NINGUÉM ME DIGA

Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje. Natal, 22 set. 2008.
O Mossoroense. Mossoró, 23 set. 2008.

Ninguém me diga que leite é branco, porque eu e todo mundo sabe disso. Leite colorido só se for pintado. Também ninguém me diga que vaca dá leite condensado, porque nem eu nem ninguém acreditaria nisso. Mas tem gente que não tem semancol e tenta vir, com arrotos e simulações, para cima da gente.

Dia desse, sem ter como passar o tempo no trânsito de nossa cidade – que está ficando cada dia mais caótico -, fiquei ouvindo no rádio do carro as “propagandas” do horário político, o que me fez pensar nesse assunto. A primeira imbecilidade, no meu ponto de vista, está na obrigatoriedade imposta às estações de rádio e televisão, para transmitirem tal programa. Ora, se uma agremiação política não tem competência para arrecadar fundos, muito menos terá para formar uma base de sustentabilidade governamental, sem fazer barganhas ou aplicar, de forma travessa, a máxima franciscana que diz que “é dando que se recebe”. A segunda grande constatação de acentuado atraso mental esta na outra obrigatoriedade: a formação de cadeia de radio ou teve. Ora, isso nos tira o direito de ouvir ou ver o que queremos e de não ouvir ou ver o horário político. Quem disse que alguém sabe melhor do que eu o que é melhor para eu ouvir ou ver.

Entretanto, o pior nem é o horário político obrigatório em si e nem a cadeia radiofônica. Ruim mesmo, ruim de dá dor de dente em serrote e de encher pneu de trem é o conteúdo do dito programa. O verdadeiro festival de baboseiras, de ignorância, de falta de respeito, de achincalhamento da própria política é insuportável para os ouvidos de qualquer ouvinte que tenha o mínimo senso do ridículo. No capítulo da vereança, há candidatos que se apresentam aos eleitores como gaiatos, como se as eleições fosse um picadeiro de circo, onde só se exibissem palhaços escrachados e de mau gosto. Outros mostram o seu total despreparo; cometem erros graves de linguagem, prometem o que está fora da área dos vereadores, somente pedem votos ou simplesmente expressam sua opção religiosa, como se isso fosse uma credencial política. E os vereadores que querem se reeleger? Alguns que nunca fizeram nadica de nada, agora dizem que vão fazer isso e aquilo, qual um processo de metamorfose de uma indolente cigarra em uma operosa formiga.

Quanto às candidatas e aos candidatos a prefeito, a maioria nos trata como renomados imbecis. Uns e umas nos enchem de listas de apoiantes, como se o fato de fulano apoiar beltrano quer dizer que beltrano é bom ou ruim. Outros, que já ocuparam ou que ainda ocuparam cargos de governo, não têm pejo de prometer o céu e terra e tudo mais, além de coisas prosaicas, tais como melhores escolas e educação, mais água (sem nitrato) em todas as casas, esgotamento sanitário em todas as ruas, postos de saúde funcionando e atendendo prontamente à população, vias publicas iluminadas, trânsito fluindo etc. e tal. Como se isso fosse pouco, todos têm uma pronta solução para um problema que está ficando cada dia mais grave, aqui em Natal: a segurança pública. Aqui na rua de casa, já foram assaltadas quase todas as residências – exagero à parte.

Como acreditar nesses candidatos cuja maioria (uma maioria bem grande), na verdade, somente quer uma teta governamental para mamar e se dar bem. Vários daqueles que sabem que não serão eleitos estão mesmo é procurando uma sinecurazinha em alguma repartição federal, estadual ou municipal, após o pleito. Explica-se. Mesmo não sendo eleito, esses candidatos mostram força – mais fraca (um cargo menos remunerado) ou mais forte (mais remunerado) – pela soma dos seus votos.

Descaradamente isso é uma venda de apoio político. Aqui há um candidato que está ficando useiro e vezeiro em isso fazer. Nas campanhas pousa de anti-governista (mas não tanto), depois seu passeio predileto é lá pelas avenidas do Centro Administrativo. Mas não é só ele, há uma legião desses “idealistas”, que podem ser de direita, esquerda e sem lado nenhum.

Eu e muita gente sabemos que leite é branco e que vaca não dá leite condensado. Mas ainda há quem vota nesses intrujões. Enquanto isso acontecer, continuaremos sendo uma nação sem sentido do certo e do errado, do moral e do amoral (ou até imoral), do correto e do ilegal. Hoje estou ligeiramente cético e sem esperanças, talvez por isso não esteja vendo luz no fim do túnel.