FOGO NA FOGUEIRA POLÍTICA

Tomislav R. Femenick
Cazeta do Oeste. Mossoró, 20 fev. 2008.
O Jornal de Hoje. Natal, 28 jan. 2008.

Há alguns pesquisadores que dizem que o agravamento das relações, entre as forças que apoiavam o presidente João Goulart e os círculos militares, teve inicio em Natal. Jango sempre imprimiu medo aos meios conservadores, dos quais esses militares eram integrantes. Suas promessas de reformas agrária, fiscal, política e universitária iam muito além do que a elite, até então dirigente do país, poderia suportar. Sua aproximação com alguns movimentos de esquerda desgastou mais ainda sua imagem junto à direita.

A atuação de algumas pessoas próximas ao presidente contribuiu para a formação dessa imagem. As atividades do deputado federal Leonel Brizola eram emblemáticas. No dia 5 de maio de 1963, em um comício realizado em Natal, a convite da Frente Nacionalista do Rio Grande do Norte, o ex-governador do Rio Grande do Sul e cunhado de Jango, atacou frontalmente o General Antonio Carlos Muricy, comandante da 7ª. Divisão de Infantaria, acusando-o de gorila e golpista. Faz apelos para que os soldados do Exército, Marinha e Aeronáutica pegassem em armas, em defesa das reformas de base. Declarou ser necessário “colocar mais fogo na fogueira e aumentar a pressão contra o Congresso para conseguir a aprovação das reformas indispensáveis à vida brasileira”. Na manhã seguinte, o General Muricy recebeu uma manifestação de desagravo por parte de todos os oficiais alocados em Natal e, ainda, de sargentos, suboficiais e entidades civis. O episódio de Natal serviu como alerta aos militares de todo o país, fazendo com que milhares deles também se solidarizaram com o general.

Todavia alguns segmentos da esquerda também questionavam as tendências do governo Goulart. Segundo o historiador Francisco Iglécias: “A esquerda reclama cada vez mais, julga-o comprometido com o imperialismo e o latifúndio, enquanto o centro e a direita o atacam como subversivo. As greves se sucedem, há generalizada desconfiança, com acusações de golpismo, da esquerda à direita, da direita à esquerda. Os políticos, convencionais ou centristas, o recusam por motivos óbvios; as organizações populares também”.

Esse clima de confronto ideológico, as greves meramente políticas que paralisavam o transporte urbano e interurbano, os bancos, o comércio, a indústria, bem como as greves estudantis, criaram um cenário de falta de poder. Em julho e setembro de 1962 tinham acontecido duas greves gerais, com saques às lojas e morte de quase 50 pessoas, além de ferimentos em cerca de 500. A partir daí a oposição passou a considerar os movimentos paredistas como instrumento de pressão, manipulado pelo governo.

O dia 13 de março de 1964, uma sexta-feira, marca o começo do fim do governo Goulart. Em um grande comício, realizado na praça em frente à Central do Brasil, no Rio de Janeiro, que reuniu cerca de 250.000 pessoas, Jango assumiu suas aliança com as lideranças sindicais e de esquerda. Novamente Brizola fez um dos seus discursos radicais, talvez o mais radical de todos eles: Apelou para que se fechasse o Congresso e para que se efetuasse um plebiscito “para se instalar uma Assembléia Constituinte com o propósito de criar um congresso popular, constituído de trabalhadores, camponeses, sargentos, oficiais nacionalistas e autênticos homens do povo”. A participação do presidente no comício foi mais prática e menos inflamada. Em praça pública assinou dois decretos (um estatizando as refinarias de petróleo; outro elegia terras para a reforma agrária) e anunciou o controle dos aluguéis e as reformas tributária e universitária e o direito de voto para os analfabetos e pracinhas.

Daí para frente, a situação somente se agravou e terminou no golpe militar. Assuntos para outros artigos.

No dia 2 de fevereiro de 1967, publiquei a seguinte reportagem no Diário de Natal:

PRÉDIO DO HOTEL ABANDONADO

A história do Esperança Palace Hotel, de Mossoró, construído pelo governo passado, tem muito de curioso e cômico, se não trágico para a cidade. Obra iniciada pela administração municipal, por volta de 1959, foi depois paralisada por falta de recursos para sua continuação. Em 1961, depois de muitas querelas entre a Prefeitura de Mossoró e o governo do Estado, a construção passou para a alçada estadual. Consumada a transação, ficou a população de Mossoró na espera da continuação das obras. Da demora valeram-se as forças oposicionistas para usar o arcabouço do hotel como cavalo de batalha, em arremetidas contra Dinarte Mariz, o então governador. Dizia-se que a promessa de construção era apenas “uma a mais do governador”. Finalmente, depois de servir como ponto de referência política, a obra foi dada como construída, no governo de Aluízio Alves.

Entretanto, as batalhas seguintes – a inauguração do prédio e o funcionamento do hotel – ainda não terminaram. Infelizmente para que isso aconteça muita coisa terá que ser feita, incluindo entre outras, alguns serviços de acabamento do imóvel e, o que é mais importante, a aquisição do seu equipamento e mobiliário, que ainda não existem. E enquanto os mossoroenses esperam a inauguração, passam a banda e o tempo, e os equipamento e os móveis não chegam.

Todos quantos veem a imponente obra (que custou aos cofres do Estado até agora cerca de um milhão de cruzeiros) com suas portas fechadas lamentam que um prédio tão importante esteja condenado ao abandono, sem prestar os serviços para os quais foi idealizado. E o pior é o péssimo estado de conservação em que o mesmo se encontra, sem ter quem o olhe por dentro, porque por fora todos o olham e constatam o abandono a que foi renegado. Suas paredes já sentem o efeito da poeira mossoroense, os vidros de suas janelas já começam a se partir e por dentro, nas partes que podem ser vistas através dos vidros das lojas térreas, acumula-se a poeira, numa mostra patente de completo abandono. Acreditamos, e conosco toda a população de Mossoró, que construção de igual porte não se faz apenas para servir de ornamento à cidade. Os milhões gastos no Esperança Palace Hotel, transformaram-se em capital ocioso, que nada rende para o Estado e que não serve ao desenvolvimento da cidade.

Afora pequenas obras de acabamento, os equipamentos e móveis, somente falta para o funcionamento do hotel, vontade política por parte do governo estadual, a quem cabe tomar as providências no sentido de fazer funcionar a obra que constitui em aspiração do povo mossoroense. Enquanto o governador Walfredo Gurgel não toma essas medidas necessárias, a cidade e o povo de Mossoró, penalizados, assistem à deterioração do prédio que somente enfeita a Praça Vigário Antônio Joaquim. Lamenta-se mais ainda a falta que um hotel de categoria faz à cidade.