NOSSAS FRUTAS E AS PERDAS DE OPORTUNIDADE

Tomislav R. Femenick
Tribuna do Norte. Natal, 07 set. 2008.

No final de agosto teve inicio a temporada de exportação de frutas produzidas em nosso Estado. Pelo porto de Natal foram enviados 70 contêineres (37 de melão, 13 de melancia, 12 de manga, 4 de mamão, 4 de banana e um de castanha de caju), com destino à Inglaterra, Holanda, França, Espanha e Portugal.

Há uma perspectiva de aumento das exportações, que as vendas ao exterior sejam maiores que as do ano passado, mesmo se considerando que na presente safra há três fatores que afetam negativamente o setor. Esses problemas são: as chuvas e cheias nas bacias dos rios Assu e Apodi-Mossoró, que destruíram benfeitorias e plantações; a alta dos custos dos insumos, principalmente os adubos que tiveram um aumento de custo em torno 200%; e a supervalorização do real em relação ao euro e, principalmente, ao dólar, moedas em que são realizadas as vendas do produto. Em outras palavras, houve um aumento dos custos e uma redução nos preços de venda – uma vez que ao se transformar as moedas estrangeiras em na moeda nacional, o produtor recebe menos pela mesma quantidade exportada.

Mesmo assim, os produtores de frutas do Rio Grande do Norte têm sobrevivido à essas turbulências do mercado. Tomemos como exemplo a produção do melão, que representa 70% da pauta de exportação de frutas do Estado e rendeu mais de US$ 83,6 milhões (R$ 137 milhões). O faturamento na safra de 2007-2008 foi 61,07% maior do que a safra 2005-2006. Entretanto, se na safra que se inicia houver algum crescimento, este será alcançado unicamente pelo aumento da produtividade, pois os produtores estão aprimorando seus métodos de plantio e colheita e, consequentemente, obtendo um número maior de frutas por hectare plantado, num verdadeiro choque de quantidade sem afetar a qualidade. Atrás do melão, vem a castanha de caju, que em 2007 registrou exportações no valor de US$ 40,1 milhões, e a banana que no mesmo período atingiu US$ 28 milhões.

Paralelamente aos problemas conjunturais que dificultam a vida daqueles que se dedicam a fruticultura – chuvas em excesso, aumento de custos e diminuição das receitas por tonelada exportada – há outros oriundos das condições de intra estrutura e de políticas governamentais, que representam perda de oportunidade. Embora sejamos o segundo maior produtor de frutas do mundo (com 36 milhões de toneladas anuais, cerca de 10% da produção total), há que se considerar que nossas exportações se situam no segmento de frutas frescas, um produto de rápido processo de deterioração e que necessita de cuidados adequados. Essa característica exige uma estratégia de logística que envolve serviços de transporte e comercialização, que até aqui tem se mostra insuficientes no atendimento às necessidades do setor. O transporte entre o ponto de colheita e o ponto de embarque é rodoviário, o que quer dizer caro e moroso. Além do mais o porto de Natal não oferece navios com rotas que cubram a maioria dos destinos onde se localizam os possíveis importadores. Esse último fato é limitador do mercado comprador das frutas aqui produzidas, a menos que as exportações sejam realizadas pelos portos de Pecém, no Ceará, ou Suape, em Pernambuco. Todavia, essas opções vêm encarecidas pelo alongamento do percurso rodoviário, nem sempre em estradas confiáveis. Para termos condições de competitividades há que se fazer significativos investimentos em transporte ferroviário, rodoviário e portuário.

No capítulo da comercialização da fruticultura (e para completar a via-crúcis dos exportadores), há os reflexos do fracasso das negociações da chamada Rodada Doha, da Organização Mundial do Comércio (OMC), que nos deixou sem alternativa para a expansão de mercados para nossos produtos. Isso porque os mercados compradores passaram a dotar medidas rígidas de controle e de fiscalização de doenças e pragas, como retaliação à posição tomada pelo governo brasileiro naquele fórum onde se procurava harmonizar oferta e procura, no mercado mundial. Explicando melhor. O Brasil foi responsabilizado pelos países desenvolvido e pelos países em desenvolvimento (nas negociações abandonamos os nossos parceiros tradicionais) pelo fracasso das negociações. Como efeito, ninguém tem “boa vontade” para conosco. Se essa coisa de “boa vontade” nunca existiu entre as nações, pois somente há “interesses”, agora talvez enfrentarem uma fase que “má vontade”.

No pé em que se encontra, a queda dessas barreiras só acontecerá por negociações ou renegociação de acordos comerciais bilaterais entre o Brasil e países ou blocos econômicos, já que os entendimentos para acordos comerciais entre o Brasil e seus parceiros do Mercosul e outros parceiros como a União Europeia estão travadas e mergulhadas em um cipoal de discussões incertas.

Em síntese: a preservação do Rio Grande do Norte como grande exportador de frutas depende da solução de dilemas conjunturais e estruturais, alguns eminentemente nossos, outros do próprio país.