Keynes x Kalecki: Uma Abordagem Comparativa

Tomislav R. Femenick
São Paulo: PUC, 1982

 

I – INTRODUÇÃO

O presente trabalho tem por objetivo fazer uma comparação dos aspectos mais importantes das obras de John Maynard Keynes e Michal Kalecki. O seu ponto de partida foram os seminários havidos na PUC-São Paulo, no segundo semestre de 1982, que tive como orientador o Prof. Paul Singer. Nessa ocasião foram estudados algumas obras daqueles autores, que serviram de base central para o desenvolvimento deste estudo. Foram consultadas outras obras, estas de autores que realizaram pesquisas, estudos e análises de suas idéias, pensamentos e teorias.

Há de se ressaltar um ponto importante: as afirmações desses terceiros nunca foram simplesmente aceitas, sempre procuramos testá-las, compará-las com os textos do pensador inglês e/ou polonês e, muitas das vezes, usamos esses textos para suportar as conclusões que outros tiveram de sua obra.

No decorrer de nossos levantamentos deparamo-nos com uma dificuldade: se por um lado há uma profusão de matérias sobre Keynes e sua obra, por outro, poucos são os estudos disponíveis no país sobre Kalecki, daí porque tivemos que muitas vezes beber na fonte, o que, convenhamos, tornou nossa pesquisa muito mais laboriosa e com muito de nós próprios.

Não procuramos esgotar o assunto. Isto quer dizer que haverá muitos aspectos da obra de Kalecki e Keynes, que não foram abordados neste trabalho; que os assuntos aqui estudados não os foram sobre todos os ângulos.

Dividimos este estudo em sete capítulos conforme segue:

I – Introdução: No qual é exposta a abrangência e metodologia do trabalho.
II – Situação: Nesse capítulo estuda-se a época e os locais onde Keynes e Kalecki desenvolveram suas idéias; para que se possa melhor aquilatar o grau de similitude que possa haver nas suas obras.
III – Análise: Aqui procuramos desenvolver nossa visão sobre a importância de ambos, a importância de suas contribuições para às Ciências Econômicas.
IV – Ideologia: Em sendo a ideologia um aspecto importante de Keynes e fundamental em Kalecki, procuramos estudá-la em ambos, indicando os seus choques de finalismo.
V – Aspectos coincidentes e complementares: Indubitavelmente há coincidência na abordagem, nas conclusões, na época e em alguns aspectos das teorias de ambos os pensadores. Nesse capítulo procuramos evidenciá-los.
VI – Aspectos Divergentes: Como também há as discordâncias entre os dois, são demonstradas neste capítulo.
VII – Conclusões: Finalizamos com as conclusões que tiramos da análise das teorias de Keynes e Kalecki, que poderão ser não usuais, mas são as que chegamos.

II – SITUAÇÃO

Não devemos estudar fatos e idéias sem associá-los ao tempo e espaço, isto porque “todas as coisas, como fenômenos externos, estão justapostas no espaço” e, ainda, porque “a mudança de representações não é possível senão no tempo” (KANT, 1958, p. 39 e 47). Daí a importância de se situar as épocas e os lugares onde ocorreram as idéias de Keynes e Kalecki.

Tempo

As idéias de ambos os pensadores germinaram e se desenvolveram em período de anormalidade da atividade econômica, afetado pela Primeira Grande Guerra e depois pela debacle de 1929. “Em meio a esse nevoeiro, Keynes tateava em busca de uma teoria de emprego (…). O ‘Treatise on Money foi entregue (…) aos impressores em setembro de 1930″. Em 1934 Keynes consegue encadear uma teoria coerente sobre dinheiro, o salário e multiplicador e em 1936 edita sua Teoria geral de emprego, juro e da moeda (ROBINSON, 1979, p. 90 e 81).

Enquanto isso, Kalecki começa a desenvolver suas teorias já em 1927, porém somente sobre o aspecto da concorrência imperfeita. Em 1933 faz publicar um pequeno trabalho, Esboço de uma teoria do ciclo econômico, no qual expõe de forma matemática, o princípio da procura efetiva, que se aproxima em muito dos conceitos do escritor britânico, sem contudo conhecer a sua obra ou seus estudos.

