Maximização da Utilização dos Ativos Permanentes das Empresas

Tomislav R. Femenick e Terezinha Otaviana Dantas da Costa 
Revista Unibero. São Paulo, Ano II, nº 5, mar. 1997 


Como início da abordagem do tema “Maximização da Utilização dos Ativos Permanentes das Empresas Industriais”, devemos considerar a definição de alguns determinantes básicos para se constituir um empreendimento. São eles: o que é uma empresa e quais são seus objetivos, bem como é que se dá a organização desse complexo, na tarefa de se atingir os resultados esperados.

Partimos do início. Podemos definir a empresa como uma organização cuja finalidade é atingir objetivos próprios e identificáveis. Para atingir esses objetivos é necessário a utilização de um conjunto de normas, funções e princípios (a “função empresarial” ou simplesmente a “administração”), que têm por finalidade ordenar e controlar o sistema produtivo, de forma que se possa atingir determinados resultados.

Embora cada empresa tenha a sua “personalidade” e suas características próprias, tenha a sua individualidade que vai do caráter jurídico-contábil até a própria maneira de agir e gerir as suas várias atividades, elas fazem parte da sociedade como um todo, sociedade essa que assume caráter múltiplo, em âmbitos diferentes, em regiões diferentes, em épocas diferentes. Em outras palavras: a empresa sofre ingerências que lhes são externas, ingerências essas que podem até modificar ou mesmo determinar seus rumos e comportamento.

É nesse contexto que temos que analisar a empresa hoje, no tempo da globalização da economia, um processo que vem derrubando as fronteiras dos países, dando liberdade ao trânsito de capitais, tecnologias e produtos. O nacionalismo econômico, as reservas de mercado, o medo da concorrência são coisas que atualmente são como que notas dissonantes no concerto dos novos tempos.

Na América Latina, e especialmente no Brasil, o cenário econômico predominante vinha sendo aquele resultante da “substituição das importações”, recomendado por alguns pensadores da CEPAL – Comissão Econômica Para a América Latina. Essa fase do desenvolvimento nacional foi resultado de um processo que teve por base um modelo que limitou-se a alterar as estruturas produtivas da indústria (e algumas atividades a ela ligada), sem expandir essa alteração ao setor primário, isto é, à agricultura, à pecuária, por exemplo. Esses “novos setores dinâmicos aparecem e se expandem no âmbito restrito dos mercados nacionais, o que determina o caráter ‘fechado’ do novo modelo” (Tavares, 1981: 35). Isto quer dizer que a sustentação desse tipo de empresas industriais dava-se por uma série de privilégios, tais como incentivos fiscais, oferta de áreas industriais com preços subsidiados e, principalmente, com a reserva do mercado nacional para os produtos fabricados por essa indústrias, não importando sua qualidade, sua tecnologia e seu preço.

Do recente passado para o presente, houve uma brusca mudança de comportamento, resultando para a economia brasileira um momento em que as empresas industriais têm que vencer um múltiplo e decisivo desafio: superar a defasagem tecnológica de métodos produtivos e de produtos finais, que sofrem em relação ao nível internacional, e ao mesmo tempo enfrentar a concorrência dos produtos importados no mercado interno. A superação desses problemas será determinante para a sobrevivência de algumas empresas de porte grande e médio, muitas delas administradas de forma não profissional e sem se preocuparem com coisas como “retorno do capital”, “produtividade”, “rentabilidade” etc., para não falar em “competitividade”, “qualidade” e outros que tais.

Casos recentes, amplamente divulgados pela imprensa especializada, chegam ao conhecimento público. Uma tradicional empresa do ramo de brinquedos, a líder do setor no Brasil durante muitos anos, a Brinquedos Estrela, deixou de ser principalmente fabricante para se transformar em importadora. Os controladores da Prosdócimo (que até bem pouco tempo centravam sua propaganda no fato de seus produtos trazerem o nome do dono) tiveram que vender sua posição majoritária para uma multinacional do setor. A Perdigão, muito embora tenha tido uma solução interna, nacional, teve o seu controle assumido por um “pool” de fundos de pensão.

Quais as causas, e quais as soluções para esses problemas?

O ATO DE PRODUZIR

O crescimento das nações, o seu desenvolvimento econômico, é medido pela sua capacidade de transformar fatores de produção (insumos) em bens e serviços finais, tanto de consumo como de capital. É a atividade de produzir que dá a dimensão de todo o sistema econômico, pois nela é que nascem tanto o Produto Nacional quanto a Renda Nacional, originados e ao mesmo tempo originando o Valor Agregado (Dowsley, l989: l57).

