Não há salvadores da pátria

vinheta172Mestre em economia, com extensão em sociologia e história

Depois da queda do Estado Novo e do ditador Getulio, voltamos a ser uma democracia e a nos ufanar por sermos brasileiros. De sermos filhos de um país cheio de verdes florestas; que possuía riquezas minerais, representadas pelo amarelo ouro; de ter um céu límpido e azul; de vivermos em paz e almejarmos o progresso, que um dia viria. Como era bom sermos de uma nação de felizes mestiços, de gente alegre e faceira. Era bom e tínhamos orgulho de sermos brasileiros.

Tínhamos problemas? Sim. Havia miséria, nossas taxas de pobreza, de analfabetismo e de distribuição da renda eram infames… mas tínhamos esperança e as coisas apontavam para mudanças, que certamente viriam, mesmo com a crise criada com o suicídio de Vargas. Nos anos 1950 vimos, de uma hora para outra, a criação da Petrobras, máquinas cortando as florestas e abrindo estradas, a instalação da indústria automobilística, a construção de Brasília e, como ela, a interiorização da população que até então, tal como caranguejos, só sabia viver nas regiões de praia. Seguindo as fábricas de automóveis e caminhões, veio a expansão da indústria metal-mecânica, suportada pelo suprimento da eletricidade produzida pelas primeiras grandes hidroelétricas.

Estávamos resolvendo os problemas com o crescimento econômico, com a ampliação da educação formal, com a criação de institutos profissionalizantes e com as universidades. Isso tudo nos dava esperanças redobradas. Éramos uma democracia e estávamos nos fortalecendo economicamente.

Todavia, uma parcela da população queria mais e elegemos o primeiro de uma série de salvadores da pátria. Deu no que deu. Durante um porre ele, o ungido, desejou ser um ditador e apresentou pedido de demissão. A brincadeira (pois o pedido era uma brincadeirinha) foi levada a sério e caímos na primeira crise verdadeiramente séria. No rastro vieram Jango, o golpe e o regime militar. Voltamos a crescer, mas já não éramos uma democracia. De lá para cá é história recente. Todo mundo sabe: a eleição e trágica morte de Tancredo Neves; a tragédia que foi o governo Sarney; Collor, o falso salvador da pátria; Itamar Franco, o amoral e seus faniquitos; até que chegamos ao governo FHC, uma pausa no lamaçal (pode-se dizer que o governo de FHC teve inicio com o plano Real, ainda no tempo de Itamar). A inflação galopante e a correção monetária foram mortas com um só tiro, embora tenhamos sido atingidos, por tabela, pelas crises do México, da Argentina, da Rússia, dos tigres asiáticos.

Ai, o PT finalmente chegou ao poder, com o salvador da vez. Lula, o feroz operário do ABC paulista, aparou a barba antes desgrenhada, penteou o cabelo antes sempre assanhado, trocou a calça de mescla e camisa branca por um terno bem talhado e assinou uma carta ao povo brasileiro, prometendo paz e amor. Para melhorar ainda mais, o mundo estava ávido pelos nossas matérias-primas e as exportações geravam renda e emprego. Era quase um milagre. O futuro estava chegando. Melhor, ainda, estava chegando com o PAC, uma real distribuição de renda, ampliação do ensino e “outra cositas mais”. Era um sonho maravilhoso, ao qual Dilma iria dar sequência.

O problema foi quando acordamos. Por baixo do pano o sonho era, na verdade, um pesadelo cheio de bichos papões: o mensalão, o petrolão e os enredos do BNDES, que agora estão aparecendo, com os financiamentos amigos (mais somente para os íntimos). Isso tudo com a cooptação dos antigos inimigos políticos e ideológicos: partidos de direita e empresários exploradores da classe operária. Para isso valeu tudo, inclusive financiar países com ditaduras da esquerda (Cuba, Angola etc.) e da direita (Zimbábue, Congo, Gabão etc.), além dos hermanos bolivarianos (Venezuela, Bolívia, Equador). Isso para não falar na desorganização total do país com pedaladas fiscais, choque entre os poderes, aparelhamento da justiça etc.

Mesmo com todos esses exemplos não aprendemos a lição, pois agora aparecem no horizonte novos salvadores da pátria. Há idólatras para todos os gostos. Há os que querem a volta dos militares (graça a Deus eles mesmo não querem), os que aclamam Bolsonaro, os que querem Joaquim Barbosa, os adeptos de Ciro Gomes, os partidários de Marina Silva. Para mim Bolsonaro, Barbosa e Ciro são boquirrotos e antidemocráticos; Marina é uma “Maria vai com as outras”. Todos falam não o que é melhor para o Brasil, mas o que a massa quer ouvir. Já a volta de Lula não é caso de política, é caso de polícia. E o Aécio? Só Jesus ressuscitou.

 Tribuna do Norte. Natal, 12 jul. 2017.