Não podemos dizer que Kalecki foi um predecessor de Keynes, pois que de suas obras não se serviu Keynes para desenvolver as suas. Podemos afirmar que Kalecki foi seu antecessor, mas somente do ponto de vista cronológico. “A prioridade de publicação de Michal Kalecki é indiscutível (…). O interessante é que dois pensadores, partindo de pontos políticos e intelectuais totalmente diferentes, chegassem à mesma conclusão” (SZMRECSÁNYI, 1978, p. 16).

Não obstante, “Keynes considerava Kalecki um simples discípulo seu” (MIGLIONI, 1980, P. 11).

Espaço

O aparecimento das idéias dos dois pensadores econômicos tiveram lugar em espaços diversos. Enquanto as idéias de Keynes se desenvolveram na Inglaterra, Kalecki teve a Polônia a ver surgir suas teorias.

John Maynard Keynes estudou e ensinou em Cambridge, fez parte do governo imperial britânico na Índia, foi funcionário do Tesouro Britânico e representou seu país na Conferência de Paz. Um burocrata bem sucedido, até que se demitiu do Tesouro. Essa “biografia” mostra o espaço em que se locomovia o autor da Teoria Geral… (CONTADOR, 1982, p. 18 e 19).

Tomás Szmrecsányi, diz muito bem quando afirma que “a gênese e a evolução do pensamento de Keynes foram condicionados, em primeiro lugar, pela situação sócio-econômica e política do período e do país em que viveu” (SZMRECSÁNYI, 1978, p. 10).

Por sua vez, Michal Kalecki, muito embora em 1917 tenha ingressado na Escola Politécnica de Varsóvia, jamais conseguiu diploma de graduação. Seus primeiros trabalhos em economia tiveram lugar em 1927, no Instituto de Pesquisas de Conjuntura Econômica e Preços de Varsóvia. Em 1935, trabalhou na Suécia, com Gunnar Myrdal. Em 1936, foi para Londres, trabalhar na London School Of Economies. Em 1937, foi para Paris, estudar a política econômica do governo socialista. De volta a Inglaterra, nesse mesmo ano, trabalhou na Universidade de Cambridge, onde se relaciona com os keynesianos Joan Robinson e Piero Sraffa. Em 1940, encontramos Kalecki trabalhando na Universidade de Cambridge (MIGLIONI, 1980, p. 85).

III – ANÁLISE

“Em todos os tempos e lugares, houve crises no sentido amplo: desemprego crônico, carestia, paralisação de vendas e acontecimentos políticos que destroçaram a vida econômica” (WEGER, 1986, p. 261). Essas palavras de Max Weber, publicadas em 1923 eram como que a tradução de uma evidência levantada pelos pensadores de época. A procura da solução desses problemas, principalmente da estabilidade de um nível de emprego em um alto patamar, mobilizou as mentes acadêmicas, fazendo com que alguns economistas chegassem a formular idéias coincidentes, sem que houvesse obrigatoriamente troca de informações entre eles.

“Da total ruína da teoria ortodoxa confrontada pela depressão, surgiu um novo movimento (…). Esse movimento ficou conhecido como a Revolução Keynesiana, pois Keynes foi o mais eloqüente e célebre dos seus expositores embora a versão apresentada por Kalecki tenha tido, em alguns pontos, maior coerência lógica que a sua” (ROBINSON, 1979, p. 56 a 67).

Keynes e Kalecki foram os que expuseram teorias que se destacaram isoladamente. Afora eles Joan Robinson, Piero Sraffa, Richad F. Kahn, James E. Meade e Oennis H. Robertson forneceram subsídio ou desenvolveram idéias paralelas (SZMRECSÁNYI, 1978, p. 10 e 11).

Muito embora hoje já se faça uma diferenciação entre a obra dos autores da Teoria geral… e do Crescimento e ciclo…, houve época em que Kalecki era tido nos meios acadêmicos apenas como um keynesiano de tendências socialistas (MIGLIONI, 1980, p. 17). Assim, os que estudaram a solução para os problemas de emprego, juros, moeda, preços etc., nas décadas de 20 e 30, fizeram o que a literatura econômica chama de revolução keynesiana, terminologia essa aceita por todos. “De qualquer modo, como o próprio Kalecki foi o primeiro a reconhecer, a Revolução Keynesiana na economia acadêmica ocidental foi batizada com justiça” (ROBINSON, 1979, p. 85). Assim, quando se fala em revolução, conceitos e teorias keynesianas se está extravasando aquilo escrito simplesmente por Keynes. Isto posto, estudemos alguns aspectos dessa revolução.

