Nem sempre quem se diz honesto o é

vinheta172

Entre as inúmeras atividades que já exerci em meus anos de vida profissional, está a de diretor superintendente de uma cadeia de revendas de veículos Mercedes Benz e tratores Massey Ferguson, nos Estados de São Paulo e Goiás. Esse cargo atribuía-me a função de representar as empresas no Conselho de Ética da Associação Nacional dos Revendedores Massey Ferguson, que funcionava na capital paulistana, em um casarão da Rua Gabriel Monteiro da Silva, pertinho da Avenida Faria Lima e do Shopping Iguatemi. Lembro-me bem de dois dos componentes desse órgão, o senhor Moacir Trautwein, sócio principal das revendas de Cambará e Cornélio Procópio, no Paraná, e o Dr. Paulo, de Alagoas.

Nessa época as revendas autorizadas de veículos eram regulamentadas pela Lei 6.729, de novembro de 1979, que em seu artigo 5º estabelecia a reserva de mercado. Determinava que, se um revendedor efetuasse venda de veículo ou implementos novos a comprador domiciliado fora de sua área teria que pagar, ao concessionário da área considerada invadida, parte da margem de lucro, obtida com a venda. Imagine só. Se um cidadão morasse em Natal e tivesse uma propriedade rural que abrangesse os Municípios de Natal e Parnamirim, teoricamente teria que comprar dois tratores. Esse foi mais um dos tantos absurdos jurídicos do governo militar.

Como não poderia deixar de ser, as denúncias de invasão formavam o maior número de causas a serem julgadas pelo Conselho de Ética. Via de regra, a postura da quase totalidade dos conselheiros era apaziguar, fazer entendimento entre as partes. Somente o Dr. Paulo era intransigente. Seu argumento era que se uma revenda invadisse a áreas de outro, teria que pagar à revenda que teve a sua área invadida. Dizia mais. Dizia que não concordava com a Lei, mais ela tinha que ser cumprida, até que fosse alterada ou que tivéssemos uma lei nova. De vez em quando havia um processo contra a revenda que um dos conselheiros representava. Como era normal, considerávamo-nos impedidos de julgar e chamávamos um conselheiro substituto.

Pois muito bem. Um dia apareceu um processo contra a empresa do Dr. Paulo. O conselheiro substituto já estava se aproximando para assumir o lugar do alagoano quando esse se negou a julgar-se impedido. Não houve argumentos nossos que o fizesse mudar de ideia. Dizia apenas: “esperem meu voto”. O desfecho foi o mais inesperado. O Dr. Paulo votou contra a sua empresa, dizendo que Lei é Lei e, portanto, deve ser obedecida, seja ela, a Lei, justa ou não.

Terminada a reunião, fui almoçar com o senhor Moacir Trautwein. Eu, como sempre, acreditando no bom propósito das pessoas, comentei:

– Puxa, que demonstração de honestidade.

Ele guardou alguns minutos de silêncio e respondeu:

– Nunca acreditei em moça recatada demais, em crente carola ou em pessoa que se proclama mais honesta que as outras.

O senhor Moacir sempre foi um homem honesto, disso sou testemunha. O Dr. Paulo, era o Paulo César Farias que, anos depois, se revelou ser o célebre P. C. Farias tesoureiro do Collor, envolvido em mil e uma violações da Lei.

Esse fato me veio à lembrança agora quando um turbilhão de maracutaias atinge em cheio o Partido dos Trabalhadores e Lula, o seu presidente de honra. O PT e Lula sempre se apregoaram como sendo o partido e o homem impolutos, virtuosos, defensores da moral e da honestidade.

O senhor Moacir Trautwein, se vivo fosse, continuaria tendo razão.