Nós éramos sete

Tomislav R. Femenick
Tribuna do Norte. Natal, 15 fev. 2008.
Gazeta do Oeste. Mossoró, 16 mar. 2008.

Foi por insistência e persistência do deputado Vicente da Mota Neto junto ao Dr. Raul Barbosa – seu colega de turma na Faculdade de Direito do Ceará e presidente do Banco do Nordeste do Brasil S/A -, que essa instituição abriu a sua agência em Mossoró, no dia 10 de fevereiro de 1958; seis anos após a criação do banco, em 1952, e quatro após a inauguração de sua primeira agência, localizada em Fortaleza, cidade que também passou a abrigar sua sede. Entretanto, só essa amizade de mais de vinte anos não foi suficiente. Para obter êxito nessa empreitada, Mota Neto teve que trazer para seu propósito políticos de todos os partidos, inclusive o governador Dinarte Mariz, apesar de serem de correntes contrárias. Motinha, como era conhecido, sabia ser persistente.

O BNB foi instalado para ser uma agência de desenvolvimento do Nordeste Brasileiro e mais o norte de Minas Gerais, região atingida pelas secas periódicas. Seu idealizador foi Horácio Láfer, então Ministro da Fazenda, que apresentou uma exposição de motivos ao Presidente Getúlio Vargas, defendendo a criação da instituição, nos moldes pregados pela CEPAL, a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, órgão das Nações Unidas.

Lá pelo meado de 1957, chegou a Mossoró um funcionário da Direção Geral do BNB, para fazer os estudos preliminares sobre o potencial econômico da região oeste do Rio Grande do Norte e verificar a sustentabilidade da nova agência, se fosse instalada. Isso porque, naqueles tempos, o BNB não se norteava por interesses políticos ou por influencias de qualquer espécie. Fausto Pontes, um rapaz moço, com pouco mais de 20 anos de idade, inundou o ETENE-Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste, um órgão do próprio banco, com uma enxurrada de dados que comprovavam o poder da economia da região que viria a ser a jurisdição da nova unidade, bem como a necessidade de financiamento para que essa área se desenvolvesse de acordo com o seu potencial. Depois das análises desses elementos, a Direção Geral do banco decidiu acatar a idéia de Mota Neto e abrir a agência de Mossoró.

No mesmo ano foi realizado um concurso público para seleção de funcionários, tendo se inscrito mais de quatrocentos candidatos, alguns excluídos mesmo antes da realização das provas, por falta de documentação ou habilitação. Segundo a praxe do BNB na época, somente poderiam se inscrever pessoas que tivessem residência ou domicilio na cidade onde seria aberta a nova unidade. As provas do concurso abrangiam matérias de português, matemática e inglês básico, além de prática de datilografia. Fomos sete os aprovados: José Pausa de Souza, Tomislav R. Femenick, Hailé Selassié Dantas Lima, Elias Trindade, Francisco Eça de Queiroz, José Maria Martins de Almeida e Gutemberg Borges de Miranda. Tomamos posse na Direção Geral em Fortaleza, no dia 17 de dezembro de 1957, antes mesmo da inauguração da agência de Mossoró, que foi aberta no dia 10 de fevereiro do ano seguinte. O primeiro gerente foi o próprio Fausto Pontes; o primeiro gerente administrativo (cargo que naqueles tempos era conhecido como “contador”, até mesmo se o titular contador não fosse) foi José Penha Borge, funcionário aposentado do Banco do Brasil, que logo depois foi substituído por Antonio de Araújo Tavares, o caixa era Dráusio Rogério Borges e do setor de portaria faziam parte José Nilson de Melo e Vandecir dos Santos.

A agência de Mossoró logo se destacou no BNB, chegando a ocupar o quatro lugar entre todas elas, em operações de financiamento ao agronegócio, à industria e ao comércio. Tudo isso se deveu a grande visão de Fausto Pontes, que depois chegou a dirigir as unidades de Salvador e Recife, as duas maiores do Banco, superando a Matriz, em Fortaleza. Muitos foram os funcionários da agência de Mossoró que se destacaram no Banco do Nordeste, além daqueles que fizeram parte da primeira turma: Orlando Alencar Martins, Expedito Gundim Rocha, Elomir Lázaro de Souza, Antonio de Castro Tavares, Ivan Vieira França de Souza Rocha, Pedro Capristano, José Nilson Fernandes, Pedro Sabino Soares Fernandes, Rui Lima de Góes…

A agência de Mossoró foi pioneira em vários campos. Foi a primeira unidade que, por iniciativa própria, realizou comandos de cadastro e abertura de contratos de crédito rural, indo diretamente às fazendas. Eu mesmo participei dos primeiros deles, que foram realizados em Apodi, Caraúbas e Janduís. Para isso usávamos até de folhetos de cordéis. Também foi a primeira agência a elaborar, sem custos para os clientes, projetos de financiamento industrial para as empresas de extração de óleos vegetais e salineiras. Todos nós nos sentíamos integrados, nos sentíamos parte do Banco, não fazíamos distinção entre o nosso tempo e o horário do BNB, isso porque sentíamos que éramos mais que empregados. Nós nos sentíamos corpo de um banco que visava o desenvolvimento do Nordeste, do Rio Grande do Norte e de Mossoró. Ai veio o golpe de 1964 e as coisas começaram a mudar. Foi ai que a política começou a nortear BNB e o sonho acabou. Eu pedi demissão e fui cuidar da minha vida.