Um dos pontos centrais dessa corrente de pensamento é o de que o capitalismo é um sistema, uma fase histórica do desenvolvimento. Nessa conceituação o problema da moral está na tônica da teoria, uma vez que estuda a desigualdade da distribuição do produto. Como metodologia, os keynesianos usavam a econometria e introduziram, os quadros da Renda Nacional, hoje universalmente aceitos. Por sua vez o conceito do equilíbrio passou utilizado como um instrumento indispensável, na macroeconomia. As tarifas, as taxas de juros, o meio circulante e o pleno emprego foram a mola central dos estudos dessa verdadeira onda de publicações econômicas (ROBINSON, Filosofia… 1979, p. 65 e seg.).

Segundo Cláudio Napoleoni, “a grande força de análise keynesiana é precisamente o fato de que ela fornece um quadro teórico dentro do qual muitas linhas do pensamento e de investigação anteriormente elaboradas, e que antes de Keynes permaneciam separadas, puderam ser coordenadas num sistema unitário que permitiu uma explicação suficientemente completa das características dos sistemas econômicos reais” (NAPOLEONI, 1979, p. 85).

IV – IDEOLOGIA

Toda a produção científica possui atrás de si uma posição ideológica. Tanto é verdadeira esta afirmação que foi criado um ramo de filosofia, a epistemologia, dedicado a estudar a natureza e a estrutura das ciências, partindo de um ponto de vista lógico e também histórico e sociológico. Essas investigações têm recebido cada vez mais importância no mundo científico, no que pese ser a epistemologia considerada como uma disciplina filosófica e com status marginal em relação a outras tais como a metafísica, a ética etc. (THUIKKIER, 1975, p. 13).

Em sendo a economia uma ciência, não poderia deixar de conter, em suas várias manifestações de pensamento, uma ponderável parcela de ideologia. Joan Robinson, em seu livro Filosofia Econômica, diz que a “economia tem sido sempre, em parte um veículo para a ideologia dominante em cada período, assim como, em parte, um método de investigação científica” (ROBINSON, 1979, p. 56 a 67) . As teorias de Keynes e Kalecki não poderiam ser diferentes.

A Ideologia de Keynes

A obra de Keynes, de certa forma, é uma representação de formação e origem de Cambridge. Seus escritos estão cheios de Marshall, Pigou, Sraffa, Joan Robinson e outros expoentes daquela escola, uns citados outros não, uns contestados e outros incorporados (SZMRECSÁNYI, 1978, p. 10 e 11). Sua teoria possui conotações e características liberais, aceitando a intervenção do governo somente como forma de suplementar a insuficiência da demanda do setor privado e rejeitando a propriedade coletiva dos meios de produção. Na Teoria Geral ele afirma “… não se vê nenhuma razão evidente que justifique um Socialismo de Estado abrangendo a maior parte da vida econômica da nação. Não é a propriedade dos meios de produção que convém ao Estado as sumir” (KEYNES, 1982, p. 288).

O que se vê aqui não é algo paradoxal. “A tentativa de Keynes para formular as normas filosóficas de uma intervenção do Estado, à qual seu labor teórico fornece um fundamento científico, não nos deve fazer esquecer que essa intervenção é para ele um mal menor (…) em nome do individualismo Keynes abandona o liberalismo ortodoxo. Espera evitar assim, as soluções coletivistas que, para ele, constituem um mal maior (BARRÉRE, 1958, p. 38 e 39).

