Morreu e não sabia

Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje. Natal, 30 abr. 2007.
Metropolitano. Parnamirim, 11 maio 2007.
Tribuna do Norte. Natal, 22 dez. 2005.
O Mossoroense. Mossoró, 22 dez. 2005.

A maternidade onde ele nasceu, a igreja onde foi batizado, a casa onde viveu a sua infância e o colégio onde estudou até o segundo grau não existem mais. Os prédios da maternidade e da escola, que ficavam próximos, foram demolidos para dar lugar a um viaduto por onde passa um grande fluxo de veículos que vão e que saem do centro da cidade. Onde era a casa de seus pais agora é um estacionamento para os veículos dos executivos, funcionários e clientes de um shopping center. Onde estava a igreja, agora se ergue um edifício de dezoito andares. Para complicar mais ainda, o cartório onde foi registrado ao nascer, foi extinto e seus livros transferidos para um outro.

Como era filho único e seus pais tinham morrido, praticamente não tinha família por acedência. Sabia somente que tinha dois tios, mas não os conhecia – um morava lá para as bandas do Acre e o outro, dizem, foi morar na Austrália há cerca de trinta anos. Não tinha notícias de nenhum deles. A sua mulher, que sempre foi muito independente, o havia abandonado há alguns anos atrás, dizendo que viver com ele era ter uma vida em preto e branco, cheia de rotinas e sem nenhum colorido. Logo casou com um professor de matemática, de quem teve dois filhos. Amigos, não tem; só os colegas do laboratório de análise clínica, onde ele trabalha como técnico – passa o dia fazendo exames de sangue, urina e fezes.

Como não era religioso, não tivera maiores estudos sobre filosofia e matérias afins e não era chagado a ocultismo, nunca tinha pensado na sua razão de viver, até o dia em que ouviu no rádio do carro um convite para uma conferência que iria se realizar no parque central da cidade sobre “A vida e nós”. Foi lá e descobriu que a vida não tinha nada com ele, pois não lhe dava nenhuma razão para viver. Ao contrário, era monótona, chata e repetitiva. Não recebia nada de ninguém e não dava nada a ninguém. O único ser que um dia dependeu totalmente dele foi um peixe de aquário. Mas, certa vez, ele se esqueceu de lhe dá comida e o peixinho morreu de fome.

Um dia viu na televisão um documentário sobre o existencialismo. Entendeu pouco, quase nada, mas achou que ali estava a explicação de sua vida. Foi ver no dicionário o que era existencialismo, para saber melhor: “Existencialismo: substantivo masculino. Conjunto de sistemas e tendências filosóficas que tomam como ponto de partida e objeto principal da reflexão o modo de ser próprio do homem na sua concretude individual, singular e solitária”. Ainda não foi dessa vez que entendeu. Consultou uma enciclopédia: “Existencialismo: Doutrinas filosóficas baseadas na ideia de que a existência concreta do ser antecede e define a sua essência”. Continuou sem entender. Resolveu então procurar na Internet. Em um site de busca encontrou cerca de 51.000 páginas (em português) sobre o assunto. Leu algumas e chegou a conclusão de que, se lhe era difícil entender a própria existência, mais difícil ainda era entendê-la por meio do existencialismo. Nunca mais quis saber de nada disse.

Certo dia sua ex-mulher foi lhe procurar no trabalho e lhe disse que iria denunciá-lo à policia por ter simulado a própria morte. Respondeu dizendo que não estava entendendo nada. Ela lhe explicou: o seu segundo marido morreu e só deixou dívidas. Então pensou em lhe pedir pensão alimentícia. Mais seu registro de nascimento no cartório e suas inscrição no CPF, RG, INSS, FGTS e PIS estavam todos cancelados, pois ele teria morrido há dois meses.