GERENCIAMENTO DOS ESTOQUES

Tomislav R. Femenick
Tribuna do Norte. Natal, 27 jul. 2008.
Gazeta do Oeste. Mossoró, 26 jul. 2008.

A interpretação do termo estoque dá margem a distorções e erros, que podem provocar resultados e registros equivocados e incorretos. A compreensão do censo comum é que estoque é toda mercadoria disponível para uso ou venda, representado por uma quantidade ou valor em determinada data. Por esse entendimento, qualquer que seja a natureza dos itens “disponível para uso ou venda” estes seriam classificados como estoque, mesmo que invendáveis. Se considerada a possibilidade desses itens serem em quantidades e valores expressivos, ter-se-ia uma situação que desfiguraria a realidade apresentada pelo Balanço Patrimonial, uma vez que este estaria registrando bens com um valor realizável que não possui.

A moderna teoria contábil corrige esse desvio ao estabelecer que somente os “itens destinados à venda no transcorrer normal das operações e os materiais a serem utilizados no processo de produção para venda” sejam entendidos como sendo verdadeiramente os componentes dos estoques de uma empresa, “excluindo-se dessa categoria os materiais que serão consumidos em operações não produtivas”.

Por possuírem caráter específico, os estoques devem ser tratados levando-se em conta os aspectos que lhes são únicos e que os diferenciam dos outros itens do Ativo. Observe-se como esses aspectos podem ser evidenciados. Os “ativos monetários” representam: a) disponibilidade imediata, tal como caixa, bancos e aplicações financeiras de pronto resgate; b) disponibilidade em data futura, as contas a receber, e c) valores a serem ressarcidos por lucros futuros da própria organização, as despesas de exercícios seguintes. Os itens do almoxarifado encontram-se fora de qualquer uma dessas conceituações, uma vez que o seu valor efetivo somente poderá ser aferido quando de sua venda, geralmente dependente de variações futuras de preços.

Nas organizações industriais, comerciais e de atividades agropecuárias – exceto aquelas que se dedicam exclusivamente à prestação de serviços, onde não há a utilização de matérias-primas e produtos – os estoques têm dois aspectos fundamentais, embora que conflitantes entre si. Primeiro, representam bens de negócio, ativos circulantes, disponíveis e necessários para a efetivação dos negócios, de tal forma que sem estoques, essas organizações não teriam meios para realizar vendas e, consequentemente, obter faturamento. O outro ângulo relacionado aos estoques é que eles têm significativo reflexo na situação financeira das sociedades.

O conflito de posições de gerenciamento é inevitável. E o fato curioso é que esse conflito é saudável e deve ser incentivado. Por um lado, a maximização dos níveis de estoques é justificada por aqueles que os veem como elementos preponderantes na geração de recursos para a organização. Alegam que são eles que atendem à demanda (interna à empresa) por matérias-primas, ao mesmo tempo em que satisfazem a procura externa por produtos acabados fornecidos pela sociedade, tudo isso em cenários de incertezas e flutuações constantes dessas mesmas demandas, de modo que a falta de itens podem afetar a produtividade, o faturamento e os lucros. Por outro lado, outros administradores analisam o problema com outra visão e advogam a sua minimização, alegando que os itens parados nos estoques não agregam valor aos produtos, que são encarecidos pelos custos da manutenção física (seguro, guarda, segurança e controle), além dos custos meramente financeiros; estes, causados pelo emprego de recursos escassos na compra dos produtos estocados, sem retorno em tempo hábil. Há, ainda, que se considerar fatores tais como riscos de encalhe, danificação e defasagem tecnológica.

O grande desafio para o setor financeiro está no fato de que os estoques precisam ser adquiridos antes da realização das vendas. Além do mais, não há certeza absoluta da realização das vendas desses bens, a menos que se trate de produção ou aquisição com venda pré-estabelecida. Esses dois fatores tornam incertos quaisquer níveis preestabelecidos para os itens estocados. A melhor solução financeira seria aquela em que as vendas impulsionassem a produção e esta, por sua vez, motivasse as compras de insumos e produtos. Acontece que o movimento da realidade caminha no contra-fluxo dessa probabilidade. Daí o porquê de sempre os estoques representarem um investimento financeiro de realização incerta. Cabe ao setor que cuida da administração financeira proporcionar meios para garantir as operações de produção e venda, porém, sem descuidar do controle dos níveis dos estoques. Em quaisquer condições, um nível de estoques acima do recomendável encarece o produto final da sociedade, podendo reduzir lucros ou inviabilizar a presença de um ou mais produtos da empresa no mercado e, consequentemente, abrir brechas para que os concorrentes “roubem” seus clientes.

O problema vai além da produção-custo e venda-lucro. Os estoques envolvem aspectos muito maiores e com faces múltiplas, que envolvem o recebimento de matérias-primas e mercadorias, armazenamento, acompanhamento de uso do material na produção, abastecimento dos pontos de vendas e Auditoria de estoques.