As objeções de Keynes ao capitalismo tiveram origem em motivos morais e estéticos, o que não o tomava um socialista. Ao se estudar sua produção teórica, evidencia-se a preocupação de Keynes em evitar a aceitação ideológica reinante sobre certas verdades clássicas ou neoclássicas. Assim ele procedeu em relação à justificativa metafísica do lucro, ao observar que “o capital produz certa remuneração não porque é produtivo, mas porque é escasso”. Outro conceito abordado por Keynes foi a “regra confortável” de que o indivíduo contribuía para o bem da comunidade ao melhorar sua própria situação. Suas afirmações de que a poupança seria uma das causa do desemprego, desestabilizou as bases ideológica que explicava a desigualdade de renda e justificava a acumulação de capital (ROBINSON, Filosofia…, p 64 e 65 – Sua citação e da Teoria Geral…).

Não obstante ter escrito sua obra em função do capitalismo e objetivando evidenciar uma tomada de consciência das transformações que esse mesmo capitalismo estava e deveria sofrer para estruturar-se no futuro (BARRÉRE, 1958, p. 37), Keynes usou vários dos instrumentais de teóricos socialistas, até mesmo sem o saber. Embora (diz-se) que nunca tenha entendido a obra de Marx (ROBINSON, Contribuição…, p. 83), Keynes dele se aproximou ao estudar o desemprego na economia capitalista, mostrando ambos que “o capitalismo contém, em si mesmo, as sementes da própria decadência (…). Os sistemas de Keynes e Marx erguem-se lado a lado ” (ROBINSON, Marx…, 1979, p. 101). Outras idéias de Keynes também se aparentam marxistas. Vejamos algumas citações neste sentido:

a) “O princípio da procura eficaz de Keynes apresenta numerosos pontos em comum com (…) Marx”.
b) “A proposição de Keynes de que a poupança deterá a procura eficaz a menos que haja investimentos correspondentes está (…) implícito na teoria de Marx”.
c) “Na análise da taxa (de juro:,) em épocas de crise, Marx apresenta muita coisa em comum com Keynes à medida que a considera como principalmente determinada pela oferta e procura da moeda” (FAN-HUNG, 1979, p. 115, 116 e 127).
d) “Uma versão simples da teoria Keynesiana – segundo a qual o volume de moeda e a taxa de juros não aparecem como variáveis – constituem um caso especial do modelo marxista”.
e) “A proposição de que os investimentos geram compras sem vendas e, destarte, promovem condições de alta é encontrada nos trabalhos de ambos”, Marx e Keynes (TSURO, 1979, p. 167 e 168).
f) “O costume de expressar quantidades econômicas em termos de unidades salariais, sugere muito de perto a teoria de valor de Marx” (KLEIN, 1979, p. 157).
g) “Embora a Teoria do Colapso de Keynes seja inteiramente diferente da marxista, as duas mantém um importante aspectos em comum: em ambas o colapso é ocasionado por cauas inerentes ao funcionamento do motor econômico, e não por fatores externos a ele” (SCHUMPETER, apud TSURO, 1979, p. 166).
h) “Há semelhanças muito claras, por exemplo, entre as explicações dadas por Marx e por Keynes sobre as forças que determinam a periodicidade do ciclo e das versões de ambos sobre o papel da especulação ” (MEEK, 1971, p. 243).

Apesar de todo o seu aparentar marxista, Keynes não era nada favorável ao marxismo. Já vimos a sua posição contrária à socialização dos meios de produção; a sua aceitação condicional da intervenção do Estado nas atividades econômicas. Resta-nos citar sua posição contrária ao sistema marxista-lenista, ao analisar o sistema soviético, exposta na obra A Short View of Russian, escrita em 1925, quando visitou a União Soviética (SZMRECSÁNYI, 1978, p. 15) e sua certeza de que sua teoria iria destruir as bases do marxismo (ROBINSON, Contribuição…, p. 83).

Interessante essa contradição da teoria Keynesiana: procurando assegurar uma continuidade futura ao capitalismo, muito embora que o transfigurando, Keynes usa instrumental socialista, chocando aqueles a quem deseja conquistar e conquistando a quem deveria provocar receio (BARRÉRE, 1958, p. 33 e 35).

A Ideologia de Kalecki

Durante algum tempo, Kalecki foi conhecido como um economista keynesiano que defendia posições socialistas, e ao lado de outros keynesianos, isto porque há nuances marxistas e keynesianas na postura ideológica desse cientista da teoria econômica.

