METIDO A BESTA

Tomislav R. Femenick
O Jornal de HojeNatal, 02 jul. 2007.
O Mossoroense. Mossoró, 05 jul. 2007.
Metropolitano. Parnamirim, 13 jul. 2007.

Severino, como tantos Silvas, teve várias profissões. Foi engraxate, carregador de caminhões, ajudante de pedreiro, lavador de pratos em restaurantes, ajudante de garçom e garçom. Trabalhou como bilheteiro e porteiro de circos, vendedor de sapatos numa loja e montador de móveis. Um dia, sem emprego, arranjou um bico temporário: foi vender cavaco chinês. Ai encontrou sua vocação; nasceu para aquilo. Com o triângulo de ferro na mão e o tubo de folha-de-flandres nas costas, saía pelas ruas da cidade vendendo a guloseima às crianças e aos adultos. Foi há uns quarenta e tantos anos atrás. O seu toque era forte – se ouvia de longe – e o seu ritmo era cadenciado: sete “tilintins” seguidos, uma parada curta, e duas batidas longas; uma com a mão que segurava o triângulo aberta, “tim”, e outra com a mão fechada, “tão”.

Logo se estabeleceu no ramo. Ele mesmo fabricava os cavacos chineses e formou freguesia fixa, principalmente nas portas dos colégios e nas ruas das famílias mais abastadas. Em uma dessas casas, conheceu a moça com quem mais tarde se casaria. Prima pobre de uma família de classe média, ela veio do interior para ajudar nos serviços da casa, pois seu Alberto, funcionário público, foi transferido para a capital. O casamento, realizado na casa dos primos da noiva, foi uma festa simples, muito simples. Um bolo, alguns guaranás e um litro de cidra para o brinde.

Um ano depois, nas dores do parto, nasceu Robert e morreu sua mãe. Uma cunhada veio ajudar a criar a criança. Porém, a partir de quatro anos o menino foi criado somente pelo pai. Nunca estudou em escola de governo. Desde pequenininho foi aluno de um colégio particular, de cujos donos seu Severino era amigo, pois fazia ponto na porta da escola vendendo o seu produto, na hora da saída da criançada. O garoto mostrou-se estudioso e tirava boas notas. Quando entrou na universidade, ganhou um fusquinha, comprado pelo sei pai, com ajuda do primo Alberto, seu padrinho.

Na universidade começaram as transformações. Primeiro deixou de assinar Silva. “Nome de tudo que é gente pobre” – dizia. Assinava somente Robert (nome escolhido pela madrinha) Cardoso (sobrenome da mãe). Apesar de morar com seu pai perto da universidade, nunca levou nenhum colega para estudar em sua casa. Casa de classe média pobre, mas com todos os trecos da vida moderna, inclusive um computador. Distanciou-se mais ainda do pai quando começou a namorar uma colega de turma, filha de um comerciante rico. Tanto na festa de formatura como a do casamento, seu Severino fez papel de figurante, assistindo tudo de longe, sem participar de nada. Nem foi informado do batizado do neto. Foi ver porque soube por intermédio da babá.

Viver estava ficando difícil para o fazedor de cavaco chinês. Os preços da farinha de trigo e do açúcar subiam dia-a-dia, isso para não falar na banha de porco – seu Severino não queria nem ouvir falar de óleo de soja ou de outra coisa qualquer. Antigamente preparava quase 20 quilos de massa por dia, com que fazia e vendia 500 cavacos. Hoje nem 10 quilos de massa e nem 250 cavacos chineses. Ainda bem que o filho arranjou um emprego no governo e está ganhando muito bem e não precisa de nenhuma ajuda do pai. Mas, mesmo assim, de vez em quando tem que retirar de suas reservas algum trocado para inteirar a conta da luz, da água ou do telefone. Isso para não falar do IPTU, que todo ano sangra a sua Caderneta de Poupança.

Dia desse, agora há poucos dias, seu Severino Silva recebeu uma visita inesperada. Pela primeira vez sua nora ultrapassou a soleira da porta da entrada de sua residência. Vinha pedir um favor simples: queria que ele, de vez em quando, levasse cavaco chinês para ela e para o filho, o seu neto. “Lá em casa, vaidoso e pretensioso só tem o meu marido. Eu adoro o seu cavaco chinês que, quando criança, comprava quando saía do colégio das freiras. Além do mais, gosto muito do senhor. Com meu pai aprendi a lhe respeitar. Sempre que ele quer citar um exemplo de força de vontade, honra e honestidade, cita o seu nome. Não se preocupe. Um dia a gente muda seu filho. Aquela pose de jogador de tênis e entendedor de vinhos, aquela mania de se dar muita importância e fumar cachimbo (ele nem gosta) não engana ninguém. Tudo é puro esnobismo bobo. Ele só quer esconder que nasceu pobre, coisa que todo mundo sabe e de que ele devia se orgulhar. Pura bobagem”.

Moral da história: tem gente que é besta por vocação, mestrado, doutorado e pós-doutorado, mas não por herança. Eu conheço muitos deles.