Luiz Mota; o Cidadão, Padre e Prefeito

Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje. Natal, 24 set. 2007.
O Mossoroense. Mossoró, 27 ago. 2006.

No próximo domingo, dia 30 de setembro, a data maior da cidade de Mossoró, lançarei o meu mais novo livro: “Padre Mota”, uma edição da Fundação José Augusto, por iniciativa do seu presidente, o meu amigo Crispiniano Neto. Será na Seção Magna a ser realizada na Loja Maçônica 24 de Junho. No dia dez de outubro, será o lançamento em Natal, que terá lugar na Assembleia Legislativa do Estado, pois o biografado, Monsenhor Luiz Ferreira Cunha da Mota, também foi deputado estadual.

O Padre Mota foi uma das figuras mais emblemáticas da história de Mossoró, do Oeste e do Rio Grande do Norte. Emblemático por suas qualidades: determinação, seriedade, honradez, humildade, probidade, coragem, obediência e grande senso de humor. Determinação, quando resolveu ser padre e se ordenar pelo Colégio Pio Latino-Americano de Roma e, para isso, aprendeu latim em somente dois meses. Determinação, ainda, quando tomou a peito a fundação da Diocese de Mossoró. Honradez, por não aceitar o convite do interventor do Estado para continuar à frente da Prefeitura de sua cidade, quando seu mandato, conquistado nas eleições de 1936, foi cassado pelo Estado Novo. Humildade, quando aceitou continuar prefeito, a pedido de seus amigos e do então Bispo de Mossoró, Dom Jaime de Barros Câmara. Probidade, porque sempre soube defender os bens públicos sem deixar manchar, macular ou infamar as suas mãos com o dinheiro do povo. Coragem, ao enfrentar as hordas de Lampião, participando de uma das trincheiras montadas para defender a cidade. Obediência, por renunciar ao cargo de Prefeito, atendendo a um pedido do seu Bispo. Senso de humor, porque sabia que “Deus não é triste”.

Entretanto, a história dessa grande figura humana, desse grande potiguar, tem sido negligenciada. Poucas, muito poucas mesmo, têm sido as homenagens que sua terra fez em sua memória. Nenhuma delas – o nome de uma via pública em Mossoró, sem destaque, ou uma escola pública, sem nenhuma ligação com a sua biografia – reflete a grandeza e a importância que esse homem teve para a construção da identidade mossoroense. A verdade é que até conspurcaram sua memória. O belo espetáculo público “Chuva de bala no país de Mossoró” tem uma mancha: transformou o Padre Mota em uma figura caricata, grosseira, desbocada e até pornográfica. O Padre corajoso que, de arma em punho, defendeu os mossoroenses é apresentado como um personagem picaresco, burlesco, cômico e ridículo.

Incentivado pelos familiares do Monsenhor Mota é que tomei a sério a tarefa de escrever a sua biografia. Se por um lado foi fácil contar a história do Padre, do homem público e do cidadão Luiz Ferreira Cunha da Mota; por outro, a minha grande dificuldade foi me abster da condição de seu sobrinho. Dificuldade porque convivi intensa e duradouramente com ele.

Com nove ou dez anos, mexendo e remexendo nos seus livros, li as primeiras poesias. O contato causou-me espanto. Afinal, que linguagem era aquela, cheia de rodeios, usando palavras incomuns e complicadas, com uma sonoridade e um ritmo diferentes? Umas falavam sobre o amor e coisas belas; outras sobre a dor e o desespero e outras mais sobre fatos e feitos gloriosos. “Marilia de Dirceu”, de Tomás Antonio Gonzaga, “Eu e outras poesias”, de Augusto dos Anjos, e os “Lusíadas”, de Luís de Camões, abriram-me as portas desse mundo misterioso e envolvente que é a literatura. Foi o Padre Mota quem me explicou a estranheza e a maravilha daquela forma peculiar de escrever; quem chamou a minha atenção para o fato de que somente há poesia, se houver emoções e não apenas fatos, ações e pessoas a serem objeto da escrita. Se fechar os olhos, ainda serei capaz de ver aquele homem gordo, sentado em sua cadeira de balanço, fumando seu charuto, suando as bicas e ensinando-me o que é poesia. Mostrou-me os clássicos, alguns poetas brasileiros, franceses e ingleses, os estilos barroco, romântico e moderno. Mas não se esqueceu de me chamar à atenção para a poesia popular, a dos cantadores de cordéis.

Já adulto, secretário da Prefeitura, na gestão de Raimundo Soares de Souza, muitas vezes levei, a pedido do prefeito, esboços de projetos de Lei, de Decretos ou de planos administrativos para que o Padre Mota, com a sua longa experiência, desse a sua opinião sobre aqueles assuntos de uma administração que não era sua, mas de um dos seus grandes amigos. Doente, com a vista fraca e um olho atacado pelo glaucoma, o Padre Mota, usando uma forte lupa, lia tudo e fazia suas sugestões com letras pouco estáveis, já indicando o seu frágil estado de saúde.

Por isso e pela carga de sentimentos, que me atinge quando rememoro sua figura, é que resolvi escrever esse livro de forma impessoal, procurando excluir da sua história qualquer emoção advinda da minha condição de seu sobrinho e seu amigo. Procurei, em todo o texto, ser o historiador impessoal. Se em algumas passagens não o consegui, aqui me desculpo com a humildade que com ele aprendi.