Kalecki tinha idéias políticas com as quais Keynes não simpatizava (ROBINSON, apud MIGLIONI, 1980, p. 11). Seu embasamento teórico-econômico era totalmente marxista, pois que a “única economia que estudara era a de Marx” (ROBINSON, Contribuição…, p. 83). Dois autores marxistas, Tugan-Baranovski e Rosa Luxemburg exerceram grande influência na formulação de suas teorias, principalmente esta última, conforme suas próprias palavras. Apesar disto, parte de suas teorias foram marginalizadas por alguns ideólogos do marxismo, principalmente os seus estudos sobre os ciclos econômicos.

O maior divisor entre as posições de Kalecki e Keynes situa-se no objetivo com que ambos se propuseram a estudar as crises do capitalismo. Enquanto Keynes estava pesquisando as causas das crises, objetivando “salvar o capitalismo das conseqüências de suas contradições” , Kalecki tinha por escopo “analisá-las com todo o rigor”

Apesar de suas claras posições com relação ao capitalismo e de seus atritos com a conduta capitalista quando trabalhava na ONU, Kaleckj foi acusado de “não marxista, de orientar seus colegas e colaboradores para posições anti-marxistas e também de ter plagiado”, isto talvez por causa de sua “abordagem criativa – em oposição à dogmática – do marxismo” (segundo LIPINSKI) e, porque “não havia entendimento entre Kalecki e o governo stalinista instalado na Polônia” .

Há que se ressaltar aqui a própria opinião de Kalecki sobre suas idéias: “certa vez, perguntado(…) respondeu que estava preocupado em fazer ciência, e não religião” (MIGLIONI, 1980, p. I a III e 13, 16, 12 e 17).

V – ASPECTOS COINCIDENTES E COMPLEMENTARES

As teorias de Keynes e Kalecki possuem vários e muitos aspectos paralelos, coincidentes e mesmo complementares. Às vezes por caminhos e métodos diferentes, ambos abordam o mesmo assunto, chegam às mesmas conclusões e, vez por outra, usando a mesma linguagem, para não dizer a mesma abordagem técnica.

Aqui nos propomos a identificar algumas dessas coincidências.

Determinantes do nível da Renda Nacional

Um ano antes da publicação da Teoria Geral, Kalecki editou um pequeno ensaio (1935), intitulado O Mecanismo da recuperação econômica, onde diz que uma pré-condição para um nível mais alto da produção nacional é a de que a parte dela que não é consumida deva ser investida (KALECKI, 1980, p. 21 e 22). Mais tarde diria ele: “O produto nacional bruto, portanto, será igual à soma dos investimentos brutos (em capital fixo e estoque) e o consumo” (KALECKI, 1978, p. 85).

Essa mesma posição Keynes adota na sua Teoria Geral, quando deslocou da poupança para o investimento a mola de impulso da produção nacional.

Partindo-se desse ponto concluímos que ambos estudaram a renda nacional como função de demanda, ou seja, do volume das despesas em consumo e investimentos, isto porque os gastos com o consumo são limitados pela própria renda, o que toma o investimento a variável determinante para projetar o nível da renda (MIGLIONI, 1980, p.18 e 19).

Eficiência Marginal do Capital

Keynes concebia que as possibilidades dos investimentos se ordenavam de acordo com a sua respectiva provável rentabilidade. Assim, os investimentos, cuja lucratividade fosse igualou inferior à taxa de juros, seriam excluídos do interesse empresarial. “Em outras palavras, o investimento vai variar até aquele ponto da curva de demanda de investimento em que a eficiência marginal do capital em geral é igual à taxa de juros do mercado” (KEYNES, 1982, p. 116). Neste ponto ter-se-ia o total dos investimentos a serem empreendidos. Essa formulação de Keynes ensejava a que se fizesse uma indagação: Por que todas as empresas não realizam investimentos naqueles projetos cuja lucratividade fosse maior do que a taxa de juros, gerando assim um volume indefinidamente amplo de investimento?

