NEW LOOK & CHOCOLATE

Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje. Natal, 09 jun. 2007.
O Mossoroense. Mossoró, 12 jun. 2007.

O Padre Sátiro Dantas, o quase eterno diretor do Colégio Santa Luzia de Mossoró, diz, falando a meu respeito, que eu nunca fui menino, por causa de minha preferência pelas coisas sérias. De fato, a minha infância fez-me uma criança e um adolescente um tanto quanto sério e circunspeto. As pessoas com quem eu mais convivia eram adultas: o meu avô, Vingt-un Rosado, o Padre Mota, o meu professor e juiz Mozar Astigarriga Menescal, o comerciante Manuel Negreiros e o engenheiro e músico Pedro Ciarlini, por exemplo. Mesmo quando, circunstancialmente, jogava bola ou brincava com meus primos e amigos, eu tinha a tendência para fazer das brincadeiras coisas sérias: organizava os torneios de futebol, montava “banco” de rótulos de carteira de cigarro, fabricava brinquedos para vender aos outros garotos. Hoje, olhando para trás e vendo a criança e o adolescente que fui, creio que o meu velho professor e amigo tem razão. Eu não sabia brincar, não via as coisas boas da vida, pois achava que tudo de bom estava ou acontecia somente nos livros. Eu devo ter sido um menino duro de se suportar.

Um dia meu padrasto, Xavier Vieira, que era funcionário do Bando do Brasil, foi transferido para Maceió e lá fui eu morar nas Alagoas. Lá comecei a escrever para jornais, fui apresentado às ideias socialistas, participei da campanha do “petróleo é nosso” e da luta do “manifesto de Estocolmo”, pela paz mundial. Se antes eu era serio de mais, desconfio que fiquei sisudo e, quem sabe, afastado de mais do lado ameno da vida.

Cinco anos depois, já com dezessete anos de idade, voltei para Mossoró. Fui trabalhar em O Mossoroense, do velho Lauro da Escóssia. Como em toda imprensa do interior, o salário era pago de forma irregular. Uma das várias maneiras era comprar nas empresas que anunciavam no jornal. Uma delas era a “Loja Seta, para Homens” (precursora da Riachuelo), de Moacir Melo Filho. Lá escolhi duas ou três camisas pretas, de tecido “balon”, que eram as mais caras.

Ai é que o Moacir entra na história. Com muito tato, mas sem deixar de dizer o que tinha vontade de dizer, ele, mais ou menos, disse-me que aquelas camisas eram as mais caras, mas não eram as que melhor serviam para mim. Que eu era sério de mais e a cor preta somente iria acentuar esse meu lado “sorumbático” e me afastar das pessoas, principalmente das moças; que eu deveria usar cores mais alegres, porém não agressivas. Escolheu outras camisas e deu-me um “new look” mais despojado, em matéria de vestuário. Disse e fez tudo isso com aquele seu jeito meio elétrico, falando frases sintéticas e fazendo gestos curtos e rápidos com as mãos.

Daí para frente tornei-me um dos amigos de Moacirsinho. Outra coisa que lhe deve: foi ele o responsável pela minha paixão – quase tara – por chocolate. Até então, para mim chocolate era apenas uma guloseima para crianças. Moacir fez a catequese: tabletes do “Diamante Negro”, bolas de “Sonho de Valsa” e de sorvetes, estas na Sorveteria Oásis, lá na praça do Cine Pax, antes das noitadas na ACDP, Clube Ipiranga, Bar Brahma, Copacabana ou no Casablanca, pois ambos éramos solteiros. E olha que ele nem gostava tanto assim de chocolate. “É para formar uma reserva de açúcar no sangue e evitar que o álcool suba para a cabeça” – dizia. Depois, com o dia já raiando, íamos lá para casa, onde minha mãe preparava um “caldo da caridade” para evitar a ressaca. Outra coisa: Moacir ensinou-me a gostar de piadas. Não as escrachadas e pornográficas, mas as que têm irreverências sutis e são engraçadas e espirituosas.

Depois de ambos termos casado, continuamos com a mesma amizade. Tínhamos os mesmo amigos, convivíamos nos mesmo ambientes e éramos sócios dos mesmos clubes (inclusive do Lions Club). Encontrávamo-nos em toda parte e frequentávamos a casa um do outro, a ponto de, quando pequenininho, um filho de Moacir e sua mulher, Concita, ser um “hospede quase permanente” lá em casa. A imagem que tenho dessa época é que ele vivia a vida com um olhar aguçado e um humor gracioso.

Eis que um dia começaram os problemas. Moacir estava cada dia mais sério. Alternava momentos de intensa participação na vida, como sempre fora, com outros de completo distanciamento. Foi ai que, mais uma vez, me afastei de Mossoró e fui viver em São Paulo. Trinta e poucos anos depois, retornei ao Estado e vim morar em Natal, onde Moacir estava também morando. Aqui me encontrei com ele poucas vezes. Ambos estávamos mudados, inclusive bem mais velhos e já éramos avôs. No mês passado recebi a noticia de sua morte. Tentei, várias vezes, escrever sobre meu amigo, mas nada saia que prestasse. Fazer o um panegírico, um louvor ao falecido? Não. Isso não seria falar sobre Moacir Melo Filho, o Moacirsinho. Prefiro falar sobre a pessoa que criou uma nova maneira de ser para mim, me ensinou a gostar de chocolate e a ser criança, mesmo que depois de adulto.