NEOLIBERALISMO; O QUE É ISSO?

Tomislav R. Femenick
Tribuna do Norte. Natal, 10 ago. 2008.
Gazeta do Oeste. Mossoró, 09 ago. 2008.

O termo globalização vem sendo usado com muita frequência nos últimos anos para caracterizar a expansão internacional do capital, da produção, da tecnologia, do consumo etc. O conceito, entretanto, é controverso e, muitas vezes, vem carregado de um forte conteúdo ideológico, a ponto de alguns estudiosos contestarem sua validade. Por isso vamos “ver” a assunto sob a ótica de três economistas ingleses.

Na verdade, a internacionalização do capital nada tem de recente. A rigor, vem sendo observado desde o último quartel do século XIX. No início do século passado, vários historiadores e economistas, entre eles o inglês John Hobson, sinalizaram o fim do capitalismo concorrencial e sua gradual substituição pelo sistema por eles classificado como “imperialismo”. Esta seria uma nova fase do capitalismo, baseada em grandes empresas transnacionais que exportariam capitais e instalariam unidades de produção em diversas regiões do globo, dando início ao que Lenin chamou de a “era do domínio dos monopólios sobre a economia”.

Embora não da forma catastrófica como prevista, a internacionalização capitalista ocorreu e continua evoluindo, a ponto de ter alcançado a dimensão “globalizante” de hoje. O fenômeno expressa uma formidável concentração e centralização do capital, cuja expansão exige a ampliação dos mercados que, há muito, não podem se realizar satisfatoriamente nos limites de uma só nação. Do ponto de vista ideológico, o velho liberalismo, sustentáculo teórico do capitalismo concorrencial, foi criticado e, de certo modo, demolido em seus principais pressupostos pelas ideias desenvolvidas por um outro economista inglês, John Maynard Keynes, durante os anos 30. Keynes preconizava uma forte intervenção do Estado na economia para conter o avanço das crises da economia capitalista – naquele instante o capitalismo vivia uma das suas crises cíclicas, que teve dimensão mundial e fora detonada pela grande depressão norte-americana. A intervenção que ele defendia já vinha sendo praticada nos Estados Unidos, através do New Deal, política aplicada pelo presidente Franklin D. Roosevelt. Foi ai que o velho liberalismo perdeu a sua força ideológica.

Caracterizando ou não uma globalização do processo produtivo, hoje, é visível a aceleração da marcha internacionalizante do capital, facilitada pelo desenvolvimento da informática e dos meios de comunicação. Fusões e aquisições bilionárias entre grandes conglomerados internacionais (inclusive algumas lideradas por empresas brasileiras) têm sido uma das principais marcas do desenvolvimento da economia capitalista nos últimos anos, impulsionando a integração dos mercados e a verticalização e mundialização da cadeia produtiva. Um relatório, elaborado pelas Nações Unidas sobre as empresas transnacionais, estima que elas controlam um terço dos ativos do setor produtivo privado mundial.

O valor de seus negócios, fora dos países de origem, alcança muitos trilhões de dólares, o que as transforma na maior força da economia mundial, maior do que o próprio comércio internacional que movimenta importância inferior. A globalização tem por marca a expansão das grandes corporações transnacionais que exercem um papel cada vez mais decisivo na economia mundial. Segundo pesquisa do Núcleo de Estudos Estratégicos da Universidade de São Paulo, há quinze anos que dez das maiores empresas do mundo (Mitsubishi, Mitsui, Itochi, Sumitomo, General Motors, Marubeni, Ford, Exxon, Nissho e Shell, aqui apresentadas não necessariamente na ordem de suas respectivas grandezas) obtêm faturamento maior que a soma dos PIB’s do Brasil, México, Argentina, Chile, Colômbia, Peru, Uruguai, Venezuela e Nova Zelândia.

Outro fenômeno é a globalização das bolsas de valores, inclusive nos países em desenvolvimento. Esse fenômeno traz em seu bojo uma irresistível e perigosa tentação à especulação e ao jogo, tendente a provocar graves desequilíbrios no sistema financeiro internacional como os que abalaram o México em 1994, a Ásia em 1997, a Rússia e o Brasil 1998 e o Brasil novamente em princípios de 1999.

Este é o cenário do neoliberalismo, constituído de um conjunto de iniciativas e medidas de política econômica sustentadas em ideias que ganharam força depois da Segunda Guerra Mundial na Europa e na América do Norte – principais centros do capitalismo -, daí se espalhando por todo o planeta. Um outro economista inglês (austríaco de nascimento), Friedrich August von Hayek, com seu livro “O caminho da servidão”, de 1944, passou a ser considerado um dos principais expoentes da doutrina que contradiz as ideias do Estado intervencionista e financiador do bem-estar social. Sua posição seria um contraponto ao keynesianismo, teoria que, como já vimos, floresceu paralela ao New Deal norte-americano e ganhou maior vulto precisamente no pós-guerra. Só mais tarde, o neoliberalismo transformar-se-ia em política econômica de Estado e, aos poucos, ganharia o mundo.