Lições que Dilma não aprendeu

Tomislav R. Femenick – Autor do livro “Conexões e reflexões sobre economia”

 vinheta13

            Os anos de 1970 foram caracterizados pelo chamado milagre econômico, “milagre” impulsionado por recursos externos trazidos para o Brasil, investimentos públicos e malabarismo nas contas governamentais. As multinacionais – atraídas pela disponibilidade de matérias-primas e pelo baixo custo da força de trabalho – se dedicaram aos ramos com uso de alta tecnológica, que exigiam altos investimentos em maquinário e com número menor de força de trabalho, essa pressionada pela baixa taxa salarial. As empresas estatais fizeram altos investimentos na produção de energia elétrica, indústria pesada, telecomunicações e indústria bélica. Foi nessa época que foram construídas a hidrelétrica de Itaipu, a ponte Rio-Niterói e a Transamazônica, como símbolos da grandiosidade nacional.

                  O resultado foi a ampliação do mercado interno, o aumento do consumo da população. A classe A e uma parcela significativa da classe média foram beneficiadas e ampliaram seu nível de consumo: o segundo carro da família e a casa de veraneio, por exemplo. O resultado foi o descontrole das contas públicas, inflação e controle dos preços públicos, tudo isso agravado mais ainda pelas duas primeiras crises do petróleo.

                O mais importante referencial econômico da década seguinte, os anos 1980, foram os planos econômicos heterodoxos do governo Sarney; afoitas tentativas de tirar o país da crise, fora da cartilha do FMI. No dia 28 de fevereiro de 1986 foi lançou o Plano Cruzado, tentando combater uma inflação de 80% ao mês e resgatar a credibilidade da economia brasileira. O plano substituiu a moeda nacional (de cruzeiro para cruzado) e estabeleceu o congelamento de preços. A população convivia com as tabelas de preços publicadas nos jornais e fixadas nos supermercados. Os planos Cruzado 2, Bresser e Verão repetiram a mesma fórmula.

Para a economia o resultado foi catastrófico: queda momentânea da inflação, crescimento do consumo, ágio nos preços, desabastecimento no mercado, aumento de impostos, aumento de tarifas públicas, supervalorização do dólar e aumento da dívida interna e externa. Em todas as suas versões os planos provocavam queda da inflação no primeiro instante, porém com posterior aceleração. A estagnação econômica gerou uma agressiva retração do Aparelho Produtivo nacional, principalmente nos setores industriais.

               Os anos 1990 se iniciaram ainda com medidas esdrúxulas na econômica. O novo governo implantou o Plano Collor I, em março de 1990, e o Plano Collor II, em fevereiro do ano seguinte. Como os anteriores os resultados também foram insatisfatórios: houve limitação dos saques e confisco das contas correntes, das aplicações financeiras e das poupanças, congelamento parcial dos preços, aumento da maioria das tarifas públicas e abertura do mercado brasileiro para as importações. A consequência foi a queda da inflação, forçada pela falta de liquidez da economia e, logo em seguida, seu retorno a patamares nunca antes registrados. A primeira metade da década de 1990 foi um período difícil para as empresas brasileiras, devido à crise econômica provocada pelos planos Collor I e II, que geraram uma retração violenta nas atividades produtivas.

            Essa fase predatória do comando da economia brasileira somente teve fim com o Plano Real, cujo sucesso deveu-se a alguns fatores, entre eles: ajuste das contas públicas; alinhamento dos preços relativos (via URV) e quebra da inércia inflacionária; continuidade da abertura comercial, iniciada no Governo Collor; valorização do câmbio, que contribuiu para o aumento da concorrência no mercado interno; juros reais elevados, que evitou o excesso de crescimento da demanda agregada; aumento dos depósitos compulsórios, para reduziu a concessão de crédito; acordo da dívida externa, que possibilitou a entrada de capitais externos, para equilibrar o balanço de pagamentos (Del Angelo e Couto, 1998).

            Esses fatos da história econômica recente do país são registros, sólidos e indeléveis, que provam que erros e irresponsabilidades cometidos no comando de uma nação são heranças que as gerações futuras têm que pagar; pagar não com juros e correção monetária, mas com menos renda, mais desemprego, menos comida na mesa, menos saúde, menos escola, mais insegura e, principalmente, descrédito do governo e incertezas no que será o futuro. Essas são lições que a economista Dilma Rousseff não aprendeu.

Tribuna do Norte. Natal, 02 jul 2015.