Kalecki encontrou a solução para o problema: primeiro determinou que “as decisões de investir em um dado período de tempo, determinadas por certos fatores que operam durante esse mesmo período, seguem-se, com um hiato temporal, investimentos efetivos. O hiato temporal (…) reflete fatores como decisões empresariais retardadas” (KALECKI, 1978, p. 131) – ou seja, separou a decisão do investimento de investimento real. Segundo, afirmou que, independente da taxa de juros, nenhuma empresa poderia controlar um volume substancialmente grande de financiamentos. Terceiro, argumentou que o montante do financiamento de cada empresa seria função crescente da taxa de lucro, porém dependente da relação capital de terceiros x capital próprio. Por último ressaltou a relação existente entre o volume total dos projetos de investimentos, em qualquer momento, e o nível dos lucros esperados (ROBINSON, Contribuição…, 1979, p. 84).

Investimentos e Lucros

Um outro ponto onde Keynes é complementado por Kalecki é o relacionado com os investimentos e os lucros. Keynes não abordou a cadeia investimentos-lucro-investimento. Na sua teoria a taxa de investimento e lucratividade não são funções em si. Dessa maneira, os investimentos prováveis eram tratados à parte, independentemente, da taxa de investimentos reais.

Kalecki demonstrou a cadeia existente entre investimentos-lucro-investimento: “O investimento (…) cria lucro”. “Quando os lucros aumentam a um novo nível também D (investimentos) o faz (…) A taxa de decisões de investimentos é função crescente do nÍvel de lucros e função decrescente do estoque de bens de capital” (KALECKI, 1980, p. 40; 1978, p. 136)

Joan Robinson em seu comentário sobre esse aspecto diz: “Según Kalecki los programas de inversiones para cualquier periodo constituyen uma función dei ahorro bruto de las empresas correspondiente al periodo inmediato anterior, y de la tasa probable de utilidad El ahorro bruto representa una proporción de la ganancia bruta de ese periodo anterior. Las ganáncias probables dependen de las inversiones brutas dei periodo actual y de la existencia de capital” (ROBINSON, 1965, p. 100).

Preços e Taxas de Salários

Aqui a complementação de Keynes/Kalecki é mais presente, mais clara. Na Teoria geral Keynes aborda o assunto partindo do conceito marshalliano de competição, o que provocaria retornos decrescentes a curto prazo, Dessa forma, sempre que ocorresse um aumento no nível de emprego haveria um decréscimo no salário real. Isso, Keynes diz dessa forma: “Quando a demanda efetiva é deficiente, existe sub-emprego de mão de obra, no sentido de que há homens desempregados dispostos a trabalhar por um salário real menor. Conseqüentemente, à medida que a demanda efetiva aumenta, o emprego sobe, embora a um salário real igualou menor que o existente… ” (KEYNES, 1982, p.226).

Kalecki introduziu conceitos novos, ampliando os fatores contidos na idéia original – política monopolista de preços e competição imperfeita: “Existem (…) duas tendências opostas na determinação dos salários reais: quando a produção cresce, elevam-se os preços das matérias primas em relação aos salários, mas o grau de monopólio se reduz; quando a produção diminui os preços das matérias primas caem mais acentuadamente do que os salários, porém o grau de monopólio se amplia. O grau de monopólio – medido pela razão entre o preço e os custos marginais – (…) diminui durante as fases de expansão econômica. Isto resulta da rigidez de certos preços (…). Em geral, numa economia fechada (…) não há motivos para se relacionar a queda da produção com o aumento dos salários reais, nem o crescimento da produção com a diminuição dos salários reais. Chegando à análise da economia aberta, mostramos que também aqui a diminuição dos salários não necessariamente leva ao aumento do emprego, e ainda menor é a possibilidade de se elevar a renda real agregada dos trabalhadores” (KALECKI, 1980, p. 88 a 90).

Multiplicador

A idéia do multiplicador aparece claramente nas teorias de ambos os autores, divergindo em nuances, porém concordando no conceito central.