Muito embora esse resultado tenha caráter social, ou seja, tenha seu reflexo na sociedade como um todo, a decisão de produzir é endógena às empresas. É o empresário, de forma singular, quem toma a decisão de aplicar recursos que se transformarão em Ativos Permanentes; em prédios, máquinas, equipamentos técnicos e etc.

Se tomarmos uma empresa individualmente, nela encontraremos todo um subsistema que reproduz o sistema econômico geral: a empresa usa matérias-primas e outros insumos, transformando-os em bens finais de consumo ou de capital, porém com um valor diferenciado para mais do que o valor de todos os insumos utilizados no processo produtivo.

Entretanto, para produzir as empresas necessitam de alguns requisitos básicos, tais como máquinas, equipamentos etc., ou seja, precisam de uma estrutura de processo, bem como de uma outra, a estrutura comercial.
Se a primeira fornecerá os meios para produzir (máquinas, equipamentos), a segunda lhe dará com o que produzir (condições de realizar alguns desembolsos com mão-de-obra, matéria-prima).

No caso específico das empresas industriais, objeto de nosso estudo, a decisão de produzir implica em alto nível de imobilização de recursos próprios e de terceiros. Analisando esse aspecto da atividade empresarial, Eliseu Martins e Alexandre Assaf Neto concluem que “a decisão de investimento envolve a elaboração, avaliação e seleção de propostas (alternativas) de aplicação de capital efetuadas com o objetivo (…) de produzir determinado retorno aos proprietários dos ativos. (…) Podem ser identificadas várias decisões empresariais que se incorporam a um processo empresarial de investimento de capital, podendo-se citar, entre outras, as decisões de substituição de ativos fixos, de ampliação da capacidade produtiva, de lançamento de novos produtos etc. É importante assinalar, ainda, que o enfoque principal de todo estudo a ser desenvolvido está voltado para empresas que visem lucro…” (Martins, Assaf Neto, 1994: 412).

Se procurarmos explicitar o texto dos autores citados, chegaremos a conclusão de que não há investimento, não há ativo permanente que não tenha sido originado de uma necessidade detectada pela empresa de se atualizar e de crescer. Porém o âmago, o centro e determinante do que, quanto e quando investir sempre é o lucro que essa tomada de decisão poderá proporcionar diretamente aos investidores, muito embora também possa gerar ganhos a outros detentores de fatores de produção – trabalho, recursos naturais, tecnologia e capital financeiro.

Por outro lado, são os ativos permanentes os ativos rentáveis da empresa, pois que são eles os criadores primeiros da renda, o meio pelo qual é adicionado valor aos insumos, no processo em que esses são transformados em produtos.

O INVESTIMENTO E A RENDA

Falando sobre os investimentos de capital, Keynes diz: “Quando um indivíduo obtém um in
vestimento ou um bem de capital, adquire o direito ao fluxo de rendas que espera obter da venda de seus produtos, enquanto durar o capital, feita a dedução das despesas correntes necessárias à obtenção dos ditos produtos. Convém chamar a essa série de anuidades Q1 Q2 Qn renda esperada do investimento. Em contrapartida com a renda esperado do investimento, temos o preço de oferta do bem de capital (…), isto é, aquilo a que, por vezes, se chama de preço de reposição. A relação entre a renda espera de um bem de capital e o seu preço de oferta ou custo de reposição, isto é, a relação entre a renda esperada de uma unidade adicional daquele tipo de capital e seu custo de produção, dá-nos a eficiência marginal do capital desse tipo. (…) O investimento vai variar até aquele ponto da curva de demanda de investimento em que a eficiência marginal do capital em geral é igual ã taxa de juros do mercado” (Keneys, 1982: 115-116).

Procurando melhor entender o posicionamento de Lord Keynes, chegamos a conclusão de que o que estimula a aquisição de bens de capital é, na realidade, a relação que contrapõe, confronta, o valor da inversão em suas várias etapas de oportunidade, o valor do rendimento esperado e o valor de outras oportunidades de renda com o mesmo capital.

Se sairmos da âmbito da empresa e analisarmos os investimentos de uma maneira geral, pluralizados, como acontecem na sociedade, veremos que a alocação dos recursos disponíveis é resultante do preço expresso em termos de rendimentos esperados. Isto porque os investimentos nada mais são do que o emprego da poupança da sociedade (renda não consumida), oferecida no mercado de fatores. As empresas interessadas nesses recursos oferecem níveis de retorno que são analisados pelos detentores da poupança, levando em consideração vários fatores, tais como liquidez, segurança do bom retorno (quando se trata de aplicações financeiras) e, por último porém principalmente, o montante da taxa de remuneração. Sabemos que esse processo sofre interferências de ou
tras ordens: níveis de recursos disponíveis, restrições ou incentivos governa-mentais ou institucionais etc. Entretanto, será sempre o rendimento considerado ótimo, em determinadas circunstâncias, o indicador básico para a tomada de decisão; será o mecanismo de oferta e da procura de recursos o determinante do fluxo dos investimentos.

