Lembranças da Praça de Santa Luzia

Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje. Natal, 11 jun. 2007.
Gazeta do Oeste. Mossoró, 10 jun. 2007.

Parece que com o passar dos anos a memória se fortalece e nos faz recordar de fatos que não sabíamos existirem, lá no fundo dos nossos baús de memória. Certa vez isso aconteceu comigo, quando assistia uma missa na igreja de Santa Luzia, lá na capital paulista. A igreja é pequena, fica localizada no centro da cidade (pertinho da Praça da Sé) e foi construída no estilo característico dos templos católicos brasileiros do final do século XIX e início do século XX: uma amalgama de arquitetura e decoração variadas, representativas da mistura de raças que resultou no ser brasileiro.

Durante a missa não pude me furtar às investidas das recordações e pus-me a lembrar da antiga Catedral de Santa Luzia de Mossoró, a casa da padroeira dos mossoroenses, a minha padroeira. Antes da reforma iniciada nos anos cinquenta e sessenta do século passado, a igreja era um prédio retangular, sem muitos dotes de estilo. Havia uma nave central e duas naves laterais, que terminavam em um transepto (galeria paralela à parede da frente), que cruzava as naves, porém limitando-se à largura da edificação, sem dar-lhe a forma de cruz, como o é hoje. Ao fundo ficada o altar principal e, nas paredes das laterais externas, alguns outros, além de dois mais que se localizavam nos lados da nave central, antes do altar de Santa Luzia. Pelo lado de dentro, na parede da frente, a direita de quem entrava, ficava o altar do Senhor Morto. Tudo era muito simples, com pequenos itens em destaque aqui e outros ali como, por exemplo, os dois anjos em tamanho natural que ladeavam o altar-mor, segurando castiçais.

Porém algo havia de esplendoroso, de realmente diferente e bonito: lá no alto, no teto da nave central, havia um forro com uma decoração que minha lembrança diz que era maravilhosa. Folhas de metais, cheias de belos desenhos barrocos em alto relevo, davam brilho e vida à Catedral. Por ocasião das celebrações noturnas havia na igreja uma luminosidade prateada e esplendorosa, não sei se reflexo da luz das lâmpadas elétricas na decoração do forro ou se eram as lâmpadas que refletiam a luz emanada daquelas placas de metal. No centro do forro, uma outra beleza: uma pintura de Santa Luzia portando, em uma salva, os olhos representativos de sua incumbência divina.

Na casa do doutor Pedro Ciarlini eu vi nascer as pranchas do desenho da planta arquitetônica (um dos vários) para a reforma da Catedral. Era um projeto lindo, baseado em uma igreja italiana (não sei qual), que nunca foi respeitado nos detalhes de seus primorosos adornos decorativos internos e externos: abóbadas de arestas, aros de cruzeiros, capitéis de colunas, sanefas, cimalhas, púlpito, dosséis, volutas e frontões. Foi essa reforma que pôs abaixo o forro de lâminas de metais.

Nessa minha volta ao passado, de repente vi-me sentado nos degraus do patamar da minha sempre igreja, olhando para a praça em frente, a Praça do Padre Antonio Joaquim – quanto me senti importante quando soube que o Padre Antonio Joaquim era meu contraparente, embora em quarto, quinto ou undécimo grau… À minha direita estava um casarão abandonado, outrora residência de um comerciante rico, Delfino Freire (onde depois foi construído o prédio do Esperança Palace Hotel e que hoje abriga a Câmara Municipal). Nele somente era ocupada uma pequena parte, onde ficava o bar “El Foralito”, de cujo dono terminei ficando amigo, o eclético Medeirinhos (depois fotografo e depois, ainda, dono de uma casa de artigos de caça e pesca). Mas que um bar, era lá que se reunia a “intelectualidade conterrânea” e os rapazes das famílias bem postas. Minhas recordações levam-me a ver a celebração do aniversário de uma pessoa importante da cidade, com os discursos sendo proferidos em um ambiente iluminado somente com uma lâmpada azul. Houve uma outra vez, quando que fui admitido em uma roda onde estavam os meus tios Vicente José, Mota Lima e José Vicente e o meu primo Galvão Filho, o Galvonete, para tomar ponche de tamarina, servido pelo próprio dono (na época a fruta se chamava tamarina mesmo, substantivo feminino, e não tamarindo, masculino, como se diz hoje). Foi o máximo.

Mais adiante, ainda à direita, ainda à direita, minhas lembranças viram a calçada do Padre Mota, meu tio e Vigário Geral da Diocese, com a sua roda de amigos: o doutor Antonio Luz, Raimundo Nonato, Doutor Lavô, Padre Sales, Raimundo Soares (ainda um jovem advogado), seu Lindolfo, Padre Raimundo Gurgel, Raimundo Nunes, Carlos Borges, Walter Wanderley, Mário Negócio, Lauro Escóssia, Tarcísio Maia, Quincas Moura e muitos outros, cujos nomes me fogem.

Ainda hoje sinto o cheiro do charuto havana que o Padre Mota fumava.