Kalecki expressa sua opinião dizendo que “a relação entre as mudanças na acumulação bruta, a qual é igual a dos bens de investidos, e as mudanças na produção agregada se efetuam do seguinte modo: quando a produção de bens de investimentos cresce, a produção agregada aumenta diretamente no mesmo montante, mas em adição há um acréscimo devido à demanda por bens de consumo da parte dos trabalhadores recém empregados nas indústrias de bens de investimentos. O conseqüente aumento do emprego nas indústrias de bens de consumo leva a um maior acréscimo da demanda por bens de consumo. Os níveis da produção agregada e do lucro por unidade de produção se elevarão no fim a uma grandeza tal que o aumento dos lucros reais torna-se igual ao aumento da produção dos bens de investimentos” (KALECKI, 1980, p. 39).

Keynes expressa suas idéias de forma diferente porém com o mesmo fim e de forma algébrica, partindo da (Yw) Variação de Venda em unidades de salários: “∆Yw = ∆Cw + ∆Iw, onde ∆Cw e ∆Iw são incrementos do consumo e do investimento de maneira que podemos escrever ∆Iw = k ∆Iw, onde I-I/k é igual a propensão marginal a consumir. Chamamos o K o multiplicador de investimento. Ele nos indica que, quando se produz um acréscimo no investimento agregado, a renda sobe num montante igual a K vezes o acréscimo do investimento (…) Se as tendências psicológicas do público são realmente as que supomos, estabelecemos aqui a lei de que o aumento de emprego consagrado ao investimento estimula necessariamente as indústrias que produzem para o consumo determinando, assim, um aumento total do emprego que é um múltiplo do emprego primário exigido pelo próprio investimento” (KEYNES, 1978, p. 101 e 103).

Fatores Psicológicos e Variação de Consumo

São conhecidos os fatores subjetivos – capítulo 9 da Teoria Geral de Keynes – (que poderiam ser identificados como psicológicos), aos quais ele também chama de “precaução, prudência, cálculo etc., fatores que afetam o montante do consumo”. Por outro lado, ele afirma que “os homens estão (…) dispostos a aumentar o consumo à medida que sua renda cresce, embora não em quantia igual ao aumento de sua renda” (KEYNES, 1978, p.97, 96 e 88).

Por outro lado, é também conhecida a aridez do estilo de Kalecki, que escreve sem preâmbulo, sem preparar o leitor para sua abordagem e/ou conclusão. Suas idéias sobre fatores psicológicos e variação de consumo é um exemplo: “O consumo pessoal dos capitalistas é relativamente inelástico. Supondo que C consiste de uma parte constante de Bo e uma parte que é proporcional aos lucros brutos: C = Bo + λP, onde λ é uma pequena constante” (KALECKI, 1980, p. 29).Note-se que a constante À é o fator subjetivo de Keynes.

Características Comuns

Afora essas idéias convergentes e que às vezes se complementam, ambos os autores têm outras características em comum ao longo de suas obras, principalmente os conceitos sobre renda, consumo, investimentos, poupança etc. Além disso os estilos de ambos são próximos e usam uma terminologia similar.

VI – ASPECTOS DIVERGENTES

No nosso entender, Jorge Miglioni na introdução que faz no livro Kalecki conseguiu sintetizar o que se apresenta como os principais pontos de choque (ou ruptura) nas teorias de Keynes e Kalecki.

Livre Concorrência x Monopólio

Keynes desenvolveu suas idéias sobre o pilar da livre concorrência, não levando em consideração as forças extra-mercado. Por sua vez Kalecki estuda a economia capitalista com uma visão mais real. Ele “introduz” a perspectiva, o ângulo do monopólio, da concorrência imperfeita, da manipulação dos preços.

Distribuição da renda

Para o economista inglês não há maiores interesses no problema da distribuição da renda. Sua única abordagem do problema é no sentido de analisar a divisão da renda entre empresários e os rentistas, estes taxados de perniciosos para o crescimento da atividade econômica.

Já Kalecki vê a distribuição como uma função social, integrando o âmago da sua teoria. O seu trabalho Teoria da dinâmica econômica (ROBINSON e EATWELL, 1979, p. 129 e 130), no capítulo 2, Distribuição de Renda Nacional, possui 6 partes totalmente voltadas aos aspectos que influem e que repercutem nos salários como parte da renda nacional. Resumindo: “Keynes discutiu (…) o nível de renda em termos de propensão a consumir (…). A análise de Kalecki resume-se na afirmação: Os trabalhadores gastam o que ganham e os capitalistas ganham o que gastam ” (KALECKI, 1978, p. 70 e seg.).