Se nos alongarmos mais um pouco no estudo das origens das inversões em equipamentos e meios de produção, veremos que, ao se decidirem por um investimento qualquer, as empresas quando têm um desembolso de recursos monetários no tempo presente, esperam um beneficio futuro (Horne, 1982: 24 a 214), que se iguale aos benefícios médios do mercado, em termos de tempo e volume.
Assim sendo, e pela simples lógica que norteia a própria existência das empresas, o Ativo Permanente, e principalmente o Ativo Imobilizado, tem por fim último a produção de mercadorias que produzam um certo grau de rentabilidade, de forma que remunerem adequadamente o capital empregado na sua instalação. Quanto mais alto seja o nível dessa remuneração, mais justificado será o investimento em capital produtivo.

PRODUZINDO A RENDA

O resumo das posições até aqui apresentadas resultaria na seguinte proposição: a empresa é uma entidade que tem por finalidade agregar valor aos fatores de produção; os investimentos em meios produtivos são balizados pela perspectivas de remuneração; a remuneração dos investimentos tem que atender a expectativa dos investidores; o mercado de oferta e procura do capital financeiro é o instrumento regulador das taxas de remuneração desse capital; portanto os investimentos são normalmente encaminhados para as atividades que melhor apresentem perspectiva de renda, claro que observadas algumas condições de oportunidade, grandeza dos investimentos, ocasião da disponibilidade dos recursos, etc.

É dentro dessas condições que identificamos um dado Ativo Permanente, em uma determinada empresa industrial, para estudarmos o seu nível ótimo de utilização.

Se fizermo
s um modelo abstrato simplificado de uma empresa industrial, termos algo se assemelharia ao seguinte sistema (Campos, 1992: 2-5):

Insumos -> [EMPRESA] -> Produto

É função da administração da empresa fazer com que esse sistema funcione com a maior utilização dos meios de produção, conseguindo o melhor nível de produção e produtividade. Por nível de produção entendemos a simples mensuração do volume, em um período de tempo. Por produtividade entendemos produzir cada vez mais e melhor, em cada vez menos tempo.

Ultrapassada essa etapa com êxito, a administração deve cuidar para que seja resultado do processo produtivo uma agregação expressiva de valor, que será representada pelo valor obtido pelo produto final da empresa. Esse valor será evidenciado pela relação “produto x qualidade x interesse da sociedade”. Quanto maior o valor do produto, maior poderá ser o seu preço de mercado. Quando menor for o custo que a empresa tiver na tarefa de agregar valor, maior poderá ser a sua taxa de valor agregado. Senão vejamos:

Produtividade = Valor dos Produtos / Valor dos Insumos = Taxa de Valor agregado

Como o “valor dos produtos” é resultado direto da “qualidade” que a sociedade atribui a esse mesmo produto para atender às suas necessidades básicas ou sociais e, também, como o “valor dos insumos” é entendido pela empresa como o “custo” dos componentes usados para a obtenção do produto, podemos simplificar essa equação, apresentando-a como:

Produtividade = Qualidade / Custos

Como a qualidade do produto gera produtividade (produtos com maior qualidade e preços compatíveis são mais procurados pelo público) que, por sua vez, se expressa no resultado das vendas do produto, então podemos substituir o termo “qualidade” por “faturamento”. Agora temos uma nova forma de apresentar a mesma equação, com elementos mais visuais da realidade direta:

Produtividade = Faturamento / Custos

A proposta de incluir a participação do mercado em um concei
to de produtividade, justifica-se quando se entende o faturamento como resultado da qualidade, esta última entendida como uma cadeia de características (dos produtos) que atendem às necessidades da sociedade. Uma maior presença de determinado produto no mercado indica uma maior aceitação do mercado a esse produto, aceitação que resulta de um encontro de expectativas entre a oferta e a demanda daquelas características. Como conseqüência temos o faturamento, resultante da qualidade.

MAXIMIZANDO A UTILIZAÇÃO DOS ATIVOS PERMANENTES

Segundo Gitman, “espera-se que uma empresa industrial possa ganhar mais com seus ativos permanentes do que com seus ativos circulantes.(…) Se a empresa pode ganhar mais dinheiro comprando estoque do que produzindo-o, ou investindo seu dinheiro em títulos negociáveis, não deveria estar no ramo industrial. Em outras palavras, caso uma empresa não possa obter mais nos investimentos em ativo permanente do que nos investimentos em ativos circulantes, deve vender todos os seus ativos permanentes e usar os proventos para adquirir ativos circulantes” (Gitman, l987: 284).

