GLOBALIZAÇÃO E DESEMPREGO

Tomislav R. Femenick
Tribuna do Norte. Natal, 27 maio 2007.
Gazeta do Oeste. Mossoró, 27 maio 2007.

Recentemente presenciei uma cena lamentável. Ao visitar uma grande empresa têxtil do Rio Grande do Norte, deparei-me com uma legião de empregados, mais de cem, sendo demitida porque a indústria estava reduzindo sua produção, em função da conjunção de dois fatores: o dólar baixo, que reduz o preço dos produtos importados, e a concorrência predatória dos produtos chineses. Em síntese, culpa da globalização. Relacionar o problema do desemprego à globalização, leva ao exame de doutrinas ideológicas e políticas passadas e à própria evolução da história econômica, nos dois séculos seguintes à Revolução Industrial. Até bem pouco tempo atrás, creditava-se o desemprego somente à problemas conjunturais, decorrentes, no mais das vezes, de fatores regionais, locais ou das próprias empresas, que não teriam condições de competitivas ou, ainda, de recessões externas ou domésticas.

As projeções e estatísticas sobre o desemprego e seus efeitos são a razão da polêmica entre as motivações econômicas ou sociais. A adoção de processos tecnológicos intensivos – e a consequente automação da produção afetaram tanto as empresas como seus empregados, pela redução dos postos de trabalho – inicialmente os de mão-de-obra não especializada e, depois, sobre a própria mão-de-obra qualificada. Os novos métodos e o aumento da produtividade também fecharam a porta aos jovens que buscam trabalho, com efeitos sociais traumáticos. Os desempregados mais velhos, por sua vez, dependem de processos aleatórios de reciclagem, nem sempre existentes ou efetivos. Por sua vez, a “solução” do salário desemprego e dos demais benefícios previdenciários, confrontam-se com o número de trabalhadores desempregados, crescente nas economias emergentes e até nos países do Primeiro Mundo. Como resultado desse fato, as perspectivas contábeis dos serviços de previdência social são pouco animadoras, devido aos déficits crescentes e seu peso, cada vez mais presente, nos orçamentos nacionais.

Nos países em desenvolvimento há um fator agravante: a industrialização gerou um processo de rápida e intensa urbanização da população, sem que as cidades tivessem as condições básicas de infraestrutura para suportar tal crescimento; em outras palavras, a industrialização expandiu o uso da mão-de-obra, atingindo aqueles que anteriormente estavam na economia rural e produziam matérias-primas e alimentos. O resultado foi a explosão dos problemas sociais, hoje mais agravados pelo desemprego resultante da globalização econômica. O quadro anterior (uso intensivo de mão-de-obra) choca-se com a nova situação (uso intensivo de tecnologias de produção, com reduzido quadro de pessoal).

Há quem atribui essa situação de insegurança social a uma entidade quase esotérica, o neoliberalismo. O que se convencionou chamar de neoliberalismo é um conjunto de teorias, medidas e políticas macroeconômicas, que visam substituir um modelo em que o Estado era o grande distribuidor de benemerência e que, por isso mesmo, estava falido. Os déficits públicos sempre eram cobertos por financiamento da poupança privada ou pela inflação. Indiretamente, todos pagavam pelo Estado gastador. Quando houve a “cobrança da conta”, o Estado não teve como pagar as aposentadorias, os gastos com o ensino público, com a saúde, com o salário desemprego etc.

O “neoliberalismo”, ao transformar-se em doutrina e ideologia da sociedade e em projeto de governo, implantou-se na maioria dos países – com particularidades nacionais e diferenças de tons e efeitos, conforme a economia seja mais ou menos desenvolvida -, e vem se caracterizando por iniciativas que visam a redução da intervenção do Estado na economia e na abertura de barreiras ao livre fluxo de capitais entre as nações.

A diminuição das dimensões do Estado tem sido buscada através da privatização das empresas estatais com sua transferência para a iniciativa privada, o que, em tese, aumentaria os lucros e, consequentemente, sua capacidade de investimentos e criação de novos empregos. A competitividade das empresas seria atingida por meio da redução dos custos, inclusive pela diminuição e/ou eliminação de direitos previdenciários e trabalhistas. Evidentemente esses objetivos só podem ser alcançados atropelando alguns interesses de setores da sociedade moderna, tirando-lhes alguns direitos adquiridos. O efeito imediato, como já vimos, tem sido o desemprego, a alteração das condições de trabalho, a redução dos salários reais, dificuldade para o acesso à aposentadoria e a alguns serviços públicos essenciais.

Em função dessas suas características, o “neoliberalismo” vem enfrentando sérias resistências dos trabalhadores em várias partes do mundo e, especialmente, na Europa. Os Estados Unidos têm sido um caso a parte. Nunca, desde a segunda grande guerra, o país teve um período de tantos anos contínuos de crescimento econômico, com redução crescente do número de pessoas desempregadas e com taxas de juros tão baixas, observados os ciclos naturais da economia capitalista. O crescimento norte-americano nos últimos anos vai mais além: se, por um lado, o desemprego decresce, por outro tem havido uma busca de trabalho de aposentados, de imigrantes ilegais. De forma geral, lá há melhores ganhos salariais.



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