Curto e Longo Prazo e Inovações Tecnológicas

Enquanto Keynes aborda o problema do nível de renda somente a curto prazo, Kalecki analisa a questão também a longo prazo, fazendo ainda, uma interação dos “fenômenos dos ciclos e do desenvolvimento econômico numa só teoria”, além de introduzir nos seus estudos os fatores resultantes das inovações tecnológicas.

Ideologia

Há ainda que se ressaltar as divergências de cunho ideológico, essas tratadas no capítulo IV.

VII – CONCLUSÃO

Não resta dúvida de que o mundo transformou-se, principalmente o mundo ocidental, depois da revolução keynesiana, que se reflete na “Economia corrente que vigora nos Estados Unidos e na Escandinávia, na Inglaterra e na Holanda, e que está passando a prevalecer cada vez mais no Japão, França, na Alemanha, Na Itália e na maioria dos países do mundo ocidental” (SAMUELSON, 1975, p. 897) e também no Brasil e nos demais países da América Latina.

“Da revolução Keynesiana até nossos dias, a economia evoluiu no plano geral para o aperfeiçoamento do instrumental de análise e previsão dos mecanismos econômicos e, a nível regional, para o estudo do subdesenvolvimento. No primeiro caso, tratou-se da aplicação minudente da matemática e da estatística (Economia Matemática e Estatística Econômica) à análise econômica” (MACHADO, 1982).

Faz-se necessário um parêntese sobre as idéias keynesianas e sua aplicação na América Latina, onde teve na CEPAL um canal difusor. O modelo keynesiano tem apresentado duas deficiências, quando aplicado em nações do terceiro mundo. Resultado da análise da economia de países centrais, sua tese implícita supõe mercados de produtos e crédito com funcionamento capaz de reagir ao aumento da demanda de seus produtos. A inelasticidade da oferta e a expansão da demanda agregada por meio das despesas governamentais, tem impulsionado os preços e mantido uma inflação crônica. “Esta foi a experiência comum a vários países latino-americanos durante as décadas de 50 e 60″. Outro campo onde o “keynesianismo” se choca com a realidade é o que diz respeito ao emprego industrial. “A criação de empregos adicionais no setor urbano moderno (…) tem grande probabilidade de atrair muito mais imigrantes adicionais das áreas rurais(…) A criação de empregos urbanos adicionais (…) destinados a reduzir o desemprego podem, na realidade, levar o desemprego urbano a aumentar” (TODARO, 1919, p. 31 e 312).

Os acertos e os erros de uma teoria não dizem tudo a seu respeito. Encontrá-los, analisá-los e expô-los não é o suficiente. Segundo Myrdal “ei rasgo fundamental de la ciencia social es la búsqueda de la verdad objetiva. El estudiante tiene fe en su convicción de que la verdad es edificante y que las ilusiones son dañinas, especialmente Ias oportunistas; busca realismo, un término que en una de sus acepciones denota una visión objetiva de la realidad” (MYRDAL, 1970, p. 7)

BILBIOGRAFIA

BARRÉRE, Alain. Keynes e o Futuro do capitalismo. Salvador: Progresso, 1958.
CONTADOR, Cláudio. Apresenta
ção da edição brasileira, in Keynes, John Maynard. A teoria geral do emprego, do juro e da moeda. São Paulo: Atlas, 1982.
FAN-HUNG. Keynes, Marx e a teoria da acumulação do capital, in HOROWITZ, David (org.). A economia moderna e o marxismo. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.
KALECKI, Michal. Crescimento e ciclo das economias capitalistas. São Paulo: Hucitec, 1980.
KALECKI, Michal. Teoria da dinâmica econômica. São Paulo: Abril, 1978.
KANT, Emmanuel. Crítica da razão pura. 3ª ed. São Paulo: Publicações Brasil, 1958 (?).
KEYNES, John Maynard. A Teoria geral do emprego, do juro e da moeda. São Paulo: Atlas, 1982.
KLEIN, Lawrence K. Teorias de procura eficaz e de emprego, in HOROWITZ, David (org.). A Economia Moderna e o Marxismo. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.
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