Interpretamos como correta a argumentação do autor que, em síntese, recomenda que uma empresa industrial somente deva permanecer como tal até quando seus ganhos com a atividade industrial supere os ganhos oriundos de outras fontes. Essa é uma lógica empresarial.

Entretanto, a nosso ver, nas empresas do setor secundário não basta que o faturamento industrial seja maior, em volume ou em termos de retorno do capital aplicado, do que as receitas advindas de atividades não industriais. O âmago da questão industrial é maximizar o uso do parque fabril.

Contrário ao que pode parecer, a maximização da utilização dos ativos fixos não representam o uso intensivo, por mais tempo seguido, das máquinas e equipamentos das empresas industriais. Representa o emprego desses itens, de forma racional e a níveis ótimos. Podemos dizer que é fazer com que os ativos permanentes produzam mais, por mais tempo,
com a melhor equação de isoquantas e isocustos, para uma mesma quantidade padrão, de um produto definido.

Para que isso aconteça, é necessária a observação de alguns comportamentos gerenciais básicos, a saber:

1. Continuamente, o parque fabril deve ser objeto de atualização tecnológica, observados parâmetros sustentáveis de substituições.
2. As máquinas e equipamentos técnicos devem dispor sempre de manutenção preventiva, realizadas com intervalo de tempo certo e sem solução de continuidade.
3. Os estoques devem conter peças de reposição de segurança e aquelas que, historicamente, sofrem mais desgastes.
4. A operação de máquinas e equipamento deve ser efetuada por pessoas com preparo e habilidade suficientes ao seu manejo.
5. O produto fabricado deve atender às expectativas de qualidade da sociedade, enquadrando-se em suas necessidades de consumo.
6. Os insumos processados devem compor o quadro de qualidade do produto.
7. O custo dos insumos devem oferecer oportunidade de elasticidade na taxa de valor agregado.
8. A flexibilidade do sistema produtivo deve ser bastante para absorver novos insumos e oferecer novos produtos, dentro de uma mesma linha.

O INVESTIR E O PRODUZIR

Na indústria o investir e o produzir são duas faces, porém uma mesma moeda. Se as inversões de capital em Ativos Permanentes somente ocorrem como resultado de expectativa de rendimentos a bom nível; se o embasamento das expectativas tiver sido realizado de forma correta e não tiver havido interferências exógenas, então somente por má gestão é que poderá haver frustração das expectativas.

Principalmente causas externas têm sido os motivos das dificuldades da indústria brasileiro, no presente momento: a concorrência de alguns produtos em situações desleais, produção externa em escala competitiva e nacional em quantidades ainda não concorrencial, os altos níveis tributários nacionais, as altas taxas de juros etc. Entretanto, há que se destacar os seus problemas intrínsecos: defasagem tecn
ológica, despreocupação com os custos diretos e indiretos, desprezo com a qualidade, pouco senso de oportunidade, falta de agressividade empresarial, baixo nível de aplicação de recursos em pesquisas tecnológicas (atribui-se essa responsabilidade somente ao governo), gerenciamento amadorísticos, etc.

Esse não é o quadro de todas as empresas industriais do país, muito embora, lamentavelmente, seja o quadro marcante. Há que se mudar e é na necessidade que se inove. Ora, a crise que já atinge alguns setores industriais tem servido justamente para criar preocupações, que têm resultado em interesses por novos comportamentos empresariais, direcionando a atenção dos empresários da indústria para o comportamento gerêncial.

Será que estamos no início de um novo tempo, em que investir e produzir seguem a mesma expectativa?

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CAMPOS, Vicente Falconi. Controle da qualidade total (no estilo japonês). 2ª Edição. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais/Fundação Christiano Ottoni. 1992. Páginas 2 a 5.
GITMAN, Lawrence J. Princípios de administração financeira. 3ª Edição. São Paulo: Harbra. 1987.
HORNE, James C. Van. Fundamentos da administração financeira. 5ª Edição. Rio de Janeiro: Prentice-Hall do Brasil. 1984.
KENEYS, John Maynar. A teoria geral do emprego, do juro e da moeda. 1ª Edição. São Paulo: Atlas. l982.
MARTINS, Eliseu e Assaf Neto, Alexandre. Administração financeira: as empresas sob condições inflacionarias. 1ª Edição, 8ª impressão. São Paulo: Atlas. 1992.
TAVARES, Maria da Conceição. Da Substituição de importações ao capitalismo financeiro. 9ª Edição. Rio de Janeiro: Zahar. l981.
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* Terezinha Otaviana Dantas da Costa, Doutora em Administração de Empresas, pela Universidade Mackenzie de São Paulo e ex-Proreitora do Centro IUniversitário bero-Americano.