mútuo”, assinado pelo Governo com os industriais salineiros do Rio Grande do Norte, em 11 de maio de 1967, com base nos estudos da Comissão dos Terminais Salineiros, criada em 1965 pelo então Ministério de Viação e Obras Públicas, hoje Ministério dos Transportes. Esse “Protocolo” definiu os terminais como de caráter prioritário, bem como decidiu que sua construção seria entregue à iniciativa privada, com o Governo, através de seus órgãos competentes, assegurando financiamentos e os avais necessários (…). – Diário de Pernambuco – 10.05.1968

TÉCNICOS ESTRANGEIRO INICIAM OS TRABALHOS DE CONSTRUÇÃO DO PORTO

MOSSORÓ (Serpes) – O presidente Costa e Silva assinou o ato referendando a concessão dos portos salineiros de Areia Branca e Macau. Anteriormente a concessão foi assinada, em protocolo, pelo ministro Mário Andreazza e os industriais salineiros potiguares, estes reunidos em duas sociedades especialmente formadas para explorar os referidos portos, a TERSAL-Terminais Salineiros de Areia Branca S/A e a TERMASA-Terminal de Macau S/A. A construção destas duas unidades de embarque representará um grande passo para a economia salineira do país, solucionando um dos pontos de estrangulamento nesse setor de produção.

ESTUDO E TRABALHO – Enquanto se processam as tramitações burocráticas, já se realizam os trabalhos práticos para a construção imediata do porto de Areia Branca, o que mais importância apresenta no quadro do escoamento do sal do Rio Grande do Norte, o maior produtor brasileiro desse produto. Equipes técnicas norte-americanas e francesas fazem estudos especializados de prospecção geofísica e de estrutura para a edificação de uma ilha artificial em pleno oceano Atlântico. A obra é de tal envergadura técnica que o Boletim Mundial de Construção (World Bulletin of Construction), publicação editada simultaneamente em Nova Iorque e Londres, a aponta como uma das mais inovadoras obras de engenharia do mundo, em fase do projeto.

A ILHA – Em recente conferência pronunciada perante a Escola Superior de Guerra, o industrial Antonio Florêncio de Queiroz, presidente da TERSAL-Terminais Salineiros de Areia Branca S/A, assim descreveu o porto ilha: “O sistema consiste na armazenagem de regularização ao largo, numa ilha artificial, permanentemente alimentada por barcaças de 600 toneladas, vindas diretamente das estações de carregamento das salinas. Da ilha para o navio, o carregamento será feito por esteiras transportadoras, com capacidade de 1.500 toneladas/hora, podendo ser elevada quando a demanda o exigir, por meio de aumento da velocidade d alteração do ângulo das esteiras”.

Prosseguindo em sua palestra, disse o industrial norte-rio-grandense: “Para um plano que preveja uma ilha artificial em alto mar, é desejável combinar uma suficiente profundidade para o acostamento dos navios com águas adjacentes relativamente rasas para baratear o custo das obras civis. Do estudo de cartas hidrográfica e outros dados, resultou a localização de um ponto, a 11 quilômetros da costa, que atende a esses requisitos. Assim, esta ilha, de 150 metros de comprimento por 66 metros de largura, será construída em um ponto de seis metros e meio a sete metros e meio de profundidade, adjacente a um canal natural de navegação de 16 a 21 metros de profundidade, que permite atracação de navios de até 100.000 TDW”.

Falando sobre o sistema operacional do porto, prossegui: “O descarregamento das barcaças será feito à razão de 600 toneladas por hora, com o uso de dois guindastes, tipo ponte rolante, dotados de caçambas automáticas que se moverão ao longo das vigas e que efetuarão a pesagem e o empilhamento do sal. A alimentação das esteiras transportadoras, que conduzirão o sal aos porões do navios, será feita através de tremonhas móveis ao longo da pilha, enchidas por meio de duas pás mecânicas de grande capacidade. Com velocidade inicial de carregamento e 1.500 toneladas por hora, poderá carregar um navio de 25.000 TDW em apenas um dia, enquanto hoje ele é carregado em aproximadamente 35 dias. A grande capacidade de estocagem (90.000 toneladas) da ilha elimina qualquer possibilidade de atraso dos navios, além de permitir que, se necessário, uma das barcaças fique fora de serviços para reparos ou manutenção. O sistema ilha/barcaça oferece grande flexibilidade e conveniência em acomodar um gradual aumento de produção, quaisquer que sejam os moldes em que isso ocorra”, finalizou. – Diário de Pernambuco – 03.09.1968